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César Caramês: “Hoje sabemos que a causa galega nom nasce dum movimento literário, senom dumha insurrecçom”

Há 178 anos, milhares de soldados de infantaria e cavalaria, enviados polo governo espanhol, saqueavam Compostela e deixavam um ronsel de vítimas civis e militares, dando um golpe definitivo à chamada revoluçom galega, iniciada com o mês de abril. Este é um dos feitos, escurecido na memória colectiva, que César Caramês resgatou no documentário “Cinco chaves da revoluçom galega de 1846”, um recurso didáctico para professorado que ajuda a repensar o feito fundador da nossa causa. Com ele conversamos sobre umha nova visom historiográfica que pode mudar a ideia que temos do movimento nacional.

Antes de falarmos do documentário que estás a difundir, conta-nos, como começou o teu interesse pola revoluçom galega?

Eu tinha as ideias genéricas sobre abril de 1846 que tinha qualquer militante galego. Num momento da minha vida, trato a um médico de Caldas e Moranha, que editava a revista “Taboada”, e trabalhava num web de recuperaçom da memória histórica, graças a ele por exemplo conhecemos a imprensa agrarista da comarca. Bem, pois polas suas pesquisas descubro que o alcalde de Moranha, na altura, fora inabilitado por participar na revoluçom de 46. Chamou-me a atençom isto, porque, segundo nos contaram na universidade, nom fora isto o movimento de quatro románticos, acompanhados de militares? Assi que me pugem a ler as obras chave sobre os feitos. Lim Juan Do Porto, um advogado progressista santiaguês, lim Tettamancy, e lim Xosé Ramón Barreiro, que fixera a obra referencial para a minha geraçom, “La revolución de 1846 y el nacimiento del galleguismo.”

E que descobres nestas leituras?

Pois descubro umha controvérsia evidente, diferentes versons dum mesmo feito. Por exemplo, Do Porto, progressista de ideologia espanholista, apenas fala dos militares, vinca no relato romántico da morte dos heroes; Tettamancy, o mais documentado, com enorme detalhismo, fai o relato do regionalismo, e entende que os rebeldes procuravam a autonomia para a Galiza; Barreiro, que escreve nos alvores da autonomia, situa-os em posiçons federalistas, e minimiza enormemente o alcanço da revolta. Depois da leitura, fico com essa ideia que defende Manuel Gago: tomemos de todos eles os dados, aproveitemos o que é rigoroso, mas nom tenhamos em conta o relato. Porque entom ficamos confundidos. Do Porto, por exemplo, diz que nom entende por que a Junta de Santiago anula as medidas do governo de Madrid…claro, para entendermos isto, há que ler Faraldo.

Descubro que o alcalde de Moranha, na altura, fora inabilitado por participar na revoluçom de 46. Chamou-me a atençom isto, porque, segundo nos contaram na universidade, nom fora isto o movimento de quatro románticos, acompanhados de militares? Assi que me pugem a ler as obras chave sobre os feitos.

Em que outras fontes baseas a tua pesquisa?

Temos a sorte de contar com a “Galiciana”, com muita imprensa da época digitalizada; a Universidade de Kentucky disponibiliza online todos os números de “El Porvenir”, a publiaçom de Faraldo fechada pola censura. Quem ler com detalhe este jornal, poderá ver que os seus autores manifestam nom ser románticos, senom socialistas…um dado central que explica muitas cousas. Consultei também imprensa internacional, os meios ingleses falam repetidas ocasions dumha “revoluçom galega”, nom dum mais dos pronunciamentos militares espanhóis. Logo, aliás da imprensa, tentei levar em conta outros aspectos da época. Pois chama a atençom como os historiadores de formaçom, como Barreiro, ficam tam absortos polo objecto de investigaçom que esquecem todo aquilo que o rodeia. E os feitos de abril de 46 dam-se num contexto de penúria e de revoltas internacionais bem conhecido.

Podes concretar de que contexto se trata?

O mais abraiante é nom relacionarem a revoluçom com a peste da pataca, e com a reforma tributária de Mon Santillán de 1845; na própria publicaçom regionalista “La Oliva”, décadas depois, diz-se que na Galiza se produzem motins populares pola peste da pataca, a mesma que golpea a Irlanda da época. É o tempo da revoluçom de Maria da Fonte em Portugal, também. Barreiro, por exemplo, estuda apenas os preços do trigo, e como a pataca nom aparece computada nestas táboas, pois obvia-a.

