Veneranda Aida R. Núnez: “Na cidade de Ferrol está o berço do meu reintegracionismo”



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Nanda com o livro da entrevista de Salinas Portugal a Carvalho.

Da história vital de Veneranda Aida Rodríguez Núnez (Freixo-Ourense;1943) chama a atençom a sua permanente vontade de aprender e de se formar, com um interesse especial polos idiomas.

Filha de mestres, estudou na Escola de Magistério de Ourense e, quando as circunstâncias mudaram, matriculou-se com sucesso no Ciclo Superior de Língua Galega na Escola Oficial de Idiomas da Corunha. Mais tarde, cursou também os cinco níveis de francês na EOI de Ferrol e após a sua reforma laboral estudou o ciclo Superior de português na EOI de Ourense.

A nossa entrevistada trabalhou em muitos lugares fora da Galiza. O seu último destino antes de regressar tivo-o em Barcelona e, uma vez de volta, deu aulas em vários centros de Ferrol e a sua vida como docente terminou num instituto de Ourense.

Algo muito chamativo na vida da “Nanda” -como a conhecem os seus amigos- é o seu compromisso com o idioma galego, através dum grupo reintegracionista de Ferrol que, liderado por Martinho Montero Santalha, colaborou para a fundaçom da AGAL.

Nanda, o teu compromisso com a língua galega vém de longe. Quais som as tuas lembranças familiares a este respeito?

Quando vivíamos em Freixo,  para mim e para as minhas irmás o galego era a língua primordial. Embora a nossa mae nos falasse em castelhano, o nosso pai e o resto da família paterna e materna falava-nos em galego. Os demais nenos e nenas da aldeia também. Portanto, para nós era o mais habitual.

Teus pais eram mestres. Sem dúvida, na tua casa o ambiente devia estar bastante condicionado por esta circunstância, boa prova disso é que as tuas três irmás também estudarom para mestras. Que lembras dos teus primeiros anos de estudo?

Depois de vivermos durante uns anos em Freixo, destinarom os meus pais a Vila Nova dos Infantes. Durante os primeiros anos nesta vila, estudávamos com os meus pais e íamo-nos examinar ao Instituto Outeiro Pedraio. Mais adiante estudamos no colégio das Franciscanas, de Cela Nova e nas Carmelitas, de Ourense, onde completamos os estudos prévios a matricular-nos na Escola de Magistério.

Uma vez completados os estudos na Escola de Magistério de Ourense, em que lugares trabalhaste como mestra?

Trabalhei em muitos lugares. Os que mais lembro som León, Sevilha e também Barcelona. Estando nesta cidade, ao mesmo tempo que dava aulas, estudei três cursos de Psicologia. Depois vim para Galiza e dei aulas num  colégio de Ferrol, o Santa Maria de Carança. Quando este colégio fechou, passei a trabalhar no Instituto Concepción Arenal e depois conseguim destino em Ourense.

Como nos contavas no princípio desta entrevista, a língua galega era a que se utilazava na tua casa de maneira habitual, mas em que momento adquirias a formaçom  oficial para poder dar aulas de galego?

No decénio de 1970, um grupo de companheiras de Ferrol começamos a estudar galego e íamo-nos examinar à Escola de Idiomas da Corunha. Num dos cursos, o mestre pediu-nos que nos matriculássemos na modalidade presencial porque, se nom tinha um número determinado de matrículas, suprimiam as aulas. Nós assim o figemos. Nom íamos todos os dias à Corunha, mas procurávamos assistir com frequência. Ainda assim, apesar de ter o título da Escola Oficial de Idiomas e de ter feito a reválida, tivem que fazer os cursos da Junta para poder dar aulas.

No decénio de 1970, um grupo de companheiras de Ferrol começamos a estudar galego e íamo-nos examinar à Escola de Idiomas da Corunha. Num dos cursos, o mestre pediu-nos que nos matriculássemos na modalidade presencial porque, se nom tinha um número determinado de matrículas, suprimiam as aulas.

Parece absurdo que te obrigaram a fazer esses cursos, quando tu tinhas uma formaçom superior. Por vezes nom logramos compreender os procederes  de quem manda nas administraçons. Falávamos antes que a tua aposta pola normativa reintegracionista vinha de tempo atrás. Como conheceste o reintegracionismo?

Quando íamos à Escola de Idiomas da Corunha, tivemos a sorte de que o professor ensinava os mínimos reintegracionistas. Por outro lado, em Ferrol eu relacionava-me com um grupo de gente que eram reintegracionistas.

Algumas pessoas podem ficar surpreendidas ao saber deste grupo de gente que mencionas. Que lenbranças guardas dessa etapa em Ferrol?

