EM LUME BRANDO

Cantilenas de eliminação

Distopia, 2020



Tal como as previsões auguraram, o mundo, juntamente com a desaparição de espécies animais e vegetais, enfrenta uma desaparição maciça de línguas e é por esta razão que a organização das Nações Reunidas decide que, dado que não pode salvá-las todas, vai escolher um grupinho delas para investir aí os recursos necessários para a sua manutenção.

A RAG (“Reunión de Arroutados Galleguistas”), que é a entidade que por encargo do governo regional vela pola saúde do idioma de Galicialand emite um soleníssimo pronunciamento chamando a sociedade civil à movilização: é claro que Galicialand e o seu idioma não podem inassistir a tão alta ocasião.

A partir daí, a ‘Chunta-chunta-Chun’ que é o governo regional de Galicialand, a imprensa regional – La Coz de la Avaricia, El Chorreo Galiciano, etc…  que já alviscam os quantiosos subsídios que a generosa campanha das Nações Reunidas poderia achegar às suas arcas em troca de celebrações rituais e minúsculos artiguinhos de apoio à língua moribunda inseridos nas suas páginas – e até os partidos políticos e sindicatos todos (Partido Eucaliptero, Biba o Nadal Galegueiro, Mareados, Partido-desorientado-nin-subo-nin-baixo, …) lançam uma campanha para que Galicialand concorra oficialmente à reunião.

O consenso é pasmoso: Galicialand não pode faltar a uma reunião de línguas ameaçadas. “É por dereito propio”, clamam uns. “Non foi sen tempo. Traballamos duramente e durante moitos anos para esto”, dizem outros. É assim que numa “xuntanza”, e trás abundante paparota,  todas essas entidades decidem por consenso quem será o representante galiciano-galegueiro no cúmio de línguas ameaçadas: Enrique Puntiagudo, flamante secretário da RAG.

O estado espanoli, signatário da carta continental das línguas menorizadas, adere ao consenso e põe a disposição da campanha todos os recursos administrativos e diplomáticos do estado para conseguir a assistência do representante da RAG a tão insigne reunião. E não só: oferece as mesmas facilidades e apoio aos representantes de todos os idiomas, línguas, falas, linguajares e até gírias gremiais e grupais do estado igualmente ameaçadas: o valencianoide, o asturianete, o aranocitano, a gíria dos canteiros, o castuo, o panocho, o madrileño cheli, e por aí adiante… . “¡Por nosotros no será!”, clamam. E abofé que lá estará bem representada a babel linguística espanoli, tal e como o ordenamento jurídico vigorante e a sacro-santa Constituição estabelecem.

Da mesma maneira, outros países tão respeitosos com o seu patrimonio linguístico-cultural como a Francolândia não ficam atrás e fazem outro tanto, conseguindo a assistência dos representantes da língua rosellonesa, da elsaciana, da corsa, etc… .

Finalmente, tras varios de días de negociações, as Nações Reunidas confirmam que Galicialand, junto com os representantes de todas as outras línguas menorizadas espanolis, francolesas, etc…, estarão presentes no conclave. O alvoroço em Galicialand é imenso: “por fin seremos escoitados e respectados”, dizem uns. “Isto é un recoñecemento internacional explícito”, acrescentam outros. “Isto amosa o importante que somos e que estamos na vangarda das linguas ameazadas por dereito propio”, proclamam uns terceiros. “Eu incluso diría máis”, dizem ainda uns outros.

A véspera de partir para a reunião, uma grande e solene cerimónia de despedida, após generosa paparota, tem lugar na sede do governo galiciano. Com báguas nos olhos, os representantes do governo, entidades, partidos, jornais e editoras galegueiras e da sociedade civil despedem o arroutado e emocionado representante da RAG – e de Galicialand enteira! -: “eres a nosa última esperanza”, dim-lhe.  O Enrique Puntiagudo promete que não os vai defraudar e que dará alma e corpo para deixar “o pabellón de Galicialand ben alto”. De fundo soa o hino da região e até o Hino do Antigo Reino.…

No dia seguinte, o representante galiciano galegueiro está junto com os representantes das outras minorías lingüísticas ameaçadas na sede das Nações Reunidas. Os altos funcionários das Nações Reunidas explicam perante os representantes das línguas em perigo de extinção lá presentes que, após pensar e pensar em qual a melhor maneira de escolher as línguas que deviam ser resgatadas, decidirom que não podiam aplicar nem critérios qualitativos nem critérios quantitativos, dado que todas as línguas são igual de importantes, tenham um ou um milhão de falantes, e que portanto a escolha iria ser feita de maneira aleatória: fariam virar uma roleta e a pessoa que fosse apontada por ela deveria cantar uma cantinela de eliminação para decidir que línguas devem ser expulsas e passar diretamente para o Museu das Línguas Mortas das Nações Reunidas, onde poderão ser convenientemente amortalhadas e embalsamadas.

A roleta vira e… acaba apontando para o Enrique Puntiagudo, que fica muito ufano por tão alto honor: vai ser o seu excelso dedo quem escolha quem se salva e quem não. E, de seguido, apontando com o dedo índice começa a recitar olhando para os outros representantes:

“Pito, pito, gorgorito, dónde vas, tú tan bonito,…”

Um murmúrio ergue-se entre as filas dos representantes e decidem, por votação espontânea e para não perderem o tempo, enviar imediatamente o representante de Galicialand de volta para casa e a sua língua para o Museu das Línguas Mortas.

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PS: posteriormente o representante galiciano galegueiro, que voltou sem entender nada do que se passara, afirmou seriamente à sua chegada à terriña que isso “tiña sido unha aldraxe inxustificada feita a Galicialand” e que ele voltava com “a cabeza ben alta”e com “o deber cumplido”.

Imediatamente, as “forzas vivas” da região – goberniño, imprensa, partidos políticos, sindicatos… – apoiam o pobre representante: trás décadas de andar a fazer figura e a berrar entre eles, por fim têm a quem lhe deitar as culpas da desfeita linguística final galiciano-galegueira.

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Reflexão. Dado que uma língua a sério deve cobrir todos os aspectos possíveis da vida:

PERGUNTA 1: conhece alguma cantilena de eliminação em galego?

PERGUNTA 2: conhece alguma cantilena de eliminação em galego específica da Galiza?

 

NOTAS:

http://misteriojuvenil.com/forum/viewtopic.php?t=36&start=0&sid=115e1ee2e897897ae39465e70f688951

 

 


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