Pragmatismo histórico



Carlos Quiroga | Fotografia de Santos Díez (arquivo AELG)

Carlos Quiroga | Fotografia de Santos Díez (arquivo AELG)

Um representante do Instituto Camões em Vigo e ao tempo leitor na universidade de Santiago bate a mão sobre a mesa em Madrid. Estudar (e ensinar) a Língua Portuguesa no noroeste ibérico tem um sentido absolutamente diferente ao de fazê-lo noutro lugar qualquer do estado espanhol, da Europa, até do mundo. Pedagógico, político, simbólico. Trato e estratégia outra… Uma alta assessora do IC que lá estava viaja nos dias a seguir à província, sossegar rebeldes e desfazer motivos. Mas em Compostela há paredes que falam, bocas que explicam e canções que recordam. Em 48 horas de passeios e gastronomia, sem nada prevenido mas bem acompanhada, ouve, vê e talvez comece a entender aquilo que ainda estranha sociólogos aparentemente informados: as curiosas classificações de grande poder afectivo, com usos de vocabulário de parentesco ainda frequentes, os resíduos de propostas ou expectativas de aproximação luso-galaica, as manifestações como lusismo ou reintegracionismo que ocasionalmente formula um graffiti ou se desprende espontânea na conversa ao lado. Talvez comece a entender privadamente, pois há dúvidas sobre o recado que tenha passado à instância superior, e a regra de caducidade de estadia de leitores e diplomatas (talvez para não ficarem abduzidos pelas nações de destino) não consta que tenha mudado. Mas mudou o quadro para Madrid e Lisboa poderem contornar receios por causa da língua na Galiza.

A visita anterior (há anos) aconteceu quase ao mesmo tempo que na impotência de desconseguir mudar o mundo algum desses agentes das conversas ao lado, dos graffitis engraçados ou das canções que espontaneamente assopravam os rescaldos do parentesco, procuravam outras fórmulas sem bater nada sobre a mesa. Com as cartas que as esmagadoras circunstâncias repartem. E cumpre aqui apontamento histórico: por muito coçada que esteja a verdade mil vezes repetida sobre uma relação umbilical entre a Galiza e Portugal esta não passou a ser mentira. O laço de sangue remonta ao nascimento da nação do sul e continua tecendo-se durante séculos. A redescoberta e uso intelectual do vínculo no discurso cultural e político fundamenta a tomada de consciência identitária e a fundação da nação do norte. Em sintonia com a geração portuguesa organizada à volta da revista A Águia, que acaba por gerar o movimento Renascença Portuguesa, a geração Nós galega lança-se num alvoroço de trocas nunca vistas. E há quase um século, Leonardo Coimbra, que tinha sido ministro de instrução Pública dois anos antes e que voltaria a ser um ano depois, que era diretor da Faculdade de Filosofia e Letras do Porto e deputado, vai lá ver também de comboio na Galiza. Vai com artistas, poetas e o Orfeão Portuense, e os membros das Irmandades da Fala galegos vão saindo-lhe ao caminho em Ourense, Monforte, Betanços, Guísamo, Corunha. O festival de concertos, conferências e trocas alcança milhares de pessoas presentes, e o Leonardo deveu entender, privada e publicamente: na altura não haveria que promover mais lei que a da continuidade do encontro.

Artigo 'Pragmatismo histórico' nas páginas do Jornal de Letras

Artigo ‘Pragmatismo histórico’ nas páginas do Jornal de Letras

Mas chegaram ditaduras, exílio ou morte. O latente galeguismo foi recuperando o sinal do laço que tem passado sempre pela língua. No ano em que nascia Pessoa –trineto por certo de galego–, António de la Iglésia publicava o poema “Ortografia Gallega” em jornais: o galego tem pais nobres e séculos de antiguidade, nasceu antes que a língua de Castela, a portuguesa deve-lhe quanto ela pode, a sua representação fonética é um estorvo, e aos bons literatos recomenda-se estudo e prática etimológica, e olhar para os poetas e escritores de Portugal pois empregam a mesma “vosa língoa e voso corte”. A proposta com 25 lustros de antiguidade foi sendo batida sobre a mesa pela mão do galeguismo com continuidade e ao tempo esterilidade de aletargar-lhe memória. Nem aceitou culturalmente a proposta de Lapa com bons olhos nos anos 70, quando se estava a acomodar, nem foi capaz de lembrar-se como mexer no assunto em princípios deste século, quando tocou poder na Junta da Galiza. E foi-se entretendo em Bruxelas a pedir que o galego fosse língua de trabalho, esquecendo o sentido pedagógico, político e simbólico, daquilo que exigiam as circunstâncias. Entretendo e esquecendo, aceitando que o galego só é um problema, fazendo ele mesmo parte do problema.

