O poeta de Praga

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In memoriam Franz Kafka

        Negro, disse Karl Rossmann quando no Circo da Natureza de Oklahoma lhe perguntaram o seu nome para inscrevê-lo. Sempre lembrarei esse terrível instante em que li essa palavra, no extraordinário romance de Franz Kafka América. A perda da própria identidade, num mundo implacável, em que os seres humanos são humilhados e tratados como animais. A desumanização que o sistema nos impõe, do alto da sua cátedra todo-poderosa chamada Estado, no seio da qual todos somos ninguém ou ninguém somos todos. Negro era como chamavam o coitado Karl Rossmann no seu trabalho anterior, e antes de merecer dizer o seu nome, esperando encomendas mais importantes, escolhe o apelativo da classe social mais baixa dos Estados Unidos.

Pensei imediatamente no apelativo equivalente no nosso País, gallego, palavra ainda empregue por grande parte da população para referir-se a ela própria: os gallegos. Muito tenho lutado com os meus alunos galegofalantes do secundário para que dissessem galego e não gallego ao falar do seu idioma, e bem pouco tenho conseguido. É a impotência de se confrontar com a assimilação interna da escravidão, do status inferior. Escravo seria a palavra na antiga Grécia e Roma, camponês na Idade Média, operário na época industrial … A linguagem do poder põe cada quem no seu lugar, e essa linguagem é assimilada polas classes populares, apesar das revoltas pertinentes.

Kafka escreveu na minha opinião o romance mais importante da literatura, O Processo, salvado do lume polo seu amigo Max Brod. Apenas esta obra avondaria para dedicar-lhe um capítulo de honra entre os grandes autores. A história de Joseph K., torturado psicologicamente e assassinado sem qualquer motivo polas autoridades, é o resumo perfeito de milénios de civilização. Com efeito, o poder é sempre absoluto e ilimitado, apesar do pensamento do protagonista de ele estar a viver num país com direitos, depois da visita dos dous polícias no momento em que estava a tomar o pequeno-almoço. Quem sabe se não foi feita já uma lei que permite entrar no domicílio de qualquer pessoa, sempre que existirem suspeitas (certas ou não) da sua conduta em relação com a segurança das instituições. E outra em que não é preciso dizer a acusação, etc. 

A lei pode ser qualquer cousa, é mera potência arbitrária nas mãos do governo, puro terror, chegando às vezes ao sadismo, e isto é o que aconteceu sempre ao longo dos séculos. Gregório Samsa, Karl Rossmann, Joseph K., K. , o labrego anónimo, protagonista do relato Ante a lei. É sempre a mesma história: o indivíduo esmagado injustamente polo sistema político e económico imperante, tornado um escaravelho, um Negro, acoitelado como um cão por dous agentes do governo, na procura de um senhor do castelo que nunca aparece, morrendo sem ter entrado nunca na Lei. Eis a grandeza do legado kafkiano, a denúncia descarnada, o horror da eterna injustiça que cometem os poderosos ante o povo indefenso, injustiça que infelizmente continua hoje.

O autor judeu de língua alemã Franz Kafka, nascido em Praga no 3 de julho de 1883, faleceu prematuramente de tuberculose a 3 de junho de 1924, num hospital da Áustria. O ano passado cumpriram-se cem anos do seu passamento. Publicou muito pouco durante a sua vida, apenas teve leitores, escreveu três romances inacabados –além das suas narrações breves-, não conheceu obviamente o reconhecimento literário, mandou queimar parte da sua obra, e nunca se dedicou profissionalmente à escrita. Porém, é sem dúvida hoje um dos grandes escritores da História da Literatura. Escritor ou escritora no pleno sentido do termo, a viver para a sua vocação, sem se importar nunca com a publicação dos seus livros. 

Quando hoje olhamos a mercantilização atual da criação literária, os prémios constantes, o dinheiro a esgalha, o egotismo ridículo dos autores, a frequente ausência de qualidade, figuras como a de Franz Kafka emergem com ética e honestidade, a lembrar-nos sempre que a verdadeira vocação de um artista é a sua arte. O verdadeiro artista, o verdadeiro poeta, vive na procura da verdade e da beleza, quer dar testemunho delas, tiver ou  não reconhecimento. “Honra os teus superiores”, inscreveram no corpo daquele condenado no melhor conto do autor checo, Na Colónia Penal. Porque se deixamos de honrar os nossos superiores, se por fim temos a valentia de rachar a horrenda pirâmide da hierarquia, se calhar ainda podemos criar um novo mundo, uma nova história em que ninguém possa ser assassinado polas autoridades.

Máis de Manuel Meixide Fernandes