“Lengua pública” vs. “lingua privada” ou a privatização -induzida- do galego

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Por Heitor Rodal Lopes

No nojento (e hipócrita) jogo político entre o público e o privado que realizam certas ideologias e organizações, mutável e adaptável segundo as suas próprias conveniências e bem evidenciado na atual crise (vg: ganhos privados vs. repartição “social” das perdas), andava pensando eu se não é afinal esse mesmo o esquema que se está a aplicar no conflito linguístico ao galego, convertendo um direito reconhecido (o direito a conhecer o galego e a obriga dos poderes públicos de garantir e efetivar esse direito), num “vício” privado rejeitável que quase cada “viciado” ou “enfermo” deveria custear.

O espanhol, porém, já é tratado geral e unanimemente como um “serviço público de livre acesso (e portanto gratuíto e universal)” que ninguém é já capaz, nem sequer o “nacionalismo galego mais ferreño“, de questionar.

É, por falarmos doutro jeito, a filosofia da ultradireita norteamericana aplicada à sanidade, trazida aqui ao âmbito linguístico, onde o galego seria uma “doença” particular e quase inconfesável que o sistema sanitário geral não está obrigado a tratar. Assim, o galego acaba ficando mais equiparado ao tabaquismo do que a uma Língua reconhecida cujos falantes usufruam dos direitos próprios desse reconhecimento.
Há, por outro lado, alguma prova mais evidente de que os “bilingualizados” somos cidadãos de segunda neste país??

Pois bem: mesmo aceitando esse esquema (espanhol = serviço público gratuíto e universal vs. galego = vício privado, para quem o quiser e à sua custa), que não parece que vaia ser mudado nos próximos anos (décadas?), o “nacionalismo” galego tirou só pola via dogmática da “justiça” das suas reclamações -como se o mundo fosse justo … ha! – e desbotou jogar as suas possibilidades, com os conceitos claros (galego = português, e portanto abertura, potencial econômico, etc..) e, mesmo aceitando a perversidade do sistema, provar as suas possibilidades de ganhar, enquanto o nacionalismo espanhol aprofundava na caraterização do galego como algo excecional que não deve ser promovido, nem mantido, mas apenas já, no máximo, tolerado.
E nesse roteiro é que se inserem todas as medidas tomadas a respeito da nossa Língua desde a chegada ao poder do atual governo galego.

No entanto, outros, com menos potencialidades a favor e sem abandonar a via da exigência e reclamação perante os poderes públicos, fizeram caminho aceitando a desigualdade e injustiça do esquema e campo de jogo delineado por outros e tiraram grandes benefícios. Falo, evidentemente, dos exemplos basco e catalão, (mal) utilizados amiúde no entanto só para nos enclausurar -ainda mais- no marco estadual espanhol.

Por que aqui a sociedade e as organizações políticas nacionalistas, catedráticos, professores, etc . foram -e continuam a ser- tão medonhentos ?!

Para a minha surpresa, um comentarista dum conhecido meio de comunicação gallego veio há pouco tempo a incidir na mesma tese, mas desde a perspetiva contrária, é claro, e sem reconhecer que nisto da “privatização do galego” tanto fizeram os uns, quanto os outros… ainda que, no mínimo os outros, tiraram partido dela, entanto que “os nossos” ficaram apenas pendurados do cartaz e da faixa.

Não se trata, evidentemente, de deixarmos nenhum espaço livre ao adversário (o da justiça das nossas reclamações ante os poderes “públicos”), mas de travarmos batalha em todos os frentes…

Máis de Heitor Rodal