Com Lois Barros Díaz a língua galega entrou nas Escolas Oficiais de Idiomas



img-20201213-wa0005Da intensa carreira de Lois Barros Diaz (Corunha 1954) destaca o seu amor pola língua e o folclore. Licenciado em Filologia Românica —especialidade de Francês— na Universidade de Compostela, nos anos 1976 e 1977 trabalhou como professor auxiliar de espanhol no Licée Pierre Corneille e no C.E.S Fontenelle de Rouen (Seine-Marine). Em 1977 ingressou na Escola Oficial de Idiomas da Corunha, convertendo-se assim no primeiro docente de língua galega nas Escolas Oficiais de Idiomas.

Trás passar por diferentes categorias administrativas —professor contratado, professor interino e funcionário de carreira—, desenvolveu umha intensa carreira docente e acolheu-se à reforma voluntária no ano 2014. Paralelamente ao seu trabalho académico, Lois Barros realizou um grande labor no mundo do folclore galego dentro do grupo Coros e Danzas Eidos, como cantor e pandereteiro e também como secretário da associaçom.

O teu compromisso com o idioma galego é evidente, mas gostaria de saber como som as lembranças a respeito das línguas na tua infância.

A minha nai era Asturiana, de Oviedo concretamente, nada no bairro de Santullano e batizada na igreja de San Julián de los Prados. Véu com a sua família para a Corunha definitivamente depois da Guerra Civil. Antes já estivera aqui como refugiada desde o 36 ao 39 e aqui conheceu o meu pai anos depois. A verdade é que com a minha nai e a sua família nunca falei galego, mas sim que o falava com o meu pai, que era da paróquia de Berres, no concelho da Estrada. Quando dei o passo a falar definitivamente em galego foi quando entrei na universidade.

A Universidade de Compostela é um autêntico agente dinamizador linguístico, porque muitas pessoas passam a usar habitualmente o nosso idioma ao entrarem nela.

Para mim forom uns anos maravilhosos. De abertura total em todos os campos. Entrei em contacto com tudo o que era a nova Galiza, a que todos esperávamos. Para mim a Universidade foi um mundo novo. Eu, que nunca saíra do âmbito familiar, encontrava-me com que era livre para fazer e para pensar. Meu pai, sendo militar, sempre me animou a isso: a ser livre e a ser eu mesmo, dentro duns limites, claro!! (“Nom nos dês um desgosto!!” dixo-me um dia). Para mim, a universidade foi: viver livre, pensar livre e saber comportar-me livre sem fazer sentir mal a ninguém.

Após a experiência laboral na França, o primeiro professor de língua galega nas Escolas Oficiais de Idiomas. Aqueles começos tivérom que ser duros.

Certamente, nom resultou fácil botar a andar. Os cursos de galego na EOI da Corunha —a única existente naquela altura— começariam a ministrar-se no ano 1977 e a principal dificuldade é que nom existia material didático adequado. O único método com que contávamos eram os Galego 1, 2 e 3 editados polo ILG e dos que botamos mam num princípio. Alguns anos mais tarde começarom a aparecer outros métodos como o Língua Galega de Rábade, já em mínimos, e foi o que usamos durante um tempo. À vez fomos elaborando materiais pola nossa conta.

Os cursos de galego na EOI da Corunha —a única existente naquela altura— começariam a ministrar-se no ano 1977 e a principal dificuldade é que nom existia material didático adequado. O único método com que contávamos eram os Galego 1, 2 e 3 editados polo ILG e dos que botamos mam num princípio.

Ja naqueles primeiros anos davas aulas de galego na normativa de mínimos. Havia muitas dificuldades por ter feito essa escolha?

Nom, a verdade é que nunca tivem nenhum problema. Entre outras cousas, porque para as administraçons… nom existíamos. Por aquela altura, o título da EOI praticamente nom tinha valor. A administraçom autonómica começou a organizar os cursos de Iniciaçom, Aperfeiçoamento e Especializaçom e deu-lhes, administrativamente, um valor superior ao dos estudos da EOI. De facto, houvo gente que —com a Certificaçom da Escola— tivo que fazer os cursos da conselharia para poder entrar na docência ou mudar de especialidade.