Entre outras pessoas, esse grupo formávamo-lo Martinho Montero Santalha, Dores Arribe, Manuel Rivero, Maria do Carmo Salgado, Pepa Abeledo e eu. Uma cousa curiosa que lembro daqueles anos é que um grupo de companheiras chegamos a receber aulas de galego na Cafetaria Avenida. A mestra era Maria das Dores Arribe.

Entre outras pessoas, esse grupo formávamo-lo Martinho Montero Santalha, Dores Arribe, Manuel Rivero, Maria do Carmo Salgado, Pepa Abeledo e eu. Uma cousa curiosa que lembro daqueles anos é que um grupo de companheiras chegamos a receber aulas de galego na Cafetaria Avenida. A mestra era Maria das Dores Arribe.

Com certeza, aquelas aulas estavam acompanhadas de interessantes conversas.

E claro que estavam!

Martinho Montero Santalha, com quem falamos para documentar-nos antes desta entrevista, contou-nos que alguma gente deste grupo conheceu-se sendo ele presidente da Sociedade Cultural Medúlio, quando organizou um curso de galego reintegrado na sede que nesse momento a sociedade tinha no centro de Ferrol, perto de Capitania.

Eu fum a aulas de galego reintegrado em Ferrol. Nom a esse curso que organizou Martinho, mas a umas aulas que davam no Colégio Companhia de Maria. Neste colégio organizaram um curso de galego reintegrado para formar o seu professorado. Uma amiga que trabalhava ali avisou-me e deixaram-nos assistir a outra companheira do Santa Maria de Carança e mais a mim.

Eu fum a aulas de galego reintegrado em Ferrol. Nom a esse curso que organizou Martinho, mas a umas aulas que davam no Colégio Companhia de Maria. Neste colégio organizaram um curso de galego reintegrado para formar o seu professorado. Uma amiga que trabalhava ali avisou-me e deixaram-nos assistir a outra companheira do Santa Maria de Carança e mais a mim.

A algum desses cursos assistiria Manuel Rivero…

A Manuel Rivero conhecim-no numa manifestaçom de Astano. Polo sotaque decatamo-nos que os dous éramos de Ourense. Na casa dele conhecim a Martinho Montero Santalha. Naquela época figem-me sócia da AGAL e sigo sendo sócia tantos anos depois.

Era um grupo dinámico.

Era. Muito. Uma cousa que também lembro do trabalho daquele grupo som os livros de texto tam maravilhosos que fijo Dores Arribe na normativa reintegracionista e que forom censurados. A Junta exigia modificar a normativa e como a autora nom aceitou, só forom utilizados por mestres com muito compromisso.

Uma cousa que também lembro do trabalho daquele grupo som os livros de texto tam maravilhosos que fijo Dores Arribe na normativa reintegracionista e que forom censurados. A Junta exigia modificar a normativa e como a autora nom aceitou, só forom utilizados por mestres com muito compromisso.

Certamente este grupo de reintegracionistas formado por pessoas que estávades a viver em Ferrol fijo um grande trabalho e colaborou na Fundaçom da Associaçom Galega da Língua. Que nos podes contar daqueles primeiros  anos da Agal?

Tenho boas lembranças dos congressos da AGAL. Assistim a três. Os dous primeiros celebrarom-se nos anos 1984 e 1987 em Ourense e em Compostela e o terceiro celebrou-se em Ourense e em Vigo no ano 1990. Tenho os livros das actas. Entre outros conferencistas, nos dous primeiros estivo Carvalho Calero. Quando se celebrou o terceiro, já falacera e o terceiro congresso foi em homenagem dele. Gostei muito de ouvir as suas conferências; Carvalho era um grande orador.

A tua aposta polo galeguismo e o reintegracionismo chegou a ser causa de problemas laborais?

Quando era mestra no Santa Maria de Carança, alguns filhos doutros mestres eram alunos meus e eu ensinava-lhes galego com a normativa de mínimos. Alguns dos meus companheiros apresentaram queixa e interviu o inspector. Como o resto das famílias nom se queixava, o assunto ficou solucionado.

Quando era mestra no Santa Maria de Carança, alguns filhos doutros mestres eram alunos meus e eu ensinava-lhes galego com a normativa de mínimos. Alguns dos meus companheiros apresentaram queixa e interviu o inspector. Como o resto das famílias nom se queixava, o assunto ficou solucionado.

Agora que falas disso, Martinho Montero Santalha lembra que numa ocasiom convidaste-o a falar sobre o galego e o reintegracionismo no Santa Maria de Carança, talvez com motivo das Letras Galegas. Guarda um grato recordo desse encontro.

Quem sabe se o labor pedagógico de Martinho influiu positivamente na posiçom daqueles pais.

