The Wood Sawyers, pintura de Jean-Francois Millet do ano 1848.

Em 1856, dez anos depois do fracasso da revoluçom galega, Benito Vicetto publicava ‘Los hidalgos de Monforte’, novela que resgatava para a nossa Terra –sem demasiado escrúpulo histórico– a figura de Pardo de Cela e os irmandinhos, que recriava como aliados, numha confluência que nunca tivera lugar. Desta obra, Manuel Murguia dixo que ‘reanimou o coraçom de todos’. Fijo-o, sem dúvida, pois o galeguismo, tam frequentemente carregado de razons como privado de alento moral, procurava na altura o calor dum ideário e a inspiraçom dos mitos. Diz-se que Vicetto, que atravessara umha vida bastante desgraçada (ficara orfo de novo, participou em episódios sanguinhentos nas guerras carlistas, militando como liberal, e trabalhava como burocrata no apodrecido mundo das prisons) topou a inspiraçom para a obra na biblioteca de Sobrado dos Monges, sendo muito novinho. Lá, possivelmente procurando tanto consolo ao seu malfado pessoal como à nossa desventura colectiva, fabulou umha unidade histórica entre a nobreza galega e o movimento irmandinho, formulada como um independentismo primitivo.

Segundo Vicetto, o partido galego erguia como emblema naquela guerra a legenda ‘Deus Fratesque Gallaecia’: ‘Deus e os irmaos galegos’. De maneira que neste ponto do século XIX podemos datar o ponto de arranque da palavra ‘irmao’, que tanta fortuna fijo no galeguismo. ‘Deus Fratesque Gallaecia’ foi também o poema de Alfredo Branhas que, musicado por Luís Taibo, virou hino da Federaçom de Mocidades Nacionalistas (após a modificaçom de certas linhas num sentido arredista). Em pleno século XXI, a AMI recuperou-no como hino e socializou-no entre a mocidade rebelde. Mas as palavras ‘irmao’ e ‘irmandade’ tenhem ainda maior alcanço: estám, é claro, nas Irmandades da Fala, na Irmandade Nazonalista Galega auspiciada por Risco, e também no Partido Galeguista. Na grande organizaçom de preguerra, ‘irmao’ e ‘irmá’ era o trato que se davam as militantes no ámbito formal e informal. No bloqueio do exílio, a Irmandade Galega pretendia funcionar como custódia da memória política da Terra. Nos anos 80 do século XX, o EGPGC recuperou esta palavra, e ‘irmaos’ e ‘irmás’ eram quem partilhavam vida no monte, clandestinidade urbana ou vida na prisom. E apesar de que todas estas organizaçons sem excepçom, como corresponde aos colectivos apaixonados e pequenos, caírom ocasionalmente em dinámicas fraticidas, nunca abandonárom o sonho da irmandade. Quem tiver vivido esta experiência fraterna saberá distinguir o seu sabor inconfundível, tam distinto da mera filiaçom ou da coincidência pontual de interesses.

Quem tiver vivido esta experiência fraterna saberá distinguir o seu sabor inconfundível, tam distinto da mera filiaçom ou da coincidência pontual de interesses.

O termo nom se livrou da controvérsia; se em todo movimento -como em toda pessoa- pugnam o coraçom e a cabeça, a vaga revolucionária mundial da década de 60 deslocou esta palavra em favor dum racionalismo forte. Nas organizaçons da esquerda, e também nas galegas, ganhou peso a palavra ‘companheiro’: alude às tarefas partilhadas, à solidariedade forjada no mundo laboral, e à empresa da vida compartida (como no caso das parelhas que nom subscreviam o seu compromisso pola igreja); nessa mesma etapa, o prestígio ganhado polo socialismo real decantou a utilizaçom da palavra ‘camarada’, que nom tinha apenas a atractiva conotaçom da justiça, senom a efectividade do poder: ‘camaradas’ eram quem construíam um novo modelo social em mais e mais países, tingindo o mapa do mundo de vermelho.

