A BARCA DO RIBEIRÃO

NO BARCO DA TERRA



Tenho pensado muito na nossa emigração, na emigração galega. No salão da minha casa de Chantada ainda há um grande relógio, que trouxe a minha bisavó Dosinda de Cuba nas primeiras décadas do século XX. É um relógio de madeira muito formoso. Na minha memória naquela parede do salão sempre lá esteve, ocupando o seu eterno lugar, presidindo à comida da matança, à comida das festas, vestígio antigo e imóvel do passado numa velha casa de aldeia, sempre calado e elegante.Quando veio de La Habana alguém o pôs a trabalhar, mas fazia tanto rebúmbio que nunca mais voltou a soar. A bisavó marchou pra Cuba quando era uma moça de vinte anos, e dali a um ano voltou com o relógio e com uma copa muito linda, enfeitada com uma rosa no seu centro. Sempre que olho a rosa, penso em La Habana e na minha bisavó.
O meu bistio Pepe foi para Buenos Aires durante a pós-guerra, na década de cinquenta do século passado, quando tinha vinte e nove anos. Na família da minha avó eram seis irmãos. O meu bisavô Cândido fora toda a vida caseiro, até que comprou uma casa na freguesia chantadina de Pedrafita. O tio Pepe voltou com bem mais de setenta anos a morar na Galiza durante duas férias, poupando o dinheiro suficiente para a viagem no avião e para ficar dous meses no Verão, o dinheiro de muitos anos de trabalho no seu boliche. Estava muito feliz de ter voltado à sua terra e de partilhar a casa dos seus irmãos. Quando veio para a nossa casa, para a casa da minha avó, relembrou o tempo da sua infância e da sua adolescência, da sua juventude, esfolhando no milho, vendimando, indo com as vacas, indo às festas. Quando marchou para a Argentina, sabia que já não o tornaria a ver, agora já era de novo mais um na família, se calhar sempre foi mais um apesar do Oceano Atlântico. O dia que marchou emocionei-me, sabia, sabíamos que o tio Pepe, de quem escutara sempre falar, queria voltar à Galiza antes de morrer. Ele cumpriu o seu sonho, mas eu aquele dia senti-me à beira do mar, a despedir um velho barco no que viajava uma parte de mim.
Sempre me lembrarei de uns discos em alemão que trouxera meu tio Davi da Suíça. Ali estavam esquecidos da gente, cheios de pó e com lindas mulheres na capa. Gostava muito de vê-los, de abri-los e de tirar o vinil para olhar os títulos das canções naquela estranha língua. Acho que o meu tio nunca aprendeu o alemão. Marchara para a Suíça na década de setenta do século passado, como muitos outros galegos. Não ficou muito tempo alá, mas quando regressou não esqueceu aqueles discos.