Antes falavas-nos da participaçom de Ricardo Carvalho Calero nos congressos da AGAL. Chegaste a conhecê-lo pessoalmente?

Sim. Lembro que Manuel Rivero e mais eu fôramos a umas conferências sobre ele na sede de Caixa Galicia de Ferrol, organizadas por Medúlio. De caminho às conferências atopamo-nos com Carvalho em varias ocasions e invitávamo-lo a café numa cafetaria da rúa Galiano. Era uma pessoa cercana e agradável, tenho um grato recordo daqueles encontros.

Contou-nos Delia Vázquez -directiva da Sociedade Cultural Medúlio naquela altura- que essas conferências fomavam parte de uma homenagem a Carvalho Calero.

Comida homenagem a Ricardo Carvalho Calero no Hotel Almirante de Ferrol, organizado pola Sociedade Cultural Medulio no ano 1981. De dereita a esquerda: Maria do Carmo Salgado, Nanda Rodríguez Núñez, Manuel Rivero, D Ricardo, Lola Arribe Dopico, Xosé Leira, Pepa Abeledo, Maria Ignacia Ramos, dona de D Ricardo. | Manuel Rivero Pérez

Comida homenagem a Ricardo Carvalho Calero no Hotel Almirante de Ferrol, organizado pola Sociedade Cultural Medulio no ano 1981. De dereita a esquerda: Maria do Carmo Salgado, Nanda Rodríguez Núñez, Manuel Rivero, D Ricardo, Lola Arribe Dopico, Xosé Leira, Pepa Abeledo, Maria Ignacia Ramos, dona de D Ricardo. | Manuel Rivero Pérez

A primeira celebrou-se no ano 1981. Constou de uma série de palestras nas que intervirom personalidades como Xosé Maria Dobarro, Fernández del Riego, Montero Santalha e Francisco Rodríguez. O próprio dom Ricardo interviu também. Numa segunda parte, no ano 1982, publicou-se um caderno no que recolhem-se os textos das palestras e também os trabalhos de outros autores entre os que estám Pilar Garcia Negro, Araceli Herrero, Xohana Torres, Ernesto Guerra da Cal, Xaquin Marín e Siro. A homenagem finalizou com a colocaçom da placa na sua casa natal e com uma ceia no Hotel Almirante.

Eu lembro ter assistido a aquela ceia de homenagem no hotel Almirante. De facto, saio nalguma das fotos de grupo que se tiraram aquela noite. Havia tanta gente que tivemos que fazer grupos para poder fotografar-nos com o professor. Foi uma velada bem agradável e uma homenagem merecida.

Durante este ano dedicado a Carvalho Calero figerom-se também muitas homenagens, mas os seus livros continuam sem reeditar, o que é imprescindível para conhecer a sua literatura e os seus ensaios. Com motivo das Letras voltaste ler alguma das suas obras?

Voltei a ler ScórpioA Gente da Barreira e lim também Voz e Silêncio de Francisco Salinas Portugal, que é um livro de entrevistas. Em princípio ia ser uma entrevista curta, mas alongou-se e publicou-se o livro. Como deveu ser a última ou uma das últimas entrevistas a Carvalho, lê-lo é uma boa maneira de  conhecê-lo e de saber o que pensava da situaçom da língua nos últimos anos da sua vida.

Conta-nos a anedota com Francisco Salinas Portugal, o autor do livro.

No segundo congresso da AGAL, entre outras personalidades, participou José Saramago, que tinha de anfitriom o amigo Francisco Salinas. Quando iam cear, como nom lhes apetecia ir ao hotel, Francisco Salinas pediu-me que os levasse tomar algo polas ruas dos vinhos. Figem-lhes de guia. Desfrutei muito das tertúlias que ali surgirom e da cercania com que me tratarom.

Loreto de Castro

Loreto de Castro

Loreto de Castro (1975) é atriz desde há 35 anos. É autora e diretora do roteiro literário-musical "A mirada de Carvalho Calero" que realiza o grupo O Faladoiro.
Loreto de Castro


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  • Ernesto Vazquez Souza

    uma das melhores e mais espetaculares entrevistas das que levo lido no PGL…

    fatástico!!

  • Proxecto Neo

    Trinta anos depois, D. Ricardo recebe estas homenagens. Formoso, porque só passa o tempo; o carinho continua. Sem ter sido sua aluna, Nada reconhece-se como da sua escola e da escola de Martinho e de Lola Arribe. Todas essas escolas som a mesma: a escola do orgulho de ser.

  • https://pglingua.org/index.php abanhos

    mais uma fantástica entrevista

  • https://pgl.gal Valentim R. Fagim

    Foi uma minha aluna na EOI de Ourense, uma ótima aluna.