A BARCA DO RIBEIRÃO

Abraço da Saudade II



Em minha opinião, e para além doutros fatores importantes, como a colonização mental, política e económica do Estado, do capitalismo e da mídia, através nomeadamente do ensino (o doutrinamento do espanholismo para todos que nasce na época liberal), a perda definitiva do nosso sentimento nacional é a nossa última perda. Ele seguirá vivo no resto da Lusofonia, mas morrerá a sua luz genuína na alma e na terra onde foi nascer.

Na antiga Kallaikia dos gregos já morreu há miles de anos a velha língua céltica que lá se falava, sob o estandarte colonialista dos romanos. E o mesmo pode acontecer no século XXI sob outro estandarte. A única solução é mudar a velha estratégia da derrota, a passividade da resistência amuralhada.

A saudade sempre foi o alimento quotidiano do povo, empregando a própria palavra no dia a dia, como testemunha o Padre Sarmiento na sua obra Vozes y frases gallegas. Na Copla 95, aparece o velho termo:

Cando for a vila

para meu contento

verein qu´as saudades

cantando son menos

Eis o comentário que faz a seguir Sarmiento da copla acima: Saudade del antiquísimo latín solitas, atis, y que también usó Apuleyo. Y así los portugueses, que tanto ponderan saudades por aborigine, busquen otra voz, pues ésa se usó en el latín antiguo, en el latín de la media edad, y yo la oí en el idioma gallego de una rústica. 

O sacerdote está a recolher a tradição oral do século XVIII, mas essa copla pode ser muito anterior. Em todo o caso está a provar que o vocábulo é com certeza um termo antigo na Galiza, transmitido pelas gerações passadas. Pelos vistos, em Portugal a expressão nasce na época das Descobertas, no século XV, quando os navegantes se acham longe da sua pátria e das suas famílias. A soidade ou suidade dos trovadores torna-se o vocábulo da pátria. Em minha opinião, o comentário é errado, porquanto no latim solitas (solitate) não existe o novo significado que terá em galego-português, único no universo das línguas românicas, e obviamente em latim não existe a nova verba.

 

 

 

O novo significado e o novo termo são criações nossas, da alma galego-portuguesa. Acho que o nosso carimbo de identidade, o nosso ser nacional, é uma energia contagiosa e expansiva, muito poderosa por causa da sua enorme beleza, escudo, mas também espada. Por outras palavras, profunda firmeza. Com ela na mão, a nossa estratégia tornar-se-ia muito diferente, e o nosso exército por fim poderia lutar na batalha em condições de igualdade. Se desejarmos o cultivo do nosso idioma, o tesouro vivo do galego nas aldeias, nas vilas e nas cidades, e não o galego litúrgico, a relíquia do passado a preservar, perenemente ameaçado, temos que aprender a amá-lo de novo.

As Irmandades da Fala, nascidas em 1916 e cujo centenário se celebrou o ano passado, deveram ter sido umas Irmandades ou Ligas da Saudade, tarefa ainda possível na nossa época. Naquela altura já cumpria o reencontro urgente com as gerações anteriores ao sistema liberal, e se calhar essa palavra galaico-portuguesa e o seu significado tivessem provocado um reintegracionismo real, um regresso ao lar comum.

Aquelas Irmandades lutariam com a nossa arma, com a nossa energia espiritual, mas a nossa Terra já leva quase dous séculos desarmada. O poder destrutivo e uniformizador do Estado capitalista e liberal é tão forte, que é mesmo capaz de esfarelar em apenas duzentos anos uma língua que tem mais de mil anos de vida, como já aconteceu infelizmente na França republicana com o occitano e com as outras línguas denominadas regionais.

E a cena repetiu-se com a grande oportunidade histórica perdida, a porta aberta após o franquismo. Criou-se uma norma do galego artificial, burocrática e colonial, e não se atualizou o nosso mais poderoso sentimento coletivo. O pior do galego litúrgico, destinado ao ensino e ao emprego administrativo, não se acha na sua função de norma colonial e folclórica, de norma política, mas na sua incapacidade de acordar o povo. Apesar de ser um idioma colonizado pelo espanhol para afastá-lo de si próprio ou do português, ainda seria possível volver-lho ao seu dono sob a sua antiga forma, sob a língua da saudade.

Só dous séculos nos afastam da música coral da nossa voz, conservada e praticada ao longo de muitos outros pelo nosso povo. Esse tempo não foram séculos escuros, como nos transmite o nacionalismo oficial, apesar da ausência de textos escritos em galego. Os Séculos Escuros começam a partir de 1833, com o nascimento e o sucesso da Espanha como Estado-nação, e neles estamos, a presenciar a dramática agonia da nossa língua, a morte demorada, mas inexorável da nossa identidade, na altura em que voltamos a ter galego escrito e mesmo oficial.

