EM LUME BRANDO

ñexit



Na década de setenta do século passado os biólogos chilenos Humberto Maturana e Francisco Varela desenvolveram o conceito de autopoiese [1], no seu intuito de darem conta da “organização dos sistemas vivos como redes fechadas de autoprodução dos componentes que as constituem”.  Ou, dito doutra maneira, da capacidade dos seres vivos de se produzirem a si próprios.

Ainda, uma das definições mais importantes desenvolvida nessa teoria é o conceito de “fronteira”: aquilo que se interpõe entre o interior e o exterior dos seres vivos e que, regulando e gerindo as entradas e saídas e os intercâmbios entre ambos, evita que estes seres acabem amalgamados, dissolvidos e confundidos com o seu entorno. Assim, segundo os biólogos chilenos, a vida não é possível se não existe uma fronteira definida entre “dentro” e “fora”.

Esta teoria tivo em verdade um grande impacto não só no campo da biología, mas ainda nos campos da teoria de sistemas ou na sociologia entre outros. E o certo é que, aplicando-a a um dos entes culturais mais achegados a nós, é possível dizer que a “cultura galega” tradicional e, depois de aquela, a que baseou a sua estratégia  no apoio político e financeiro dos poderes autonómicos para se suster, perdeu em grande medida a sua capacidade autopoiética. Isto é: perdeu a capacidade para se (re)produzir a si própria.

Se a primeira delas perdeu essa capacidade como consequência da sua inadaptação “aos tempos modernos” [2], a segunda, mesmo ter disposto durante anos de meios humanos, políticos e económicos para o fazer, perdeu-a por falta de “fronteira” que delimitasse o seu “dentro” e o seu “fora” a respeito da língua teito com a qual devia competir. De facto, não é preciso ser um especialista para perceber que no assim chamado “galego moderno”, qualquer elemento castelhano pode funcionar como lídimo e genuíno elemento galego [3]. A questão é portanto tentar saber como é que isso pode acontecer com tal facilidade e sem que a maior parte do pessoal nem sequer repare nisso.

Numa situação de proximidade linguística tão estreita como a que existe entre o galego-português e o castelhano-espanhol, a realidade é que, para além doutros elementos que possam cooperar, a afinidade linguística de ambas as línguas faz com que a possibilidade de empréstimos de todo o tipo entre ambas línguas seja grande. Logo, se se quiser evitar a desaparição por fusão ou dissolução da língua mais fraca ou enfraquecida na mais possante, parece lógico apurar todas as possibilidades ao dispor para estabelecer e reforçar essa fronteira entre o “dentro” e o “fora” daquela.

Assim, num contexto como o nosso pode afirmar-se que a ortografia constitui em verdade uma fronteira linguística não negligível e, portanto, dependendo de qual das duas ortografias principais em disputa se escolher, esta facilitará a importação de elementos dum determinado âmbito lingüístico, entanto que dificultará a entrada de elementos do outro. Noutras palavras: quem está afeito a empregar a ortografia espanhola terá tendência a ir procurar nessa ortografia os materiais que não achar diretamente “en galego”, entanto que quem estiver afeito à ortografia portuguesa, í-los-á procurar lá. E a partir daí será essa escolha a que favorecerá a importação de elementos dum âmbito linguístico e dificultará a do outro.

Pois já logo, se o discurso de todas as fações linguísticas galegas é que é preciso achegarmo-nos à lusofonia, que tal se realizamos um ‘ñexit’ [4] a sério e estabelecemos de vez a fronteira linguística e ortográfica de onde nunca devera ter sido movida?

Notas:

[1] https://pt.wikipedia.org/wiki/Autopoiese

[2] Paradoxalmente, com o esgotamento de recursos e a mudança climática provavelmente iremos precisar de muitos dos conhecimentos que essa cultural tradicional atesourava.

[3] https://feismolinguistico.wordpress.com/

[4] ‘ñexit’, neologismo acunhado para exprimir a saída do âmbito linguístico e cultural hispanófono simbolizado na sua letra-totem, o “ñ”.

Heitor Rodal

Heitor Rodal

Heitor Rodal Lopes nasceu em Donóstia e atualmente mora e trabalha em Barcelona. Apaixonado do pensamento sistémico, não acredita nem nas visões reducionistas, nem nos movimentos sociais homogéneos, mas na interação de individualidades diferentes e variadas que dão lugar a propriedades emergentes imprevistas.
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