Imagem: barricada numha revoluçom do século XIX

Qual é entom a tese central que defendes no teu documentário?

A minha tese central é esta: umha cousa é o pronunciamento militar de Solis, e umha outra a revoluçom galega, com a sua ideologia, programa e alcanço popular. Confluem em certa medida por um jogo de interesses, mas som duas cousas distintas. Na Galiza, em 1846, dá-se umha revoluçom artelhada em juntas, com participaçom popular, e que toma medidas concretas que transformam a realidade seguindo um programa: baixam-se os preços do sal (produto que devemos considerar como o petróleo da época, pois a suba do seu preço condicionava o do resto de produtos de primeira necessidade), expropriam-se os capitais do Banco de Sam Fernando, suprimem-se a polícia e a guarda civil, cria-se um exército, chamado Exército Libertador da Galiza, chama-se o povo a participar, reforma-se o ensino através dumha comissom…estas som medidas aprovadas, publicadas num manifesto, e ratificadas numha carta que conhecemos, de Faraldo a Solis, na que lhe detalha todas as medidas que tomou a Junta. Som medidas reais logo.

A minha tese central é esta: umha cousa é o pronunciamento militar de Solis, e umha outra a revoluçom galega, com a sua ideologia, programa e alcanço popular. Confluem em certa medida por um jogo de interesses, mas som duas cousas distintas.

De ser isto certo, rachas com a ideia do nosso movimento nacional começar com um Rexurdimento literário…

Claro! E para isso temos que entender, mais umha vez, as chaves da época. O Estado naçom era algo recém aparecido, ainda sem consolidar. Nom há tampouco ideias nacionais fechadas e inequívocas. Vejamos casos daquele tempo. Garibaldi, o patriota italiano, era um homem que nascera em Niza, reclama a italianidade daquela zona, mas Niza fica finalmente em território francês. Sanmartín, o heroe da independência argentina, nascera além mar, mas vivera em Andalucia, e nom volta a América até bem adulto, e de feito alô chamam-lhe “O andaluz”; a luita liberal, nestas chaves, é mui dificilmente distinguível do nacionalismo. E distinçons que hoje nos parecem mui claras na altura nom o som tanto.

Neste ponto temos que estudar a fundo Faraldo, e atender às suas palavras: umha e outra vez di que a Galiza “tem que recuperar a sua nacionalidade”, ou “recuperar a independência dos suevos”; isto nom é federalismo nem autonomia, isto, nas chaves das fronteiras movíveis da época, significa o que significa. Quando o acusam de se parecer com os autonomistas irlandeses, ele diz, nom, nós nom imos por aí, nós nom imos por vias pacíficas e graduais. Logo, que quer dizer isto?

A visom tradicional destaca que este é um galeguismo retórico que se soma a um pronunciamento liderado por um andaluz, Miguel Solís…

Imos ver. Faraldo escreve cousas tam avançadas em novembro de 1845. Quando se argalha um pronunciamento militar, ele e os seus que é o que decidem, como faria qualquer independentista? Pois aproveitar a força militar, a ruptura no exército, incorpora as suas demandas, para ter o seu apoio, porque sem o apoio militar isto ia ser impossível. Por isso, o que quer Faraldo está em El Porvenir e no manifesto, nom no feito de que deam “vivas a la reina libre y constitucional”, isso nom é o transcendente. Que dim os contemporáneos? Reparemos no cóengo de Santiago: ele mesmo afirma, “os pronunciados davam vivas à rainha, mas pretendiam umha convençom à francesa”; que diz Bernardo Barreiro: “Galiza e Espanha ficavam em certo jeito arredadas”? Que dizem as crónicas de Alfredo Vicenti, um liberal nom galeguista, trinta anos depois, recolhendo testemunhas? Que o país se moveu ao berro de “nom somos mais que galegos”, e que “temos mais de portugueses que de espanhóis”. Isso todo está escrito.

Temos que estudar a fundo Faraldo, e atender às suas palavras: umha e outra vez di que a Galiza “tem que recuperar a sua nacionalidade”, ou “recuperar a independência dos suevos”; isto nom é federalismo nem autonomia, isto, nas chaves das fronteiras movíveis da época, significa o que significa.

Por que isto aparece tam empequenecido no discurso historiográfico?