 

De facto, é a Doma y Castración del Reino de Galicia para o povo. No século XIX não é abolido apenas o nosso Antigo Reino, mas também o nosso espírito. No século XV o nosso País ficou sem elites, e começou a aplicar-se uma política colonialista, em que muitos dos nossos apelidos foram castelhanizados. Mas o povo seguiu a conservar a essência do nosso espírito, através da tradição oral e dos concelhos abertos. Ao perdermos a nossa identidade coletiva e espiritual após o veloz e violento saque do liberalismo, a ordem política do novo Estado imperial e centralista, a Galiza tornou-se uma nação servil e dependente, renunciando à sua antiga autogestão.

Em 1857 promulga-se a Ley Moyano de Instrucción Pública, que vai durar mais de cem anos, desenhada e aplicada pelas elites da nova Roma, a omnipotente vila de Madrid. Cá começa o colonialismo linguístico maciço e a consolidação da língua estrangeira. A única língua do ensino vai ser o castelhano, e os nossos compatriotas, na sua maioria camponeses, serão alfabetizados neste idioma. Infelizmente, a alfabetização exclusiva em espanhol ainda perdura hoje na nossa terra.

Por volta de uma geração, os labregos patriotas da Francesada, analfabetos na sua grande parte, mas cheios de espírito patriótico, tornaram-se submissos cidadãos, gallegos y españoles. É a nascença da autêntica Galiza folclórica, um povo assimilado e sem poder político, cousificado pelo imperialismo do novo Estado.

Destarte, o galeguismo histórico surde na época de declínio da nossa cultura, e o chamado Rexurdimento nasce numa época de deterioro acelerado da nossa língua e da nossa autonomia política. O galego empregado por Rosália de Castro é um galego já castelhanizado, apesar de conservar ainda rasgos de pureza linguística, e mesmo se a castelhanização pode ser em muitos casos anterior. Quanto mais nos afastarmos no tempo do nosso novo galego escrito, o galego dos séculos XIX e XX, mais pureza vamos achar no nosso idioma, nomeadamente a respeito da língua oral.

Poder-se-ia pensar que a independência política clássica, a simples conquista do poder político, é a solução ótima ao genocídio cultural, mas o caso da Irlanda demonstra que após a independência do Reino Unido, o gaélico continua numa situação de marginalidade a respeito do inglês, com uma percentagem de utentes muito inferior à que tem a comunidade galego-falante.

 

 

Não pode existir um elemento mais tradicional e popular do que a essência do nosso povo, um elemento mais democrático. Julgando também que ainda se acha em todos nós, sem sermos cientes dela, ao falarmos galego ou espanhol, a tarefa comum seria acordar algo que todos possuímos, mas que por enquanto dorme profundamente. Ela é a água pura que limpa as velhas injustiças de que falava Castelão, todo o lixo de preconceitos e de mentiras deitado na nossa língua.

Sendo também a alma comum de toda a Lusofonia, até mesmo criar um movimento nacionalista em Portugal nas primeiras décadas do século XX, denominado saudosismo, a luta reintegracionista deveria ter em conta a alma do nosso povo, através da linguagem, da música, da pintura… A língua portuguesa é sempre saudade em movimento. Esta mesma pedagogia seria a que um Governo Galego qualquer teria de implementar, a começar pelo ensino, obrigado a promover e a normalizar o nosso idioma, muito para além da escolha normativa.

Infelizmente, hoje o nosso ser nacional é qualquer cousa estranha para nós, apenas um significado que se calhar conhecemos, mais uma palavra que temos ouvido ou que temos achado no dicionário. Eis em minha opinião, a origem do nosso grande problema de identidade, a causa do nosso permanente autodesprezo.

De qualquer jeito, a melhor política linguística está sempre em nós, apesar do doutrinamento espanholista do sistema, e da ausência de liberdade a respeito da nossa língua. Se somos todos Galegos, não temos escolha: apenas podemos ser filhos da saudade. Falar galego, pois, bem ou mal – além do emprego natural da língua própria, da bandeira ergueita da união -, é sempre o rejeitamento do silêncio obrigatório, da tirania e da escravidão, é pronunciar as palavras da verdade, um ato de dignidade e desobediência, um hino ao pensamento, semente de liberdade.

