Estritamente pessoal

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Por Fernando Vázquez Corredoira

É bem conhecido que Voltaire não era ateu. Com independência dos fundamentos intelectuais que o levassem a acreditar na existência dum Grande Relojoeiro indiferente às liliputianas misérias humanas, Voltaire reservava o seu deísmo para um grupo mui restrito da humanidade: os filósofos. Até seria concebível que um grupo de ateus que fossem assomade filósofos pudesse levar uma vida feliz e judiciosa ao abrigo da lei.

Mas as massas, essas, deviam continuar a crer num Deus barbudo e justiceiro. Mesmo supondo que Ele não existisse, era bem conveniente que a plebe continuasse a crer no tal Deus justiçoso e barbado, porque a única maneira de conseguir que as pessoas se conduzam como é devido – diz o filósofo algures – é fazê-las crer que serão premiadas ou punidas na outra vida.

Podemos dizê-lo de maneira mais genérica: existem certas verdades ou possíveis verdades que devem ser zelosamente ocultadas do conhecimento do vulgo ou da discussão pública porque, caso contrário, daí poderiam advir inconveniências práticas. Neste caso, Voltaire julgava necessário que, em ordem a preservar a paz social, as massas continuassem a acreditar na fé dos seus maiores, embora ele, filósofo, se guardasse bem de crer num Deus pessoal ocupado das cousas humanas.

Sei ao menos dum outro filósofo francês que usou de idêntico raciocínio oligárquico: Jean-Paul Sartre.

Em Fevereiro de 1956, durante o XXº Congresso do Partido Comunista da União Soviética, Nikita Khrutchev apresentou, à porta fechada, um relatório a condenar os crimes de Staline ligados ao «culto à personalidade». O texto completo do relatório foi dado a conhecer à opinião pública francesa no mês de Junho (jornal Le Monde). Eis a reacção de Sartre: «O resultado foi descobrir a verdade para as massas, que não estavam preparadas para a receber.»

Fica claro: há certas questões que devem ser tratadas de maneira cautelosa e reservada, entre filósofos, filólogos, literatos ou políticos mas cujo público debate deve ser vedado porque as «massas» não estão preparadas.

 

As massas não estão preparadas

 

Digamo-lo melhor:

…una especie de artículo de perfumería para uso íntimo y estrictamente personal, pero de efectos catastróficos si se incurre en el error de rociarlo a granel por esas calles para consumo público y social. Ahora el «rechazo de la realidad» está muy bien como entertainment, como escape, o sea como folclore, pero Dios nos guarde de tomarlo en serio. (Rafael Sánchez Ferlosio, Non olet, 2003)

Paga a pena repetirmo-lo:

si se incurre en el error de rociarlo a granel por esas calles para consumo público y social.