As tentativas de aproximação continuaram vivas numa resistência de língua e ortografia que o galeguismo mais oficial foi invisibilizando nas suas estratégias lastradas de fracasso. Tentativas que, atenção e ninguém se engane –nem mesmo na intoxicação que esse mesmo galeguismo oficial e maioritário na sua minoria foi assumindo–, nunca buscaram a colonização de uma língua estrangeira: procuram é a preservação da própria, quando as estatísticas de uso do galego anunciam o pavoroso deserto. Deixando de parte discussões mediáticas que chegam a querer reduzir o alarmismo, cito de uma entrevista no Portal Galego da Língua (pgl.gal), que no outro dia dava uma menina de 16 anos, nascida na Roménia e residente em Arçua desde 2005, Andrea Birsanu: “o galego da maior parte dos estudantes está castelhanizado e nem nós mesmos nos damos conta. É incrível a quantidade de erros cometidos mesmo cuidando o léxico. A língua que se emprega, tanto dentro como fora das aulas, é o galego. A exceçom de algumha matéria concreta, como a física e a química que é obrigatória lecioná-la em castelhano. Gostaria de saber o porquê mas quando perguntei dixérom-me que era umha lei e que as leis estám para ser acatadas. Esta é a educaçom de agora. Nom preparar-nos para pensar por nós mesmos, senom preparar-nos para acatar ordens, cumprir leis ainda que ataquem a nossa integridade como mulheres/homens e a nossa cultura, tradiçom, etc. dá igual. Há que acatar umha lei porque assim o quer o governo.

Ter várias cadeiras em galego é uma raridade. A moça confessa ademais a sorte de ter uma professora que educa para pensar e não para obedecer –e tendo-lhe pedido conselho, decide “começar a empregar o galego-português”. Bem, pois na fenda diária de quem não tem tanta sorte, de quem está sob o peso das leis que há que cumprir, colocou-se a iniciativa em foco. Uma das mais sérias para dar amparo ao galego desde um pragmatismo de século XXI, lançada na campanha popular que recolheu mais de 17 mil assinaturas em 2012, com petição de ensino da língua portuguesa nas escolas e maior aproveitamento da “riqueza” de tê-la ao lado. O Parlamento aprovou com unanimidade de surpreender até o galeguismo oficial e maioritário na sua minoria, que não esperava da direita do PP espanhol anuência. O acontecimento não pode ser mais extraordinário para a nação de pessoas do norte, ainda que a mídia pouco se tenha entusiasmado. A visibilidade, interesse, possibilidades que oferece o português como língua global, a exposição que lhe faculta especialmente o Brasil, consentem hoje talvez melhor do que nunca o sentido comum de todas as orientações políticas concordarem em que seria bom estudá-la e aprendê-la também no seu ninho. Por cima das fronteiras que o capitalismo dissolve. A aprovação da lei Paz-Andrade, mérito diplomático da infatigável comissão que a promoveu, resgata uma esperança moribunda. Neste discurso, o galego não é problema mas oportunidade, como reza o título de um livro recente e bem praxista sobre o tema. Neste discurso, não estorva o castelhano e é uma sorte ter o português na Galiza. E se há que acatar as leis, como advertia a moça, eis a que ganhou a sociedade civil e a diplomacia, venham os decretos que a efectivem porque nela cabe todo o leque –quem achar o português língua estrangeira, quem achar português ser galego, quem graduar proximidades. O caso é haver agora uma enorme expectativa histórica, não de maior crescimento do português no mundo –mas de sobrevivência desta língua na sua raiz. Façam favor de cumprir as leis.

Nota:

Artigo publicado originalmente no n.º 1.155 do Jornal de Letras (de 7 a 20 de janeiro de 2015). O artigo é também disponibilizado no formato PDF com a permissão do autor e da publicação. Forma parte de um especial sobre a Galiza e a Lusofonia.

Carlos Quiroga

Carlos Quiroga

Carlos Quiroga (Escairom -Terra de Lemos-, 1961) é escritor e professor de literaturas lusófonas na Universidade de Santiago de Compostela, membro da direcçom da Associaçom de Escritores em Língua Galega, membro da Associaçom Galega da Língua (AGAL) e diretor da revista Agália durante um amplo período, também diretor da revista de arte e cultura oMáximo e fundou e dirigiu a revista galega O mono da tinta.

Publicou G.O.N.G. - Mais de vinte poemas globais e um prefácio esperançado (1999), Periferias (1999, Prémio Carvalho Calero de narrativa), A Espera Crepuscular (2002, primeira parte da trilogia Viagem ao Cabo Nom), Il Castello nello Stagno di Antela - O Castelo da Lagoa de Antela (2004, Prémio de Teatro infantil na Mostra de Ferrol-Terra em 1988, publicado na Itália em galego e italiano), O Regresso a Arder (2005, terceira parte de Viagem ao Cabo Nom), Inxalá (2006, Prémio Carvalho Calero de narrativa), Venezianas (2007). O seu mais recente cometido literário foi a coordenaçom do volume O Crânio de Castelão.

Bolseiro de investigaçom da Fundaçom Calouste Gulbenkian (1991-92), do atual Instituo Camões (1992-93), e da Universittà Italiana per Stranieri (1983), foi prémio extraordinário de doutorado, professor de Língua e Literatura Galegas, e o primeiro professor de Português em Escola Oficial de Idiomas na Galiza, antes de trabalhar na Universidade de Santiago de Compostela, onde é professor de língua e literatura lusófonas.
Carlos Quiroga

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  • Joám Lopes Facal

    Que bom Carlos, remover as águas do lago imperturbável. Subir ao speaker´s corner dos que olhamos para o sul e tomar a palavra deve converter-se em costume. A ondagem nom deve parar. Saudaçons

  • Ernesto V. Souza

    Pragmatismo histórico… sempre digo… XD genial…

  • Heitor Rodal

    Com efeito, até porque já não é tão raro achar ofertas de trabalho com a ‘neutra’ exigência do “spoken and written english”. Pois igualmente -para além de quaisquer outras considerações- outro tanto devia acontecer com o “português falado e escrito” e aí nem sempre contratam os poderes públicos nem é preciso esperar por eles.