As duas Galizas e as duas identidades, galego-falante e castelhano-falante, afastadas por causa do colonialismo histórico, só podem voltar a soldar-se em redor da cultura comum, em redor do cultivo do idioma próprio, do idioma de todos, ultrapassando os velhos preconceitos. O espanholismo e a sua intolerância sempre dividem, o galeguismo pelo contrário é a energia da união. Se não abandonarmos a falácia do espanholismo e os seus preconceitos, o status superior do castelhano e da sua identidade espanhola, e o inferior da nossa língua e da nossa identidade galega (uma autêntica subversão e usurpação da pirâmide natural), temos de aceitar a sua consequência lógica: a desaparição paulatina, mas certa do nosso povo.

Chamando os bois pelos nomes, deixar de sermos Galegos colonizados, sob a  influência perpétua do complexo de inferioridade, ou morrer. O esforço e o compromisso, voltar a falar galego com as crianças, ou desaparecer. Tornar-se livre ou morrer como escravo. Aliás, a hegemonia do galaico-português, a língua natural e nacional de toda a população ao longo de muitos séculos, é o único jeito de preservar a liberdade linguística, de manter um bilinguismo real. A ditadura atual do castelhano impede a escolha de um idioma ou de outro, instaura um monolinguismo em espanhol e condena o galego à extinção na sua própria terra. Só o galeguismo pode garantir o uso das duas línguas. A urgente descolonização linguística da Galiza deve restaurar a preminência legítima da sua língua no seu próprio lar, mas também é o único jeito de preservar o uso do espanhol e de tornar possível a existência de um país bilingue.

Se a saudade e as velhas raízes do nosso País são a mesma cousa, o seu autêntico apelido, para além de qualquer ideologia que pretender substitui-las, não podemos cometer o erro de achá-las pequenas, simples lembranças folclóricas. Muito pelo contrário, acho que é na sua força e na sua beleza que devemos regenerar a árvore que hoje seca, o alicerce onde construirmos a nossa revolução, a casa do novo galeguismo, da nova irmandade. Lá onde voltarmos juntos à lareira perdida da nossa identidade, da nossa História. A pesquisa da verdade histórica, falseada pela historiografia espanhola e imperialista, tem de estar alicerçada no povo, o pai da nação. Se se tornar simples erudição, nunca poderá libertar-nos.

Ao recuperarmos a autoestima, o orgulho e a virilidade, estamos prestes também a recuperar, atualizar e aperfeiçoar passeninhamente a nossa autonomia política e económica, a nossa antiga democracia, essa democracia saudosa que a Revolução dos Cravos deveu ter implementado em Portugal em 1974, rejeitando a tirania da Constituição e do Estado. Os indianos da época de Mohandas Gandhi viviam numa Índia colonizada e submissa, ajoelhada perante o poder opressor do Império Britânico, até que a satyagraha chegou, devolvendo-lhes a autoestima, a valentia e a capacidade de lutarem pela sua nação. Satyagraha, a palavra inventada por Gandhi, significa em sânscrito abraço da verdade ou força da alma.

 

Nós também temos a nossa satyagraha, o abraço da saudade, a força da nossa alma, o possível antídoto do nosso colonialismo. O cajado de Moisés que separa as águas da terra, o próprio do alheio. Aquela energia maravilhosa dos nossos labregos na Francesada, vinda das gerações remotas, que os puxou a não trespassar os lindes da sua pátria, os lindes da Terra. Essa peneira que tira o espúrio do nosso tradicionalismo, ficando só a digna fidelidade ao lar próprio, propiciando o reencontro com as gerações passadas e assegurando a sobrevivência da nação nas gerações futuras. A nossa arma no campo de batalha, abandonando longe as muralhas e a passividade, prontos para lutar.

 

Manuel Meixide Fernandes

Manuel Meixide Fernandes

Depois de nascer em Chantada e passar alguns anos pela Península adiante, nomeadamente em Euskadi, onde chega a estudar a metade do primeiro ano do antigo E.G.B., com sete anos volta definitivamente para morar na Galiza, na sua comarca natal. Lá estudará o resto do ensino primário e secundário, para finalmente obter em Compostela a Licenciatura em Filosofia e Ciências da Educação. Um ano antes começa a estudar o curso de Tradução e Interpretação na cidade de Vigo. Tem colaborado na década de noventa na revista chantadina Além-Parte, publicando nela diversos contos. Foi co-fundador da infelizmente dissolvida Associação Cultural Rodrigues Lapa, nascida na vila do Asma no ano 2007. A partir do ano 2001 dá aulas de francês no secundário, morando na vila da Estrada desde o ano 2011.
Manuel Meixide Fernandes

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