Meus caros óculos

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Por Valentim Fagim

Quando uma pessoa tem uma forma diferente de ver as cousas pode provocar em nós diferentes atitudes, a oscilar entre a curiosidade e o rejeitamento. A curiosidade tem alguns pontos muito fracos, é preciso reconhecê-lo. Para já, implica que o “outro” é tão humano como nós, até o ponto de merecer o relacionamento. Polo contrário, o rejeitamento permite-nos, ó glória, ficar à vontade com os nossos óculos. Quem não tem apego aos seus óculos? E quanto mais rígidos o apego é maior, certeza.

Ora, falamos do “outro”. Quem é a tal personagem? Alguém que está muito longe? Nem sempre. Na Galiza há umas minorias minoritárias que pensam, ó heréticos, que o galego pode ser uma língua nacional, dessas que servem para a vida social das pessoas. Muitas vezes é a própria família quem (n)os olha com estupefação mas nós teimamos. Um grupo tão peculiar deveria, no seu relacionamento interno, olhar-se, no mínimo, com curiosidade, quando não com simpatia.

Ora, nem sempre é assim embora muito tenhamos avançado. O amigo Séchu Sende estava num barco onde fora convidado a falar do seu livro Viagem ao Curdistám. Como não todos nascemos para marinheiros, mareou-se e tivo que declinar a palestra. Sentou no convés para tentar recuperar o fôlego e aproximou-se um rapaz da sua idade. O tal também adorava o tema do Curdistão, conversaram um bocado e, a dado momento, o autor convidou-o a sentar e aproximou-lhe o livro. Quando o seu traseiro estava próximo a beijar a madeira, a visão de viaGeM ao CurdistÀM provocou sabe-se lá o quê mas reincorporou-se com presteza e exclamou: Não é nada pessoal!.

Ai, os óculos, Dioptrias for ever.

 

(*) Opiniom publicada originalmente no n.º 128 do Novas da Galiza.