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Joaquim da Silva: “É um erro pedir à União Europeia o estabelecimento do Galego como língua oficial, dado que já o é”

Joaquim Pinto da Silva é português, Foz do Douro, Porto. Residente muitos anos na Bélgica onde foi Funcionário da Comissão Europeia (1984-2013). Licenciado em Línguas e Literatura Modernas tem um fraco pela História. Julga que, em Portugal, há muita ideologia “nacionalista-sectária” quanto à origem da nossa língua e vê lições a tirar da história do neerlandês da Flandres. Para o ano 2050 deseja uma irmandade viva entre a Galiza e Portugal que comemore Castelao, Pascoaes, Rosalia e Pessoa.

Joaquim é licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, pós-graduado em Tradução Literária. Há quem diga que a Galiza é um dos países com mais filólogos por km². Será que Portugal é diferente?

Filólogos serão sempre poucos. Creio que a Galiza deveria ter mais ainda, tal como Portugal. Fazem falta os estudos objectivos, científicos, pois muitos estão ideologizados. Digo isto sem crítica aos que usam os estudos para defender opções de política linguística, desde que não falseiem os dados utilizados.

Em Portugal, há muita ideologia “nacionalista-sectária” sobretudo quando se fala (se ignora) a origem da nossa língua.

No seu caso concreto, de onde nasceu esta paixão? É geral, pelo fenómeno linguístico em si, ou é mais concreto, em volta da língua portuguesa?

Nasceu cedinho, na juventude, em paralelo com a História geral de Portugal.

Foi funcionário da Comissão Europeia entre 1984 e 2013. É possível uma entidade tão grande prestar atenção a uma realidade linguística como a nossa?

Não creio, foge das suas competências. E opino desde já: é um erro pedir à União Europeia o estabelecimento do Galego como língua oficial, dado que já o é, através do Português (Camilo Nogueira tinha razão). Se a EU aceitar, marca um passo mais na separação entre as duas variedades da mesma língua.

Distinguido como “Amigo da Flandres”, pelo governo regional flamengo, da Bélgica, há uma pergunta incontornável, em que medida a realidade linguística flamengo-neerlandesa se parece com a galego-portuguesa?

Em muito, e mostra o que é necessário fazer entre a Galiza e Portugal: um acordo político (político total) em que se chame o mesmo nome à língua e se definam e se assentem variedades lexicais válidas para ambos os lados, com obrigatoriedade de no ensino da língua dos dois lados se falar e explicar essas diferenças. Não escondo também, que certas formas usuais no galego mediático e corrente deveriam ter outra escrita (pe, o “om” virar “ão”… e ninguém mexe na fala -a até porque é impossível, porque eu continuarei a pronunciar “constituiçom” ou não seja eu do Porto).

Em que momento tomou conhecimento desta nossa realidade linguística? Mudou ao longo dos anos?

Anos 70, via uma tal Milagros Francisco de Ourense… nunca mais a vi.

Nos últimos anos têm-se incorporada à Agal cada vez mais pessoas portuguesas. De que forma se poderia incentivar o interesse na sociedade portuguesa por esta língua que nos une, mas não o bastante?

Vamos ter de falar de Política, mais cedo ou mais tarde, mas não agora. Pela via oficial, deveria haver um departamento na Xunta e outro no governo Português sobre os assuntos mútuos. Depois, os cidadãos galego e portugueses têm de incrementar as organizações e os convites mútuos.

Por onde julga que o reintegracionismo deveria transitar para avançar socialmente? Quais seriam as áreas mais importantes?

O reintegracionismo é o caminho mais lógico, sem cedências capitais, como já disse, a certas formas de escrita e sobretudo ao rico léxico galego… intocável, mas explicado com persistência (como no Estraviz). No entanto, nenhuma ponte com o galeguismo autêntico deve ser ignorada. Sempre no diálogo, que não impede conclusões, mas não deve originar inimigos. Somos ainda poucos os que se interessam por este fundamental tema, há que extrair de todos o melhor.

Que o motivou a se tornar sócio da Agal e que espera do trabalho da associação?

A luta por um galego que se aproxime – no possível – ao galego falado a Sul do Minho. Mas, importante: esta luta política (de novo, a questão) e científica é válida por ela mesma. Não concordo que se introduzam nela outros temas políticos que a ultrapassam e separam quem deve estar unido: as questões sociais e de “classe” e as da autodeterminação, por exemplo. A língua é de todos os galegos e não dos que estão no poder ou dos que querem chegar a ele, nem tampouco dos espanholizantes ou dos independentistas. Levo mesmo muito a sério esta questão.

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2050 na sua relação com Portugal?

Uma irmandade viva, que comemorasse Castelao, Pascoaes, Rosalia, Pessoa e tantos outros como seus.

Conhecendo Joaquim Pinto da Silva:

Um sítio web: https://gilreu.blogspot.com/

Um invento: cm Gutenberg, a difusão cultural elaborada, ao alcance de muitos mais.

Uma música: Souds of Silence, poesia, harmonia, modernidade eterna (ou seja, tradição)

Um livro: Húmus, de Raul Brandão

Um facto histórico: a Revolução Liberal de 1820, no Porto, que abriu Portugal ao mundo moderno, mais igualitário e com a Liberdade como o valor mais alto (mesmo o mais alto).

Um prato na mesa: Posta de pescada (pode ser de Vigo) cozida com legumes, um bom azeite e um bom vinho.

Um desporto: Futebol

Um filme: Barry Lindon, de Stanley Kubrick

Uma maravilha: o vale do rio Douro

Além de ser português: ser português (ou galego) é ser nacional-universalista.

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