Lara García tem um percurso vital reconhecível dentro da sua geraçom. Formada em Belas Artes, a experiência vital e profissional levou-na a percorrer vários países da Europa, até se estabelecer recentemente em Lugo. À hora de procurar para o seu filho umha escola que atendesse as suas necessidades e expetativas, decantou-se pola Semente dessa cidade. O necessário envolvimento das famílias provocou que assumisse em 2023 a presidência do coletivo, num momento de mudanças e transiçons no âmbito do projeto. Repassamos com ela o seu estado atual e as perspetivas de futuro.
Se nom tiveres inconveniente, podemos começar com umha pergunta um bocado mais pessoal. Que conhecimento prévio tinhas da Semente e porque a escolhestes para escolarizar a vossa criança?
Claro! Sem problema! Conhecim a Semente através das redes já antes de ser nai, num momento em que, como bem indicas, residia fora da Galiza. Apesar da minha forçosa saída para o Reino Unido por mor da terrível precariedade laboral imperante no momento em que concluim umha parte dos meus estudos, em 2014, sempre tivem preocupaçom pola língua e mantivem umha posiçom ativista com o galego, portanto nom foi estranho que desse com o projeto da Semente, mesmo sendo de maneira virtual.
Enquanto à escolarizaçom do meu filho tinha bastante claro o que desejava para ele, e o referente era a minha própria primeira infância. Quando criança, tivem a grande fortuna de começar a minha vida escolar numha das pouquíssimas escolas unitárias que ainda restavam operativas no interior da província de Ourense nos anos 90. Na escolinha de Arnuide, na comarca da Límia, onde eu estudei, fomos sempre menos de dez crianças de entre três e sete anos. Lembro que fazíamos excursons às vilas próximas, por exemplo, umha vez que permanece na minha memória especialmente fomos ao circo e colhíamos todas em dous táxis. Todas falávamos obviamente em galego e também a mestra, a dona Florinda. Fazíamos muitos passeios pola aldeia e aprendíamos cousas com as vizinhas e vizinhos, a cabeleireira, o ferreiro, o padeiro… os recreios eram também longos, também nos dias de chuva, andávamos sempre metidos na lama de umha poça grande que se fazia ao pé da escola, no abrigo do autocarro. Foi verdadeiramente um tempo muito feliz. A escolinha encerrou dous anos depois de que eu acabasse ali o primeiro curso da primária, que era o último nível que se podia cursar ali.
Quando o meu filho chegou aos três anos, vivíamos na área metropolitana do Porto, em Portugal, surgiu a oportunidade de mudarmo-nos a Lugo e, definitivamente, a Semente foi um dos motivos de peso que inclinou a balança para tomarmos esta decisom de regressar à Galiza, porque incrivelmente a Semente de Lugo guarda grandes semelhanças com a adorada escola da minha infância. Havia opçons em Vila Nova de Gaia, como as escolas da floresta, mas nom eram para a nossa bolsa. A Semente tem a virtude de ser umha escola com um modelo pedagógico invulgar a um preço acessível. Para nós foi um lugar seguro em que deixar o nosso filho, porque sabemos que tem espaço para ser a criança que deseje ser, para ser feliz e criativo e falar a sua língua à vontade, com pares que o entendem, porque também falam galego.
As escolas da rede Semente sustentam-se no trabalho voluntário das famílias, das pessoas sócias e de diferentes redes de apoio. Mas assumir a presidência parece exigir um grau maior de compromisso, certo? Em que contexto decides dar este passo e com que expetativas?
Na verdade assumir a presidência nom foi fácil porque todas as famílias temos agendas cheias e a gestom da escola implica tempo. No momento em que teve lugar esta mudança na direçom reparámos em que no ano 2024/2025 íamos ter umha descida significativa no número de crianças matriculadas, pois era a altura de várias delas saírem para a escola primária, e algumhas outras saírom porque as famílias mudaram de casa ou por outros motivos que complicárom a possibilidade de continuarem na Semente. Portanto, restámos poucas candidatas para aceitar esta responsabilidade. Reconheço que foi um momento duro, mas tinha de ser. A escola tem que seguir funcionando e afinal eu gosto muito do projeto e do trabalho que fazem as nossas educadoras, que som a alma da Semente de Lugo. A minha principal expetativa é que a Semente poda continuar a ser essa escola genuína onde as famílias que estejam a decidir onde escolarizar as suas crianças consigam depositar a sua confiança. Evidentemente, a Semente nom é umha escola para deixares o teu filho ou filha à porta e esqueceres-te, o próprio projeto atrai famílias que som muito implicadas e que tenhem consciência tanto com a metodologia pedagógica como com a língua, e isto é o que nos distingue, finalmente.
