Três palavras som as que destacam as pessoas que acompanharam em vida a cidadá Maria das Dores Arribe Dopico (Ferrol, 16 de fevereiro de 1938/ 23 de outubro de 2016 ): afouteza, coerência e dignidade.
Filha do trabalhador de Bazán e ativista da CNT Enrique Arribe Lorenzo e da costureira, Flora Dopico González, realizou os estudos em centros de ensino da sua cidade natal e a começos da década de 80 titulou-se com sucesso no Ciclo Superior de Língua Galega na Escola Oficial de Idiomas de Corunha. O seu talante curioso e independente, porém, inclinou-na de preferência para uma formaçom autodidata.
No âmbito profissional desenvolveu a sua carreira como professora de francês no ensino privado, mas Lola Arribe -como a chamavam os seus amigos- salientou por ser dirigente do PSG (Partido Socialista Galego) e polo seu labor como escritora em prol do reintegracionismo. As suas ideias de esquerda nunca foram um obstáculo para a sua fé cristã, tomando também no âmbito eclesiástico um papel ativo em prol da língua galega.
Lola Arribe -como a chamavam os seus amigos- salientou por ser dirigente do PSG (Partido Socialista Galego) e polo seu labor como escritora em prol do reintegracionismo.
O matrimónio Arribe Dopico, que no ano 1942 perdera a sua segunda filha, Maria Sabela, com tam só três anos de idade, exilou-se à França no ano 1953 com os outros três filhos; Dores, Amalia e Xorxe. Durante o exílio no país gaulês, nascerá a sua última criança, Enrique.
A família voltava a Ferrol no ano 1956, mas Lola nom desaproveitou o tempo durante o exílio: retornou com bons conhecimentos de francês e, graças a esta formaçom, trabalhou como mestra ministrando aulas em centros como a Companhia de Maria e o Tirso de Molina, entre outros colégios religiosos da cidade.
Destacada polo seu ativismo no Partido Socialista Galego, foi no posto número quatro na candidatura encabeçada por Xosé Manuel Beiras no ano 1977, nas primeiras eleiçons democráticas ao Parlamento do Estado e também participou na candidatura do Bloque- PSG no ano 1982, aquela em que concorria também como candidato o histórico líder nacionalista, Francisco Rodríguez.
A confluência de BNG e PSG tomara uma atitude reivindicativa em contra do estatuto de autonomia. Como os dirigentes nacionalistas previam, a lei estatutária ia afogar as perspetivas de futuro do nosso país.
A seguir incluímos uma síntese das palavras da própria Lola Arribe sobre aqueles processos eleitorais e os resultados obtidos:
“Desde o ano 1977 até o 1982, houvo duas vezes eleiçons ao parlamento de Madrid, umas eleiçons municipais, um referendo para a Constituiçom espanhola, outro para o Estatuto de autonomia e umas eleiçons para o parlamento galego.Os contínuos processos eleitorais produzírom um grande desgaste e os partidos nacionalistas galegos nom conseguirom escanos no parlamento espanhol. Os resultados nom forom proporcionais aos esforços, mas as organizaçons nacionalistas, com as suas campanhas feitas totalmente em galego, obrigaram os partidos espanhóis a terem em conta que Galiza tem uma língua de seu.”
Além do seu labor na política, foi importantíssimo também o compromisso de Lola como cristã de base; no ano 1976 participou no Concílio Galego, fazendo parte da comissom redatora e dos debates em que, com a sua reconhecida veemência, defendeu que a cúria do nosso país empregasse o galego nas liturgias, algo que em palavras do teólogo e filólogo Martinho Montero Santalha, amigo e companheiro de Lola neste concílio, “ainda hoje está longe de realizar-se”.
A mediados da década 70 Lola Arribe deixa de dar aulas no ensino privado e começa a trabalhar no Centro Psicossocial que segundo o seu boletim informativo era uma experiência de psiquiatria popular e comunitária extrahospitalaria ao serviço dos trabalhadores de Ferrol e a sua área, que desde janeiro de 1976 até 1979 estivo a fazer tarefas de prevençom, higiene e assistência.