Antes de eu nascer, meu pai emigrou para a Holanda, para a cidade de Amsterdão. Quando voltou à Galiza voltou para casar com a minha mãe. Quando eu nasci, meu pai estava trabalhando como operário na empresa Hormigones Vascos, em La Línea de la Concepción, muito perto da África. Quando ele pôde ver seu filho, eu já tinha um mês e meio. Nos meus dous ou três primeiros anos de vida viajei muito por causa do trabalho de meu pai, Bezerreá, Compostela, Vigo, Barcelona, Valencia, Sagunto, Sevilha, Córdoba… Finalmente, meu pai decidiu ficar no País Basco. Em Bilbau aprendi a andar em bicicleta, perto da estação de comboios. Também aprendi um bocadinho de euskara. Lembro nitidamente um corpo humano a alumiar-se com as palavras corretas. Aproveitávamos todas as férias, por pequenas que forem, para ir a Chantada. Na minha memória ficaram registadas aquelas longas viagens. Eu encostava-me com cinco ou seis anos num canto do carro, às vezes acordava e voltava a dormir. Mas quando começava a ver aquele paraíso verde, aquelas árvores, sabia que estava perto da casa, perto de uma aira onde poderia jogar e correr, e o corpo cansado e dolorido aledava-se. Perto de uns avós e de um bisavô que lá esperavam, longe, muito longe do fume da cidade, num formoso lugar onde os paxarinhos cantavam.
Quando eu tinha sete anos, voltamos para Chantada e acabaram-se aquelas viagens. O neno emigrante era feliz, por fim podia estar perto da aira, do bisavô e dos avós. Apesar de serem só quatro anos consecutivos os que passamos no País Basco, guardo muitas lembranças da infância naquela terra. Um dia do balcão do nosso andar contemplei os distúrbios entre os manifestantes e a polícia, a gente a se proteger por trás dos bancos do parque, a atirar pedras e coquetéis molotov, o fume dos gases lacrimogéneos… até que meus pais me mandaram entrar. Essa instabilidade e essa tensão foram as que motivaram a nossa volta à Terra. Meu pai não queria que os seus filhos se criassem num ambiente assim, cheio de violência constante. Pudemos ter ficado alá, e hoje a minha vida seria muito diferente, ou não. Se calhar não naquilo que é essencial. Se calhar acabaria sendo o que sou ou o que tento ser cada dia, Galego, vocação dura e difícil, mas também maravilhosa. Essa profunda procura das nossas raízes, esse desejo de liberdade e de redenção.
A nossa emigração, a nossa dolorosa emigração, esse rio de lágrimas através do tempo. A nossa bandeira é também a bandeira da emigração, a bandeira que os nossos emigrantes viam no porto da Corunha. Infelizmente, agora a nossa gente não só está a emigrar novamente a Londres e a outros lugares por causa da crise económica do século XXI, também está a emigrar na Galiza para longe da sua própria identidade, do seu próprio idioma. É a emigração interior. Programados polo Reino de Espanha, eles obedecem. A culpa não é do Reino, a culpa é do vassalo. Seica o nosso destino é emigrar, viajar sempre. Tenho pensado no começo da nossa emigração, o nosso grande êxodo, por volta de meados do século XIX, quando a Galiza era uma das zonas mais povoadas da Península Ibérica. Tenho pensado na Irlanda, essa nação gémea salvo na língua, condenada a emigrar e a morrer na mesma altura por causa da crise da pataca. Ao longo de sete anos, um milhão de Irlandeses morreu e outro milhão emigrou, nomeadamente aos Estados Unidos. Quase um milhão de pessoas emigraram na Galiza ao longo do século XIX. Galiza sem homens quedas que te possam trabalhar, escrevia Rosália de Castro.
Não há muito, numa viagem escolar, fizemos a rota rosaliana com alunos do secundário da Estrada, e o excelente guia foi um professor de História de Padrom. Conversando pegamos os dous no tema da emigração, a partir de uma família numerosa da zona e da figura do vinculeiro ou herdeiro. Um metia-se a cura, outro a militar disse o professor. E os demais tinham de emigrar, acrescentei eu. Sim, respondeu. O próprio sistema minifundiário galego, privilegiando a figura do vinculeiro, condenava o resto dos irmãos a ficar com muito pouco porque já não havia muito mais para partilhar. Cumpria ter filhos para trabalhar a terra mas depois a terra não chegava. Estive a cavilar bastante tempo neste problema, não sei se atinando ou não. Para além dos tributos do Reino de Espanha na altura sobre os labregos, muito abusivos segundo nos contam os historiadores e os próprios poemas da nossa grande escritora, a economia doméstica galega estava a falhar por uma causa endémica. Mas qual?.
O Carlos Calvo recolhe no seu imprescindível livro Diários a testemunha que faz Manuel Garcia Barros da sua própria comarca, a comarca da Estrada na década de vinte do século passado. A gente já estava contaminada polo individualismo, mas ainda existia a ajuda mútua sob uma condição, a posse de terras. Quem não tivesse terras ficava fora da casa comum, condenado à esmola ou à beneficência. A terra, sempre a terra, a terra como sustento mas a terra também como exclusão, como fronteira. Numa verdadeira pátria ninguém pode ficar excluído, tiver terras ou não. Se calhar temos de tirar a conlusão seguinte: não podemos alicerçar um País na terra e no seu cultivo, apesar da fertilidade que possa ter o nosso solo, mas sim em algo que não se pode tocar e que pode ser mais sólido, a fraternidade.
A nossa emigração é também a emigração portuguesa, nomeadamente a do norte, a de Trás-Os-Montes, região portuguesa da Galiza histórica com grandes taxas de emigração. Sempre tenho ouvido que os emigrantes galegos na Suíça confraternizavam muito bem com os emigrantes portugueses, mesmo melhor do que com o resto dos emigrantes de cidadania espanhola. A similitude cultural e de caráter tornava mais fácil o convívio entre as pessoas.