Como definirias o estado atual do projeto?
Honestamente, som tempos difíceis como esboçava na anterior resposta. Agora mesmo restamos na Semente de Lugo apenas seis sócias protetoras, que somos basicamente as nais das crianças matriculadas. Com tam poucas famílias a contribuir com as cotas, que som o principal sustento económico da escola, a viabilidade do projeto está em causa. Por este motivo, estamos em processo de reforçar e diversificar os nossos recursos, já que, como se explica no nosso site, as formas de colaboraçom com a Semente som múltiplas.
“Som tempos difíceis para a nossa escola, dado que neste momento há poucas famílias no projeto e, de facto, a sua viabilidade está em causa”
Quais som os principais desafios para o futuro mais imediato da Semente de Lugo? E que seria preciso para andar esse caminho com sucesso?
No momento presente, todas as sócias protetoras estamos imersas numha espécie de carreira para promocionarmos a Semente, porque o nosso maior desafio é conseguir novas matrículas já em janeiro. Precisamos que a escolinha conte com polo menos dez crianças matriculadas para termos um projeto sustentável. O ano passado tivemos umha jornada de portas abertas muito bem sucedida e entende-se que as famílias gostam da Semente, mas o problema é que competimos com umha ampla oferta de escolas de 0 a 6 anos que som gratuitas porque contam com o apoio da administraçom. A nossa fraqueza é que o projeto se sustenta sobretudo no esforço económico das sócias, principalmente das famílias e isto, logicamente, pode tornar-se desmotivador para quem se achega a nós. O caminho seria de mais fácil andamento se contássemos com um maior apoio institucional.
Para já queremos fazer finca-pé nas nossas diferenças com as escolas convencionais porque sabemos que há muitas famílias que encontram dificuldades para adaptar-se a um sistema que pretende homogeneizar o seu alunado e deixa de respeitar o tempo natural de crescimento e as particularidades de cada criança, sem mencionar o sofrimento que pode chegar a supor a escolarizaçom para as famílias galegofalantes, cujas crianças entram na escola falando em galego e abandonam a língua materna em semanas. A Semente quer ser esse espaço seguro para as famílias que nom podem encaixar num sistema que aniquila a originalidade e impom ritmos pouco respeitosos, além de educar de costas viradas para o entorno e para a cultura locais.

As escolas Semente som muito conhecidas no âmbito reintegracionista e ainda em outras esferas do ativismo linguístico, mas como avalias o grau de conhecimento na cidade de Lugo e de que maneira pensas que se poderia ampliar a sua difusom?
A Semente de Lugo começou a andar o seu caminho graças a pessoas muito implicadas no associacionismo cultural e o ativismo linguístico e som essas redes de contacto militante as que, como indicas, funcionam como canles de difussom do projeto. Através do tempo, com o passo de várias famílias pola escola, assim como com a frequência de actos de partilha com a comunidade local, nomeadamente os eventos organizados pola própria Semente ou a presença em feiras e eventos culturais, o boca-a-boca tem um papel eficaz à hora de promover a escola, mas também tem as suas limitaçons e polo geral acredito que existe um grande desconhecimento do projeto na sociedade lucense. É complicado atrair o interesse de pessoas alheias aos grupos que mantenhem o compromisso ativo pola nossa cultura e ao mesmo tempo precisamos mais que nunca diversificar a comunidade que fai parte da Semente. Acredito que finalmente a Semente nom pode ser apenas umha escola para ‘os filhos de’ e torna-se necessário trabalhar sempre consoante à natureza de iniciativa popular do projeto e pensando que podemos e devemos acolher famílias com outros perfis que abracem a nossa língua e cultura, procedentes de coletivos nom-ativistas como famílias do rural próximo, famílias migrantes ou famílias neofalantes, por mencionar uns exemplos. A incorporaçom destes perfis à Semente poria de relevo o poder transformador da escola na sociedade circundante reforçando o nosso correspondente papel de elemento galeguizador tam necessário nos tempos de crise para a língua que acabamos de constatar após os desastrosos resultados da sondagem do IGE.
“Podemos e devemos acolher famílias com diferentes perfis que abracem a nossa língua e cultura, como famílias do rural próximo, famílias migrantes ou famílias neofalantes”