A mediados da década 70 Lola Arribe deixa de dar aulas no ensino privado e começa a trabalhar no Centro Psicossocial que segundo o seu boletim informativo era uma experiência de psiquiatria popular e comunitária extrahospitalaria.
Segundo palavras do sindicalista, Alfonso Tellado Sande, quem colaborou com a entidade, “Lola foi a pessoa que fijo que o Psicossocial cumprisse sempre os objetivos para os que foi fundado. Quando isto nom foi possível, por nom encaixar no sistema sanitário que estava a desenhar-se, o Psicossocial dissolveu-se”.
Como já mencionamos anteriormente, a começos da década de 80 completou os estudos de galego na EOI de Corunha, recebendo de Lois Barros Díaz -o primeiro professor de galego das Escolas Oficiais de Idiomas- as aulas na normativa de mínimos.
Como Lola era a aluna mais adiantada, ajudava as suas companheiras e ministrava aulas na Cafetaria Avenida de Ferrol. Assim no-lo contava Veneranda Rodríguez Núñez, companheira e amiga de Lola, na entrevista que concedeu ao PGL no mês de novembro de 2020.
Quando finalizou os estudos de galego, publicou com a editorial Everest três livros de texto na normativa de mínimos (1982/1983), livros censurados pola Junta de Galiza, já que Dores negou-se a mudar a normativa a pesar das pressons do governo de Fernández Albor e, portanto, nunca se utilizariam para o ensino público.
Dous daqueles manuais para o ensino primário foram prologados por Lois Barros Díaz, que também por mediaçom de Lola -e com organizaçom da AGAL- pronunciara umha conferência sobre Manuel García Barros (celebrou-se na Aula de Cultura da Caixa de Aforros, que estava situada na rua Galiano de Ferrol).
Lola Arribe foi discípula e amiga de Ricardo Carvalho Calero e com ele colaborou na publicaçom da obra Letras Galegas no ano 1984 e também participaria na homenagem que a Sociedade Cultural Medúlio tributou ao polígrafo ferrolano a começos da década de 80.
Lola Arribe foi discípula e amiga de Ricardo Carvalho Calero e com ele colaborou na publicaçom da obra Letras Galegas no ano 1984 e também participaria na homenagem que a Sociedade Cultural Medúlio tributou ao polígrafo ferrolano a começos da década de 80.
Além disso, no ano 1987 a revista internacional galaico portuguesa O Ensino publicava um número especial dedicado a Carvalho Calero. Lola Arribe colaborou com o seu poema “Um homem, uma língua, uma pátria” e no ano 1990 ajudou a elaborar um anteprojeto para a criaçom da Fundaçom Carvalho Calero, que -como sabemos- nunca chegou a constituir-se.
Cofundadora e sócia da AGAL na década de 80, participou em vários dos seus Congressos Internacionais da Língua Galego-Portuguesa e também foi integrante do Conselho Assessor da Revista Agália. Para além do trabalho que fazia de maneira anónima, publicaram-se algumhas colaboraçons suas.
Cofundadora e sócia da AGAL na década de 80, participou em vários dos seus Congressos Internacionais da Língua Galego-Portuguesa e também foi integrante do Conselho Assessor da Revista Agália.
Em junho de 1983 um grupo de entidades como o Colexio Público Labaca a Fundación Labaca e a Asociación Católica de Mestres organizaram uns encontros pedagógicos que chamaram Encontros Labaca com a temática “Que galego na escola?”.
Naqueles encontros Agal presentou três conferencistas: Antonio Gil Hernández, Professor do Colégio Universitário da Corunha; Joám C. Rábade Castinheira, Catedrático de galego; e María das Dores Arribe Dopico, autora de livros de texto. Os três defenderom a tese reintegracionista. Os relatórios daqueles encontros estám recolhidos no livro I Encontros Labaca de Edicións do Castro.
Nos primeiros anos do novo século, Lola Arribe conheceu a Fundaçom Artábria através do professor Maurício Castro que naquela altura era presidente da fundaçom reintegracionista. Fijo-se socia na primeira hora e participou ativamente durante vários anos nas suas atividades culturais, mantendo sempre o seu compromisso com o reintegracionismo.
