O presente

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Por Heitor Rodal Lopes

Voltava a ser Natal e o Javier tornava a cumprir mais um ano com os rituais habituais. Havia poucos meses que virara pai junto a sua parelha, a Mónica, e tinham um formoso neno. O pequeño Borja, mesmo que os extenuava porque era muito mexido e mexia também em tudo quanto estiver ao seu alcance, era a alegria da casa e também da dos pais do Javier e da Mónica.

Aquele ano foram passar a Noite de Natal à casa dos pais do Javier: reuniram-se com eles e mais com os seus irmãos, a Sandra, que estava a esperar também um neno com o seu marido, o Alejandro, e o Óscar, que era o irmão mais novo dos três. Este ano estava também lá o avô, porque, depois da morte da avó, a mãe do Javier não quis que o pai ficasse a passar o inverno só na aldeia.

O serão na casa dos pais decorria bem, mália a incomodidade que sentia o Javier pola presença do avô. Deixara de ir vê-lo à casa da aldeia quando cumprira os 14 anos e começara a combinar com os seus amigos e amigas e desde aquela que perdera quase por completo o contacto com ele. Nem sequer depois da morte da avó no verão tinha ido visitá-lo, e agora, depois de tantos anos, não sabia bem como entrar em intimidade com ele.

“Que tal abuelo, ¿como estás?” disse-lhe tentando quebrar o gelo.

“Bem, meu filho, bem. Eu estou bem”, respondeu brevemente o avô.

Mais tarde, depois de a Mónica e o Javier terem deitado cedo o neno no berço para poderem cear tranquilos, foram todos para a mesa. O Óscar, que trabalhava de professor relatou a visita que tiveram essa semana na escola: um carvoeiro chamado Apalpador que seica era do Courel e que repartia castanhas entre os cativos depois de lhes ter apalpado a barriga por ver se comeram bem.

Após ter escuitado caladamente o seu filho, José, o pai do Javier, falou entre incrédulo e cético dizendo que com certeza isso era mais uma dessas tontarias que andavam a inventar alguns políticos para se diferençar do resto de Espanha, que ele na vida escuitara nada disso, que logo isso não era mais do que uma trapalhada e que na sua casa só haviam de entrar os Reis.

O avô, que ficara calado até então, retrucou dizendo que ele sim que se lembrava de lhe terem explicado e cantado os seus avôs quando era pequerrecho a história do carvoeiro que descia da montanha para lhes apalpar a barriga por ver se estavam bem comidos e deixar-lhes uma presadinha de castanhas cozinhadas. E que bem que lhes sabiam daquela! Depois da morte dos avôs, já nunca ninguém reparara nem voltara a falar naquele bondoso carvoeiro infantil que lhes tinha levado aquelas prendas tão saborosas.

O pai , contudo, não querendo dar o braço a torcer, fitou para o seu sogro fazendo uma carantonha entre sarcástica e burlona e largou: “Bah, en resumen: cuentos de viejas”.

E a Mónica, para desviar a conversa ofereceu um algo de comida ao avô:

“Abuelo, ¿quieres un poco más carne?”

“Não minha filha, que já quedei bem”

Depois disso, o avô ergueu-se às caladas da mesa, disse “boas noites” baixinho e foi-se deitar para a cama.

Ficou um silêncio incómodo na sala até que o Óscar contou de novo uma piada dum companheiro de trabalho e voltou a conversa à mesa. E contudo, o Javier não foi quem de se quitar a sensação de incomodidade pola presença do avô e pola disputa que tiveram ele e seu pai. Foi para a cama pensando nisso e antes de se meter na cama deu um bico ao filho e despediu-se com um “Buenas noches” da mulher.

Passados uns dias chegou a noite do dia 31 e daquela tocava ir cear à casa dos pais da Mónica. Pegaram no carro e foram para a casa dos pais com todos os trastes e cousas que precisava o Borja.

“Ay, ¡pero que guapo que está mi nieto!” saudou-lhes a mãe da Mónica ao entrarem.

O pai, militar aposentado, beliscou-lhe a meixela com a mão ao neno e disse em voz alta: “¿Cómo está mi campeón??”

Estava já também na casa o Iván, o cunhado da Mónica, com a sua mulher Sofía. O Javier dava-se muito bem com o Iván e de seguida começaram a falar do futebol, do mal que començara a temporada a sua equipa, e de carros e de desportos.

Já na mesa, no decurso da conversa o Iván explicou que havia dias escuitara já alguma cousa na rádio sobre uma figura dum tal Apalpa-barrigas ou Pandigueiro que andava repartindo castanhas aos rapazes e rapazas e que diziam que era uma personagem típica do Berzo, mas que ele não acreditara nada disso. Mas, o que mais lhe incomodara é que de caminho para a casa dos sogros topara com uma ruada onde ia um “apalpa-barrigas de esos” repartindo castanhas. O Iván mirara para eles com ar de superioridade e rejeitara com desprezo um papel explicativo e um pacotezinho de castanhas que lhe ofereceram. “¡A mí me vais a venir ahora con estas milongas, anda!!”.

Ao Javier a sensação de incomodidade de dias antes despertou-lhe de súpeto no estómago de novo ao ouvir isso. E ao sentir o seu sogro finalizar o assunto com um “la verdad es que los separatistas ya no saben que inventarse”, já não pôde dissimular o seu mal-estar.

A Mónica reparou na expressão do seu marido e procurando distrai-lo da conversa dirigiu-se a ele:

“Javier, cariño, me preguntaban mis padres que que le vamos a regalar al niño por Reyes”.

“Castanhas!!”

E jurou internamente que o próximo ano o Borja teria o seu pacotezinho de castanhas no dia de Natal.

 

Ruada do Apalpador em Compostela

23 de dezembro de 2010

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