Porque som frases que falam por si mesmas. “El Porvenir” é clausurado, e isto di-o Faraldo, “porque traía recuerdos de independencia y gloria del antiguo Reino de Galicia”. Este era um jornal que se escreve baixo a censura e que logo é clausurado, mas que se escreve com certos eufemismos, com certa cautela. Escreve-se, e de novo citamos de cor, “diante do mapa do país que os suevos fixérom independente”. O pseudónimo de Faraldo é Ben Umeya, líder mourisco que se revolta contra a monarquia espanhola. E ele diz que há umha palavra que nom pode dizer, porque o poria diante dum pelotom de fusilamento. Qual será esta palavra, que pensamos? A palavra “que incendia os cantos de Hugo Foscolo”, continua. Imos ver quem é Hugo Foscolo é vemos que é um poeta independentista italiano que populariza cançons subversivas.

Em muitas crónicas posteriores, escritas por pessoas vinculadas aos feitos, fala-se dum pronunciamento clássico do progressismo espanhol…

Si, existe esse discurso, e eu penso que também se enquadra numha estratégia de parte dos implicados para rebaixar as condenas, para reintegrar-se na vida civil depois do acontecido. Mas reparemos nisto: que pronunciamento espanhol conhecemos que legisle e crie um exército próprio dentro dum território do Estado? Que pronunciamento existe em que a parte civil, a Junta de Faraldo, dá ordens à parte militar. Leamos as cartas de Faraldo a Solis.

Comício regionalista diante do monumento aos mártires de Carral. Imagem: Arquivo do Reino da Galiza

Porque uns feitos de tal magnitude e relevo ideológico aparecem entom tam enfraquecidos, também na memória galeguista?

Há um interesse mui claro de Manuel Murguia em opacar a Faraldo, polo que o problema, em grande medida, origina-se em nós mesmos, no próprio galeguismo. Murguia pretendeu erigir-se a si mesmo como o pai fundador, o grande arquitecto, e Faraldo escurecia-o. Em “Los Precursores” chega a dizer dele que em anos posteriores renunciou à Galiza. Nom nomea que estava exilado, que nom podia voltar ao país. No ano 53, Faraldo, com Romero Ortiz, com outros provincialistas, é dos que pidem ajuda para a Galiza num manifesto, na grande crise de subsistências; todos eles fam-no de fora porque nom podem pisar o nosso território.

E porém som os regionalistas os que construem a referência dos “Mártires de Carral”…

Si, contra o que diz por exemplo Vicetto, que era contrário. Recunca-se na ideia dos heroes románticos, da parte militar. O mesmo dia em que fusilam doze oficiais, oficiais que por certo foram indecisos na hora de seguir as directrizes da Junta, os exércitos realistas bombardeam Lugo, e três dias antes saqueam Compostela, com 3000 soldados de infantaria, 300 de cavalaria e artilharia pesada, segundo dizem as fontes. No canto de recordarmos isto, a historiografia fica com a imagem do fusilamento dos oficiais. É o mesmo processo que acomete Barreiro na historiografia salientando o manifesto do pronunciamento do 2 de abril, no canto dos documentos da Junta; ou minimizando o número de juntas, que se multiplicam polo território e chegam a muitas vilas, com o lema “abaixo o sistema tributário.” Num outro dos artigos que resgatamos, publicados neste web, aparece o cerne da revoluçom, escrito polos mesmos protagonistas. Quem o ler verá exatamente de que se tratou.

Há um interesse mui claro de Manuel Murguia em opacar a Faraldo, polo que o problema, em grande medida, origina-se em nós mesmos, no próprio galeguismo. Murguia pretendeu erigir-se a si mesmo como o pai fundador, o grande arquitecto, e Faraldo escurecia-o.

Todas estas som as ideias que aparecem no teu vídeo. Como está a ser a acolhida?

Por agora estou satisfeito, é um vídeo longo para o que é habitual, e muita gente contatou comigo para dizer que o utilizarám como recurso didático. Também nas minhas redes sociais estou, como complemento, a subir material de hemeroteca, com imprensa da época, que reforça esta tese que defendo.

Claro que isto é apenas um grau de areia: precisamos um documentário mais a fundo, com entrevistas a especialistas; precisamos teses sobre o tema, mas claro, é difícil que isto saia para já do mundo académico, e mais enfrentando-se à visom mais afiançada do tema que se tem em universidades espanholas. Mas as nossas armas som as fontes, a diferença dos anos 80, temos internet, estám democratizadas, e quem quiger pode contrastar. Eu confio que, como se passou com a descoberta do Reino da Galiza, a sociedade comece e logo a academia se some. Assi acontece sempre no nosso país.

[Esta entrevista foi publicada originariamente no galizalivre.com]

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