Nas organizaçons da esquerda, e também nas galegas, ganhou peso a palavra ‘companheiro’: alude às tarefas partilhadas, à solidariedade forjada no mundo laboral, e à empresa da vida compartida (como no caso das parelhas que nom subscreviam o seu compromisso pola igreja); nessa mesma etapa, o prestígio ganhado polo socialismo real decantou a utilizaçom da palavra ‘camarada’, que nom tinha apenas a atractiva conotaçom da justiça, senom a efectividade do poder: ‘camaradas’ eram quem construíam um novo modelo social em mais e mais países, tingindo o mapa do mundo de vermelho.

De modo que, em boa parte da esquerda nacional, o termo ‘irmao’ viu-se demasiado emocional, demasiado afectado, e quiçá afastado das lógicas pretensamente científicas que guiavam um movimento ilustrado. A entrada na fase decadente do capitalismo, que alguns chamam ‘posmoderna’, ainda marginou mais o termo. Num mundo de indivíduos isolados, que no mercado laboral se entendem como empresários de si mesmos, sempre concorrentes e ofendidos por outros, e que conduzem a sanaçom das dores mais para a terapia do que para a acçom colectiva, ‘irmao’ ou ‘irmá’ teria um sentido estranhíssimo e quase violento, como se se relacionasse com umha existência sectária.

Porém, a história dá curiosas reviravoltas, e revela que nem sempre a emoçom está deslindada da razom. O feminismo, já como dinámica social massiva, espalhou o termo ‘sororidade’, que é umha versom de ‘fraternidade’, que à sua vez é a forma política mais conhecida de ‘irmandade’. Nom alude apenas a umha missom de longo prazo (como no sentido forte da irmandade que popularizárom as ordens religiosas), senom a umha certa vivência dumha qualidade especial: a de partilhar sem conhecer-se, simpatizar sem intimar, alentar-se subtilmente, sem necessidade de férreos vencelhos orgánicos. Assim o vivem muitas mulheres e assim o viveu a primeira tradiçom republicana, como nos recorda Antoni Domenech. O revolucionário francês Marat assistia entusiasmado à uniom da ‘canalha’ (peons, labregos pobres, mulheres, pobres, artesaos, caseteiras) baixo a bandeira fraterna. ‘A “fraternidade” é a partir de 1790 a consigna que unifica programaticamente as exigências de liberdade e igualdade das mui heterogéneas populaçons trabalhadoras –essa “besta horizontal” secularmente semi-adurminhada– do Antigo Regime’, recorda Domenech. A identificaçom difusa vira consciência, a consciência vira em organizaçom e programa; ao cabo, em movimento.

O feminismo, já como dinámica social massiva, espalhou o termo ‘sororidade’, que é umha versom de ‘fraternidade’, que à sua vez é a forma política mais conhecida de ‘irmandade’. Nom alude apenas a umha missom de longo prazo (como no sentido forte da irmandade que popularizárom as ordens religiosas), senom a umha certa vivência dumha qualidade especial: a de partilhar sem conhecer-se, simpatizar sem intimar, alentar-se subtilmente, sem necessidade de férreos vencelhos orgánicos.

O Antigo Regime pode sonar remoto e, porém, muitos analistas atentos nom desbotam que a fase de esboroamento social na que entramos nom traia consigo novas formas de dependência e submetimento feudal a patrons, corporaçons e senhores da guerra que acumulam os recursos minguantes num mundo violento; o oprimido sem esperanças, ou o submisso mendicante, olham para acima aguardando que o patrom ofereça graciosamente um futuro, fontes de sustento ou medidas de graça; o rebelde e a insubmissa nom olham acima, senom que olham aos lados, e baixo formas diversas de viver ou de subsistir, procuram discernir e encontrar-se com aliados fraternos; isto é, com os seus irmaos e as suas irmás. O que precisamos nom está nas alturas, senom ao nosso carom, quiçá mais perto do que suspeitamos; e todo movimento real tomará a forma dum encontro.

[Este artigo foi publicado originariamente no galizalivre.com]

Antom Santos
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