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Manuel Maria em Portugal: Lusofonia e tomada de consciência identitária na Galiza

Examina-se (em primeira instância) o relacionamento do poeta galego Manuel Maria com Portugal, e particularmente a sua colaboração na revista Céltica, lançada por Manuel de Oliveira Guerra – ativista e intermediário da relação entre a Galiza e Portugal – no início da década de 60 do século passado. Esta publicação tratava de «quebrar a capa de gêlo» entre ambos, e nela se recolheram colaborações de Manuel Maria e de vários autores galegos, tanto de vivos e em plena produção como também de escritores já desaparecidos na altura, e tanto textos de criação como ainda de teor crítico e na forma de resenhas. O jovem Manuel Maria deu aí alguns contributos, que agora revemos e recuperamos, e retomou posteriormente o contacto com a filha de Oliveira Guerra. O caso, ainda não sendo dos mais significativos quanto ao peso absoluto da relação, permite ilustrar (em segunda instância) como na configuração sociológica do Sistema Cultural Galeguista Moderno tem sido central o contacto com a Lusofonia na tomada de consciência identitária.

A importância do contacto com a Lusofonia, especial e inicialmente com Portugal, é tão central, na configuração sociológica do que se deu em chamar Sistema Cultural Galeguista, que se poderia afirmar que a consciência do Galeguismo moderno nasce com esse contacto, e até desse contacto. Mas nem esta é uma tese de doutoramento que pretenda demonstrar hipóteses nem faltam já abundantes informações que fazem dessa afirmação algo mais do que uma conjectura: pretendemos homenagear o recentemente desaparecido Manuel Maria, examinando o seu caso, ainda que não seja dos mais significativos quanto ao peso absoluto dessa relação.

A acompanhar o processo de recuperação identitária, com o rechaço do sistema do qual se pretende a emancipação, que se colocou historicamente no par Castela/Espanha, decorreu a aproximação ao outro sistema cultural considerado como referente de reintegração, que se colocou historicamente em Portugal e no mundo lusófono, em virtude das afinidades linguístico-culturais enunciadas nas várias fases dessa mesma história pelos diferentes elaboradores de ideias e participantes no sistema cultural galeguista. Na última fase do regime ditatorial, saído da guerra civil espanhola, o processo acelerou-se (retomando energias concentradas imediatamente antes do conflito), sendo neste período tardofranquista, nas décadas de sessenta e setenta, que os agentes e grupos de poder disputaram o controlo do campo de jogo para o restante quartel do século XX. Os agentes e grupos que sustentaram o franquismo conseguiram desacelerar o referido processo identitário, concedendo – no pós-franquismo e até aos nossos dias – uma reduzida margem de crescimento autónomo, sempre dependente da centralidade do par Castela/Espanha, e retiraram visibilidade ao referente lusófono, obrigando a quem pretendesse ocupar posições de centralidade no campo do poder a realizar uma reformulação dos moldes identitários galegos em termos isolados ou isolacionistas. Se bem a tendência para o reencontro com a Lusofonia nunca se extinguiu, e até se poderia evidenciar de acrescido vigor nas bases do activismo cultural, não pretendemos examinar o presente (inquietante para a permanência de um sistema cultural galeguista), mas rever algumas circunstâncias desse passado decisivo através do exemplo de Manuel Maria. Se de caminho sobrevier alguma iluminação para o futuro, onde se vai jogar a definitiva sobrevivência da identidade galega, tanto melhor.

Manuel Maria - odes num tempo de paz

 

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