Isso último que nos estás a contar ocorreu-lhe a uma aluna tua, Veneranda Rodríguez Núnez, que há pouco tivemos o gosto de entrevistar. Por aquela altura ela e um grupo de mulheres de Ferrol foram alunas tuas, que lembranças guardas?

Efetivamente, eram um grupo de mulheres que se deslocavam à Corunha, os sábados, nom me lembro com que frequência. Embora nom fosse dia letivo, combinávamos na EOI para resolver-lhes dúvidas e para proporcionar-lhes material para trabalharem. O seu entusiasmo e dedicaçom forom realmente incríveis e aquela foi uma das minhas melhores experiências como docente. Por certo, a EOI da Coruña nom tinha um edifício próprio e estávamos no Instituto Menéndez Pidal, conhecido como Zalaeta.

Nesse grupo de alunas de Ferrol estava também Lola Arribe, umha mulher mui comprometida com o reintegracionismo. Que nos podes contar dela?

img-20210217-wa0005Dores Arribe e eu tivemos umha perfeita compenetraçom desde o princípio. Creio recordar que foi ela quem falou comigo, como porta-voz de todas as companheiras, para ver a possibilidade de que eu as ajudasse fora do horário letivo. Por outra parte, tivem a honra de prologar dois dos seus livros para o ensino primário, enquanto que o terceiro nom o prologuei por indicaçom dela, já que estavam próximas as oposiçons a professor numerário e considerou que me poderia resultar prejudicial. Graças a Dores tivem também a oportunidade de pronunciar umha conferência em Ferrol sobre Manuel Garcia Barros, organizada pola AGAL, na Aula de Cultura da Caixa de Aforros.

Agora que falas de Manuel Garcia Barros, que nos podes contar dele e da relaçom que vos une?

Manuel Garcia Barros foi um homem importante no seu momento, ainda que esquecido e ignorado durante muito tempo. Era agrarista e galeguista convencido. Os seus artigos na imprensa local El Estradense e a sua campanha a favor do Estatuto custaram-lhe, depois da guerra, perder o seu posto de mestre e passar algum tempo no cárcere. Em vida só viu publicada umha das suas obras, Contiños da Terra, editada em Buenos Aires e da que tenho a honra de contar com um exemplar, dedicado ao meu pai. Pouco depois de morrer, apareceu a sua obra Aventuras de Alberte Quiñoi, com bastante conteúdo autobiográfico. Agora vam aparecendo estudos sobre a sua pessoa e vam-se editando outras obras suas como é o caso de Dos meus recordos, Enredos e as recompilaçons dos seus artigos jornalísticos. Eu sei bem da sua vida e da sua obra, entre outras cousas, porque Garcia Barros e o meu avô eram primos por parte de pai e de nai.

Voltando de novo com Dores Arribe, aqueles livros de texto que fijo na normativa de mínimos forom publicados pola editorial Everest, porém nom forom admitidos pola Junta. Como tomou aquilo a autora que trabalhou com tanto carinho nesses projetos para que fossem utilizados no ensino oficial?

Pois, ainda que nom mo manifestasse abertamente, acho que deveu ser como um muro diante dos olhos perante outras possibilidades que teria pensado levar adiante. Deveu ser algo tam duro que lhe resultaria difícil de superar. Ver um trabalho em que pujo toda a sua alma desbotado polas autoridades —e que nom chega a ter uso para o que foi concebido— tivo que ser tremendo.

Tivo que ser duríssimo para ela como autora do livro e como docente. Sem dúvida. Antes dizias que professores e professoras preparados na EOI tiverom que fazer os cursos da Junta para poderem ensinar galego. A nível pessoal, o que supujo para ti preparar tantos futuros docentes?

