O euskara batua e a Euskaltzaindia

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Por João Aveledo (*)

Há 16 anos1 falecia Fidela Bernat (1898-1991), a última falante nativa do dialecto roncalês. A sua morte simbolizava o retrocesso secular do basco, um idioma, em tempos, falado do Ocidente da actual Cantábria ao Leste da Catalunha e desde o Vale do Ebro até o Garona. Classifica-se tradicionalmente em 8 dialectos (alavês, biscainho, guipuscoano, labortano, alto navarro, baixo navarro, suletino e roncalês) seguindo critérios do príncipe Louis Bonaparte (1813-1891), que estudara os diferentes falares de Euskal Herria.

Destes dialectos dous já desapareceram, o roncalês e o alavês. A distância linguística entre eles é tão grande que tem havido filólogos, como Gregório Salvador, que os consideraram como verdadeiros idiomas diferenciados. O próprio Sabin Arana (1865-1903), pai do nacionalismo basco, sonhava com uma espécie de confederação de herrialdes bascos, cada um com a sua língua… de facto, este biscainho dificilmente entenderia o Erronkari’ko uskara que falava Fidela Bernat.

Para superar o problema que implicava para o processo de normalização linguística a extrema dialectalização (oito dialectos, vinte e cinco subdialectos e umas cinquenta variedades!), a Euskaltzaindia (Academia da Língua Basca) convocou em 1968 o Congresso de Arantzazu, do qual sairia o “euskara batua” (basco unificado), um padrão linguístico baseado nos dialectos centrais (os de maior número de falantes), nomeadamente no guipuscoano e no labortano, e elaborado por linguistas como Koldo Mitxelena, Txillardegi, Gabriel Aresti, Fr. Luis Villasante, Jon Etxaide e Jon Mirande.

Mas este processo unificador contou com numerosos inimigos desde o princípio, começando polo próprio nacionalismo basco. Este, de forte tradição bizkaitarra, acusara o euskara batua de ser artificial e de pôr em perigo a sobrevivência dos dialectos e a diversidade linguística do euskara. No entanto, estes entraves foram superados e o euskara batua acabou por se impor no conjunto de Euskal Herria, um processo de unificação linguística, que foi logo acompanhado por um outro processo que procurava a normalização linguística plena. E se é certo que o processo normalizador avançou de forma desigual nos diferentes territórios, em função do contexto político concreto de cada um, é certo também, que uma situação extremamente crítica há apenas duas décadas oferece hoje evidentes sinais de esperança, sobretudo na Comunidade Autónoma Basca, onde se observa uma clara recuperação do basco entre a mocidade e a infância.

Como vemos, o processo normalizador do basco foi precedido por um processo normativizador que superou os velhos preconceitos localistas, comuns a todas as línguas minorizadas. Este labor unificador foi protagonizado pola Euskaltzaindia. Fundada em 1919, para promover o uso do euskara, assim como os estudos filológicos e etimológicos do mesmo, a Euskaltzaindia dispõe de seis comissões de trabalho: lexicografia, gramática, Atlas linguístico, onomástica, literatura e língua falada. Ao longo dos seus anos de existência, a Academia Basca demonstrou um compromisso com o euskara que bem gostaríamos de ver por cá… Já agora, uma das suas últimas decisões foi suprimir a grafia «ñ».

 


(*) Artigo publicado originalmente no n.º 20 do Constantinopla, boletim de AGAL-Compostela.

1 O artigo publicou-se em 2007.