Moldávia ou a vitória do reintegracionismo

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Por João Aveledo (*)

Latinos numa área predominantemente eslava, a proximidade cultural entre romenos e moldavos é óbvia. Porém, uma complexa História tem dado lugar a um processo de encontros e desencontros linguísticos entre ambos.

Após a dominação turca (1538-1812), a Bessarábia (região que compreendia a maior parte da actual Moldávia) foi ocupada pola Russia (1818). Os Czares converteram o russo no único idioma oficial da administração e do ensino, ficando relegada a fala do país aos âmbitos rurais.

O Ressurgimento moldavo começa com o século XX, mas a imensa maioria dos intelectuais que o protagonizam estão alfabetizados em russo e é por isso que para escreverem o seu idioma empregam o alfabeto cirílico, próprio das línguas eslavas, e não o latino. Como consequência da I Guerra Mundial, a Bessarábia vai ficar incluída, sem contar com a vontade popular, na Grande Roménia.

Mas já em 24 é criada uma artificial República da Moldávia no interior da Ucrânia. Tacticamente, os soviéticos estavam a preparar a reconquista do território perdido. Focando, pretensamente, para a construção nacional de uma Moldávia socialista, impulsou-se desde Moscovo um processo de «moldavização», no que a criação de uma língua moldava diferenciada do romeno foi objectivo estratégico.

Chior e Madan normativizaram o moldavo utilizando a ortografia cirílica e uma terminologia que, quando não era decalcada do russo, recorria ao que nós chamaríamos «hiperenxebrismos». No entanto, esta «moldavização» seria abortada polo estalinismo, que acusou os seus líderes de inimigos do povo por tentarem «separar a cultura moldava da benéfica influência de russos e ucranianos». Logo, com o final da II Guerra Mundial, chegaria a anexação manu militari da Bessarábia alargada e um «biinguismo harmónico», no que o moldavo ficava como simples satélite do russo, a língua do poder e do exército. Em 60 reabrira-se a porta dos intercâmbios culturais entre a Roménia e a Moldávia e, conseguintemente, o debate entre isolacionistas e reintegracionistas.

Mapa de Compostela e terras vizinhas. Estes seriam
os topónimos oficiais de uma Galiza ‘russa’

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No entanto, teria de vir a Perestroika e logo a independência em 94, para que na Moldávia fosse adoptado, por fim, um padrão linguístico basicamente comum com o romeno e escrito, é claro, com caracteres latinos.

Em toda a Moldávia? Não. Na maioritariamente eslava Transnístria, uma região que desde 91 funciona, de facto, como estado independente (sob a protecção do Kremlin), o reintegracionismo continua perseguido e no moldavo só é permitida a ortografia cirílica. Para além de múltiplos matizes e diferenças, os paralelismos entre os casos moldavo e galego resultam evidentes e é que o imperialismo cultural, chame-se czarismo, estalinismo, franquismo ou constitucionalismo, age sempre de forma parecida.


(*) Artigo publicado originalmente no n.º 21 do Constantinopla, boletim de AGAL-Compostela.