Lois Barros Díaz na Conferéncia sobre Manuel Garcia Barros na Aula de Cultura da Caixa de Aforros de Galicia em maio de 1983 na cidade de Ferrol.

Lois Barros Díaz na Conferéncia sobre Manuel Garcia Barros na Aula de Cultura da Caixa de Aforros de Galicia em 1983 na cidade de Ferrol.

Considerei-me privilegiado. Pola EOI da Corunha passárom desde mestres, advogados, pessoal de enfermaria, reformados, cregos, pessoas que só queriam aprender o idioma, etc… Nom se pode crer a diversidade de pessoas que passam polas Escolas Oficiais de Idiomas. Eram magníficas pessoas que, tendo estudos superiores, compaginavam os trabalhos com as aulas de galego da EOI. Som agora catedráticos/as e professores/as no ensino primário e secundário. Isso é algo que nom se pode explicar com palavras.

De quem tinhas recebido a formaçom académica em matéria de língua galega?

Quando eu comecei os meus estudos universitários, nom existia a especialidade de Galego-Português. Figem os estudos de Filologia Francesa e, entre as matérias optativas, estavam Língua e Literatura Galegas. No 3º ano optei por Língua Galega e recebim as aulas de D. Ricardo Carvalho Calero e em 5º curso figem Literatura Galega Contemporânea e tivem como professor a D. José Luís Couceiro. E de ambos guardo entranháveis lembranças como professores e como pessoas.

Além de teres sido aluno de Carvalho Calero, o relacionamento com ele perdurou no tempo. Uns anos depois, atuavas como moderador de umas conferências que deram Ricardo Carvalho e Ramón Piñeiro na Aula de Cultura da Caixa de Aforros na Corunha. Que nos podes contar daquela experiência?

Para mim, apresentar a Ricardo Carvalho Calero ou a Ramón Piñeiro foi umha responsabilidade e nom foi fácil. Duas personalidades da cultura galega como essas… implica certo “medo”. Nom é fácil falar de duas pessoas que som figuras chave na cultura galega sem exceder-se em afagos nem ficar curto. Anos antes tocou-me apresentar a Rafael Dieste numha conferência que dera na EOI da Corunha. Creio que saim mais ou menos bem na minha tarefa…

Até agora falamos da tua carreira profissional, porém há algo que também te define e é o teu amor polo folclore. Que gostarias de destacar de tantos anos a colaborar no grupo Coros e Danzas Eidos?

Isto é também complicado. Eu envolvim-me no folclore dumha maneira intensa no ano 1985, ainda que desde poucos anos antes já entrara em contacto com a Asociación Provincial de Coros e Danzas Eidos da Corunha. O folclore já me chamou desde pequeno. Comecei a tocar a pandeireta com um livro escutando discos de Cántigas da Terra. Nom perdia umha actuaçom de Cántigas da Terra, de Aturuxo ou da Sección Feminina da Corunha. Aquilo encantava-me. E tivem a ocasiom de ir aprender a dançar com Eidos (sucessores do Grupo de Coros y Danzas da Sección Femenina). Assim me fum integrando em Eidos, nunca como bailador!!!, mas oferecerom-me ser pandereteiro e cantar e nom dixem que nom. Graças a Eidos pudem participar em festivais em diferentes países (Polónia, França, Portugal, Lituânia, Hungria e Eslováquia entre outros) e conhecer geografias e gente que, doutra maneira, seria impensável conhecer. Também graças a Eidos pudem conhecer pessoas maravilhosas do folclore galego e espanhol como Pancho Rodríguez, Anxo Martínez, Pepe Cortizo, Quique Peón… e muitos mais.

Loreto de Castro

Loreto de Castro

Loreto de Castro (1975) é atriz desde há 35 anos. É autora e diretora do roteiro literário-musical "A mirada de Carvalho Calero" que realiza o grupo O Faladoiro.
Loreto de Castro


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