Por Fernando Vázquez Corredoira
Em 2006 apareceu um novo livro de Sergi Pàmies: Si menges una llimona sense fer ganyotes, mui bem acolhido pelo público e pela crítica.
Dous anos mais tarde, saio eu da casa com o firme propósito de ir tomar um café. A caminho, passo à beira da livraria Sisargas e na montra vejo: Se comes un limón sen facer xestos. Penso: «Que bem, traduziram-no. Hei-de o comprar».
Mentres bebo o café e fumo mais um cigarro, digo-me: «ganyotes-xestos, xestos-ganyotes… pero, se não é bem a mesma cousa!» Claro que não! E, se não é bem a mesma cousa, porque demo…?! É disso que vou falar.
Não incorrerei na insolência de presumir que o tradutor é pouco competente em língua catalã. Ao contrário, irei supô-lo competentíssimo. Mas, tanto tem. A questão não é essa. A questão é: aonde nos levam os princípios daqueles que defendem «o galego coma língua independente e non coma comparsa de ningunha outra, por moi semellante que sexa a nosa»?
Conjecturo o seguinte: o tradutor quer verter para galego a palavra ganyota e a palavra que primeiro lhe vem à cabeça é mueca. Normal, é Galego. Mas, problema, mueca não é galego, ou não o parece. A seguir pensa: «e como se dirá mueca em galego?» Consultemos um dicionário. E velaí o temos a virar as páginas do Dicionário Castelán-Galego da Xerais, ponhamos: «mueca, mueca… aqui está: Mueca: xesto, aceno». Escolhe xesto («entende-se melhor», dirá talvez).
Mas, repito, não é bem o mesmo.
O que teria feito se fosse, já não digo um pobre comparsa do português, mas um conhecedor e continuador da tradição galeguista — ou de certa tradição galeguista?
O que teria feito? digo. Pois teria talvez consultado o Dicionário Catalão-Português da Enciclopèdia Catalana e lá teria encontrado: Ganyota: careta, esgar […]. «Hui, não me convence: careta pode levar a engano e esgar… e a primeira vez que tal cousa vejo…» Mas o nosso hipotético tradutor não teria desistido, não. Teria consultado um dicionário português à procura de sinónimos. Teria procurado e teria encontrado: caramunha, gaifona, gaifonice, grimaça, momice, trejeito, visagem. — «Trexeito, ainda podia ser: xeito, xeito, de tódolos xeitos, axeitar, axeitado, axeitadamente…». Mas, afinal, também nenhuma destas opções o teriam contentado (não nos esqueça que nosso hipotético tradutor não é um comparsa do português) mas, assim mesmo, não teria desistido. Continuaria a procurar e, talvez, os esforços acabariam por se lhe ver recompensados: teria dado com carantonha e, se calhar, ter-se-ia lembrado daquela dum dos nossos clássicos, e teria escrito: Se comes un limón sen facer carantoñas. E eu não teria escrito este insignificante e lamentoso papel.
Em 2007 apareceu a tradução castelhana do livro de Sergi Pàmies: Si te comes un limón sin hacer muecas, claro.
Ganyota: Contracció de la cara feta voluntàriamente o involuntàriamente,expressant un sentiment de dolor, de repugnància.
Xesto: Movemento do corpo e especialmente dos brazos mans e cabeza voluntario ou non que revela un estado psicolóxico ou serve para facer unha indicación.
Careta: Contracção ou trejeito do rosto feitos involuntariamente ou não e que altera, em geral para pior, a fisionomia habitual.
Carantonha: […] Expressão facial, trejeito que torna o rosto feio […]
Carantoña: Careta, máscara […]. Aceno que deforma o rosto.
