O FUTURO POSSÍVEL

O mito da norma oficial



Das diversas formas em que se manifesta a religião do poder, bicho de sete cabeças, a pior é a das sombras cavernosas. A hidra das autoridades produz clarescuros que confundem a vista e o entendimento. Segundo o Apolo xuntesco, em Delfos não pode entrar mais que uma normativa, essa que os apolíneos funcionários chamam “oficial”. É a escura luz do estado a se projetar sobre @s mortais. A oficialidade, deus máximo, governa no mundo dos deuses mínimos. Por isso sacerdotes e fregueses se reúnem, cegos, em torno à ara institucional, para invocar a normativa suprema, a normativa luminosa, a norma oficial.

Na dança de invocação as preces ressoam com força: – Preencha o formulário na norma oficial. – Entregue a solicitude na norma oficial. – Se não está na norma oficial não receberá o subsídio. – Editoras, publiquem na norma oficial e apoiaremos a literatura. – Funcionárias, exijam a norma oficial e serão bem pagas. – Usuárias, utilizem a norma oficial e atenderemos as suas demandas. De tal modo que, alimentada a caverna do mito, torna-se boca sem fundo, habitat natural de vermes de carreira onde as ordens são seguidas ao pé da letra.

Fora da caverna é o mundo das pessoas humanas todas. Ou seja, o mundo. Um dia, depois de dar um bom passeio, um livro que não segue a mitómana normativa quer ser publicado. O editor aduz não ter dinheiro. O autor procura outra editora e consegue publicar sem mudar palavra. Uma universitária realiza um brilhante exame em português. O professor aduz não saber português, nega-se a ler a prova. A aluna explica ao professor que o português é galego e adverte-o das consequências legais da sua ação. Também pode no mundo haver dias soleados com lagartos subidos aos valados de pedra, e alguém que apresenta um documento administrativo em português. O funcionário aduz que não está na norma oficial. O usuário informa-o de que a norma oficial é um mito, avisa da possível denúncia por prevaricação e anima-o a tratar-se a mitomania.

Chegará o dia em que uma pessoa entre num centro educativo e veja que as atividades estão anunciadas e se realizam sem ter em conta a mitologia estatal. Entre @s mortais todas as normas ortográficas são válidas. Não há privilégios nem velas acesas nos altares. As letras voam livres e podem levar os textos galegos até ao Brasil. A impossível norma oficial ensina que os mitos pertencem ao mundo imaginário dos deuses e que no mundo das pessoas há mais gramáticas possíveis, que a língua escrita está mais viva que nunca, que há muito por sonhar, tanto por escrever e tudo por publicar. Nas nossas mãos está a chave para sair da caverna, deixar de contemplar sombras e começar a utilizar com liberdade a nossa língua. Pois ainda não foi escrita a última palavra.


(*) Opinião publicada originalmente no n.º 134 do Novas da Galiza, na seção Língua Nacional.

Isabel Rei Samartim

Isabel Rei Samartim

Mulher, música guitarrista, galega. Pensa que a amizade é uma das cousas mais importantes da vida. Aprendeu a sobreviver sem o imprescindível. Aguarda, sem muita esperança, o retorno do amor. Entanto isso não acontece, toca e escrevinha sob a chuva compostelana.
Isabel Rei Samartim

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  • madeiradeuz

    Pois é. Bem falado, Isabel!

    • Isabel Rei Samartim

      Obrigada, caro, porém é de lei reconhecer que ainda há apolíneos vermes de carreira com um algo de poder coercitivo…