O ano 2010 assinalou o 50 aniversário da emigração galega para a Suíça, e um livro foi publicado nesse mesmo ano a respeito da nossa vaga migratória, Galiza na Suíça. Aspectos de uma emigração, de Xurxo Martínez. Agora sabemos que a nossa língua, o português, se vai tornar uma língua de estudo no ensino primário da Suíça francófona no ano 2016, nomeadamente nas escolas de Genebra. A introdução do português como segunda língua estrangeira era uma velha reivindicação da comunidade portuguesa na Suíça, a mais numerosa das comunidades de imigrantes na Confederação Helvética. Já no ano 2012 a comunidade portuguesa na Genebra tinha reclamado a introdução do português no ensino pós-obrigatório. A cultura lusófona, universal graças à vocação oceánica e viageira do povo português, tornou-se mais universal ainda com a emigração galego-portuguesa. Após tantas lágrimas e tanta dor, alguma cousa boa tinha de ter abandonar o Fim daTerra.
Mas o abandono é quase sempre uma volta, um regresso. O galego emigra pensando sempre em voltar à sua terra. O seu objetivo é juntar o dinheiro que for necessário para poder voltar, mesmo se este objetivo pode significar muitos anos de esforço e trabalho. E se o regresso não pode ser definitivo, a volta está sempre lá. Um exemplo entre muitos deste amor polo nosso País é o escritor Antonio Rodríguez, nascido em Délémont, uma pequena vila da Suíça francófona. Ele e a sua família passam todas as férias em Lage, a terra da sua mãe. O escritor deseja que as suas filhas conheçam a nossa cultura. Somos um povo universal, afirma no jornal La Voz de Galicia falando da comunidade galega e da presença de pessoas de Vale d´Eorras, a comarca de seu pai, na cidade de Paris. A nossa cultura galega enche-se doutras culturas e por sua vez enche-as também, como testemunha a permeabilidade da língua portuguesa e a sua pegada noutras identidades, por exemplo na língua japonesa.
Se calhar no fundo da nossa emigração, interior ou exterior, existe sempre a morrinha, o desejo de voltar, o amor pola Terra. Se o nosso destino foi sempre viajar, se calhar cumpre sempre afastar-se para depois iniciar outra viagem, uma viagem diferente, uma viagem definitiva de retorno e de reconciliação cara o próprio lar. Um barco definitivo para todos cara uma próspera terra de irmãos, cara um País cuja bandeira seja a liberdade. Esta feliz travessia, possível e imprescindível, através do oceano e da Europa, através das comarcas galegas, ou através do compromisso, é a que temos de iniciar coletivamente, com as velas grávidas no poderoso vento da fraternidade.

Manuel Meixide Fernandes

Manuel Meixide Fernandes

Depois de nascer em Chantada e passar alguns anos pela Península adiante, nomeadamente em Euskadi, onde chega a estudar a metade do primeiro ano do antigo E.G.B., com sete anos volta definitivamente para morar na Galiza, na sua comarca natal. Lá estudará o resto do ensino primário e secundário, para finalmente obter em Compostela a Licenciatura em Filosofia e Ciências da Educação. Um ano antes começa a estudar o curso de Tradução e Interpretação na cidade de Vigo. Tem colaborado na década de noventa na revista chantadina Além-Parte, publicando nela diversos contos. Foi co-fundador da infelizmente dissolvida Associação Cultural Rodrigues Lapa, nascida na vila do Asma no ano 2007. A partir do ano 2001 dá aulas de francês no secundário, morando na vila da Estrada desde o ano 2011.
Manuel Meixide Fernandes

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