Por João Aveledo (*)
Em Maio de 1998, uns excursionistas fotografavam um urso pardo (Ursus arctos) nas montanhas de Vale de Orras. A imagem do plantígrado foi notícia nos jornais, que especularam com a sua procedência cantábrica. Mas era este urso um outro turista?
A que, talvez, seja a primeira menção escrita sobre ursos na Nossa Terra data do século XII. Num documento outorgado ao Mosteiro de Ribas de Sil, o rei Afonso VII da Galiza e IX de Leão fazia referência a montarias de ursos.
Já em 1340, Afonso IX da Galiza e XI de Castela descreve no seu “Libro de la Montería” os principais montes ursinos. Na altura, podemos concluir que o urso era abundante em todas as florestas e serras do interior do País.
Nos seguintes séculos, a distribuição do urso ver-se-ia reduzida progressivamente devido a uma maior pressão demográfica humana, que trouxe, como consequência, um aumento da sua caça e uma perda do seu hábitat, por expansão dos terrenos agrícolas e diminuição dos bosques.
Porém, em meados do século XIX ainda existiriam na Galiza, quando menos, as seguintes populações de ursos: A da Terra Chã; a da Ulhoa, onde em 1848, o naturalista Seoane topou com um exemplar na devesa de Santo André de Ilhovre, não longe de Compostela; a da Terra de Montes, nas proximidades do Mosteiro de Usseira; a da Serra do Soajo-Serra do Jurês; a da Terra de Trives (Serras de Queixa e S. Mamede) e, finalmente, o conjunto das serras orientais, em contacto com os exemplares da Cordilheira Cantábrica, povoando a espécie a Serra do Ranhadoiro, a maior parte do Berzo, os Ancares, a Fonsagrada, os Montes do Cereijal (Bezerreã), a Serra do Oríbio (Oíncio), os Montes do Cevreiro, o Courel; Vale de Orras, a Serra do Eixo, a Cabreira e Entre-as Portelas.
Conforme avançou o século XX, a rarefacção do plantígrado foi cada vez maior, ficando apenas uns poucos exemplares nas montanhas do oriente galego. No entanto, no dia 16 de Junho de 1946, em Ponte Varjas (Concelho de Padrenda), não longe da alfândega com Portugal, o lavrador Camilo Lhoves pelejava braço a braço com um urso, que finalmente seria rematado a tiros por um guarda. O valente camponês receberia por tal heroicidade um prémio do Governador Civil. Foi este, quiçá, o último urso das Serras do Soajo e do Jurês.
E na actualidade, ainda temos ursos? É sabido, que exemplares procedentes do Alto Narcea e do Alto Sil percorrem com desigual regularidade as montanhas de Íbias, Negueira, Fonsagrada, Návia e Ancares. Estas visitas parecem ter-se incrementado nos últimos anos, consequência do ligeiro aumento do núcleo cantábrico ocidental, composto por pouco mais de 80 indivíduos. Os mais optimistas mesmo chegam a falar de uma futura colónia estável em terras galegas…
Mas voltemos ao início, que fazia um urso em Vale de Orras em 98? Turismo? Um recente livro, El oso pardo en el Noroeste peninsular, escrito por Grande del Brío, Hernando Ayala e Pinheiro Maceiras, dá-nos resposta. Ó surpresa! Os autores descobrem-nos que ainda sobrevivem ursos em comarcas galegas onde se davam por extintos desde primeira metade do século XX. Segundo as pesquisas destes prestigiosos zoólogos, ainda existem umas fracas populações de plantígrados nas serras galaico-leonesas, que abrangem a confluência das províncias de Lugo, Ourense, Leão e Samora. São núcleos isolados dos seus congéneres cantábricos e ainda, talvez, isolados entre si.
Nas vizinhanças do Maciço de Pena Trevinca morariam uns 3 exemplares e outros 2 entre a Alta Seabra e La Carvayeda, estes 5 exemplares alargariam a sua presença do Courel até à mesma raia com Portugal. Uma outra população de uns 3 indivíduos espalhar-se-ia por La Maragatería e comarcas limítrofes, destaca-se aqui a detecção no ano 95 em Santa Colomba de uma ursa com o seu organho (denominação que recebe em galego a cria dos ursos).
Para explicar o desconhecimento a respeito destas populações ursinas cumpre assinalar três razões principais, um território altamente despovoado (5-10 habitantes/ km2), uma orografia complexa e a ignorância interesseira de uma administração que prefere virar as costas a umas evidências (múltiplos avistamentos, ataques a gado e a colmeias, rastos…) que a obrigariam a proteger uma área que é objectivo, nos últimos lustros, de empresas mineiras e parques eólicos.
Outro aspecto a ressaltar é o da pegada do urso na nossa cultura tradicional. Na toponímia, com nomes de lugares como Usseira, Organho, Mato d’Osso… Na arquitectura popular, com os chamados cortins ou alvariças, que são construções de altos muros de pedra destinadas a proteger as colmeias dos ataques dos ursos e que ainda hoje se podem ver em abundância nas montanhas do Este. No folclore, a personagem central do “entrudo” de Salzedo, no Brolhão, é um urso. Nas lendas, com estórias que falam de ursos que têm filhos com mulheres…
Seoane, que ainda recolhe a palavra “urso” em várias localidades galegas, descreveu-nos o jeito único e espectacular de caça que tinham os urseiros do Courel, um ofício que se herdava de pais a filhos. Estes enfrentavam-se aos ursos num épico corpo a corpo, sem mais armas que uma faca, e um cilindro de ferro, afiado nos cabos, que o urseiro colocava entre a mandíbula e o peito do animal, só os mais ricos podiam proteger o braço esquerdo com uma pequena armadura.
Desde que no Quaternário, os nossos primitivos antepassados lidavam com os gigantescos ursos das cavernas (Ursus spelaeus), de quase tonelada e meia de peso, levamos 12 000 anos de convívio, nem sempre fácil, entre seres humanos e ursos neste recanto do Planeta Terra… Que continue!
(*) Artigo publicado originalmente no n.º 21 do Novas da Galiza