Nos primeiros anos do novo século, Lola Arribe conheceu a Fundaçom Artábria através do professor Maurício Castro que naquela altura era presidente da fundaçom reintegracionista. Fijo-se socia na primeira hora e participou ativamente durante vários anos nas suas atividades culturais, mantendo sempre o seu compromisso com o reintegracionismo.
Lola viveu a maior parte da sua vida no bairro de Recimil, na rua que com a chegada da democracia passou a chamar-se Carvalho Calero. No ano 2009 o deterioro da casa era tal que, sendo esta de propriedade municipal, Lola nom tivo outra opçom que nom fosse ingressar na residência da terceira idade de Carança, a pesar de que no momento do ingresso, gozava de excelente saúde.
No ano 2009 o deterioro da casa era tal que, sendo esta de propriedade municipal, Lola nom tivo outra opçom que nom fosse ingressar na residência da terceira idade de Carança, a pesar de que no momento do ingresso, gozava de excelente saúde.
Dores Arribe foi sempre umha luitadora, mas a sua vida nom estivo isenta de atrancos.
As mortes prematuras da sua irmã Maria Sabela e do seu irmão Xorxe quando este tinha 38 anos foram circunstâncias traumáticas para ela, até o ponto de deixá-las reflectidas na sua escrita. No caso concreto de Xorxe, som incontáveis os poemas em que plasmou a dor que sentia pola perda do seu querido irmão.
Na residência de maiores de Carança as cousas tampouco seriam doadas. Ali queixou-se de problemas de convivência com algumhas companheiras e também de que a alimentaçom nom era a ajeitada. Como sentiu que a direçom nom atendia as suas petiçons, pediu o amparo da Junta. Dez meses depois, o governo autonómico seguia sem mediar no conflito e Lola Arribe, que daquela tinha 73 anos e pesava 50 kg, declarou-se em greve de fame. Em palavras da própria Lola: “Para mim, mais importante que a minha saúde é a minha dignidade como pessoa e como mulher”.
No ano 2016 Lola Arribe faleceu aos 78 anos a causa dum cancro de pulmom do que com toda segurança teria moita culpa o paquete diário de tabaco que fumou durante muitos anos.
Foi enterrada -a petiçom própria- com a sobriedade com a que viveu, numa campa de propriedade municipal. Apesar da sua profunda fé, nom quijo que nengum cura oficiasse no seu enterramento.
Recentemente um grupo de amizades e entidades tiverom a intençom de lhe colocar umha lápide que teria gravada uma lenda em galego, em homenagem a uma ferrolana e a uma galega que tanto significou na política e na cultura do nosso país. Ainda nom foi possível porque o concelho de Ferrol nas tumbas de terra só permite colocar umha cruz e, ainda tendo em conta a fé cristã de Lola, esse símbolo nom parece ajeitado para umha homenagem em que teriam cabida pessoas e entidades tanto laicas como religiosas.
Queremos finalizar este artigo com as últimas palavras que Lola Pronunciou no Iº Congresso da Língua Galego- Portuguesa organizado pola Agal:
Umha língua nom é grande, ou importante, polo número de milhons de falantes ou polo seu prestígio internacional. Umha língua é, em verdade, grande e importante quando hai homes e mulheres dispostos a morrer por ela. Na Galiza houvo-os e ainda os hai. Por isso a nossa língua é grande. Tem ainda mais grandeza por isso do que por ter 150 milhons de falantes, nas suas diferentes variantes, espalhados por todo o mundo. Tem ainda mais grandeza por isso do que pola glória de ter produzido uma lírica medieval que assombra e comove, ainda hoje, a quem tiver a fortuna de conhecê-la.
Além disso, a língua galego-portuguesa -a língua dos galegos- é a mais formosa de todas as línguas. Nom renunciaremos nunca a tam prezado tesouro. Queremos umha Galiza livre onde a língua nacional seja a língua oficial. Com isso sonhamos e para isso luitamos.
Estamos seguros da vitória.
A celebraçom deste Iº Congresso Internacional da Língua Galego-Portuguesa na Galiza é umha prova mais de que o grande Castelao tinha razom: “Som e serám sempre uns imperialistas fracassados”. (Maria das Dores Arribe Dopico. Ourense, 1984)
