Por João Aveledo (*)
Chegados os dias longos e os calores, nas serras começam os curros… Valga, Torronha, Mougás… madrugam para reunirem os garranos mais puros. Cavalos que vivem todo o ano à solta, são baixados dos montes em festa multitudinária. “Filhos de éguas fecundadas polo vento”, no parecer dos romanos, estes póneis célticos pertencem ao mesmo tronco que o Asturcão, Pottok, Dartmoor, Exmoor, Gales, Connemara, Shetland e Highland, raças distribuídas ao longo do Arco Atlântico.
O de “asturcão” nunca foi nome popular, mas o que os romanos davam aos cavalos de galaicos e astures (Plínio). A raça “reinventou-se” logo em finais de 70 a partir de só 12 exemplares da Serra do Sueve… O problema aqui é de limites administrativos e “falsos nacionalismos”, que não sabem do continuum genético, mas sim de barreiras psicológicas. O mesmo acontece com Portugal. O garrano estende-se polo Minho e já em 1872 Bernardo Lima falava em “raça lusogaliziana”. Pois bem, oficialmente, os garranos de aquém-Minho pertencem a uma outra raça denominada “Pura Raça Galego”, a imitação do andaluz “Pura Raça Espanhol”. Há uns anos, quando a cria só estava subsidiada em Portugal, o presidente da associação de criadores galegos, queixava-se publicamente da “fraude” que implicava que os portugueses viessem comprar cavalos à Galiza, pois após cruzada a Raia, segundo ele mesmo reconhecia, as “duas raças” eram indistinguíveis…
A principal ameaça para o garrano está associada à perda de pureza genética por cruzamento com outras raças, a fim de melhorar a sua produção cárnica. Os intentos de recuperação começaram em 45, no Gerês, onde já não havia garranos em liberdade, polo que o Governo português foi procurar animais domésticos, mais ou menos puros, para assim constituir um primeiro núcleo com 21 exemplares. Em 98, estabelece-se na Galiza o Livro Genealógico para o registo de exemplares dentro do estalão e em 2005, inaugura-se o Centro de Referência de Sergude (Boqueixão).
O garrano é um cavalo pequeno, de sólida estrutura física, inteligente, de temperamento dócil e tranquilo (quando criado na casa). Ideal para a monta, apresenta dous andamentos característicos, a andadura e o passo travado.
A sua importância ecológica é excepcional e explica a persistência do lobo nos nossos montes. Aliás, pode tornar-se uma eficaz ferramenta na prevenção de incêndios, ao controlar o mato. Falamos, com certeza, de um tesouro milenário, os mesmos póneis que os nossos antepassados gravaram na ‘Laje dos Cavalos’ em Campo Lameiro ou na ‘Pedra do Outeiro do Crivo’ em Armenteira.
(*) Artigo publicado originalmente no n.º 43 do Novas da Galiza
