Efeuticismo e Feiticismo. Sobre o galego excessivo

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Por Fernando Vázquez Corredoira

O que me bota agora a escrever é uma nova leitura da revista Nós. Em rapaz lera-a cheio de admiração sôfrega. Dias passados topei-me outravolta com ela nas prateleiras dum alfarrabista. Comprei-a e dispus-me a reviver arregalos velhos. Fruito desse reencontro são estas sincopadas notinhas acerca do galego excessivo.

Serei parcial e procurarei não ser mui injusto.

Afellas que é un bô Diuzoairo, que moito cômprianos.

Há licença para todos os excessos. Quase qualquer cousa é possível. Exaspera e espanta. É um galego admirável, afoitamente experimental, passavelmente autista e que causa grande efeuto — isso sem dúvida! Bem que, de resto, quando visitado com frequência, termine por enfadar. Eu frequentei-o, enfadei-me, e parece-me que aí pastámos todos — todos os poucos que líamos em galego. O pouso temo-lo todos. Tenho provas. Embora um tanto desmaiadas, essas cousas são ainda bem vivas entre nós.

E ocorre-me se — e esta é uma suspeita que me desacouga — se não será que o Lusismo é o derradeiro avatar dessa ansiosa invenção da Autenticidade, trocada agora em feiticismo grapho-maníaco. Deixo a conjectura no ar e volto ao galego eiscessivo maquinado pela revista Nós.

Donde sai? Quem o inventou? Como e por quê?

Não faço tenção de responder com minúcia a estas questões. Andam respondidas com perspicácia e rigor exaustivo por livros, artigos e congressos.

Eu enxergo-lhe várias camadas ou estratos.

(i) o Gallego Carvajaliano

Quem lê hoje Valentín Lamas Carvajal? Ninguém. E é bem provável que mui poucos lhe saibam pouco mais que o nome, se a tanto chegam. Entende-se.

Lamas Carvajal foi

o fundador do Tio Marcos d’a Portela

fixo tanto e tan bon pra nosa fala

qu’axudou c’o seu estro a colocala

a unh’altura envidiabre, dina dela

Os Carvajalianos não inventam ou inventam pouco. Reiteram num gallego estudadamente espontâneo, rexional, rústeco e enxebre. Com eles aprende-se.

(ii) Os Troiãos

Alguns dão em ler a Crónica Troiã na versão de Salazar e outros textos velhos, e ei-los lançados à recobrança do galego perdudo. /maa, século, conquerir, chumbo, vedro… reaparecem sobre o papel nesses tempos.

Neste ponto arcaísmo e portuguesismo acasalam-se mais ou menos bem dados.

(iii) A Indiscipriña

Todos parecem praticar a indisciplina etimológica com destemida alegria. Vocalizam, elidem, apocopam, assimilam, dissimilam. Inventam. Pegam numa verba qualquer e submetem-na a evoluções. É o reino do hiper-enxebrismo laboratorial.

Dicionário? Não, não é galego avondo. Em galego-avondo é dizoairo.

(iv) Lêem em português, sim.

Teixeira de Pascoaes, o inaturável vate amarantino, é objecto de entusiástica e particular veneração. Mas não são Lusistas. Aí não vos enganedes. Cuido que o português lhes parece demasiado achegado do castelán. Demasiado normal. Tomam dele este ou aquele vocábulo com que borrifam o seu galego estupendo que andam a engendrar. Mas falta-lhes a modéstia de se reconhecerem deficientes em matéria de língua nacional – e são-no – e é por isso que não aprendem mais1.

Este galego fervilhante e optimista não muda porém velhos hábitos gráficos, a não ser talvez um uso menos pródigo do apóstrofo. Continua a escrever-se à galega, quer dizer, à castelhana.

 

NOTA: Felizmente, o Instituto veio dar cabo de tais eiscessos. É uma louva sincera e merecida. Mas deve reconhecer-se que o que se ganhou em comedimento perdeu-se em maravilha. O galego escrito actual, fiel espelho do momento galeguista, tornou-se uma triste e plúmbea platitude.

 

1 Pergunto-me se poderá atribuir-se qualquer vocação lusista meditada a textos que, ao lado de

afeizón, asín, emozón, coluna, estudante, feio, graza, heroi, meio, nubens, presenza, rumo

rezam

aito, alcouba, caraiter, cenza, cristaizar, discipriña, emozoado, esceitico, foulas, montana, proieutos, orgulo… e basta já.

 

 
Ilustração na Revista Nós