Galiza e Portugal polos caminhos da poesia



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Adela Figueroa a recitar.

Muito obrigada a Ester de Sousa Sá pelo seu esforço na organização desta compilação e deste ato.
No sábado dia 5 de setembro 2020 celebrou-se na Câmara Municipal de Espinho, Portugal o encontro de poetas da Associação Luso-Galaica Poetas do Reencontro.
Num ato emotivo e cheio de valores culturais fez-se o lançamento do livro CAMINHOS DA POESIA, Fruto do terceiro dos encontros que este coletivo vem fazendo desde há dois anos. Esta amizade poética foi promovida desde a Galiza por vários escritores entre os que destacamos a Anxo Boan de Chantada e desde Portugal a Ester de Sousa Sá de Espinho.
O Título deste volume é bem significativo, Caminhos da Poesia. Pois é através da poesia que estes dois povos , “separados quase desde o nascimento” como dizia Jõao Verde, voltam a se encontrar.
A Poesia , esse “grande milagro do mundo” que disse Luís Pimentel, nosso grande poeta lugués, é um instrumento ideal para a transmissão de conhecimentos, costumes, crenças , em fim, tudo aquilo que nós denominamos de cultura.
A Galiza e Portugal foram separados administrativamente ou politicamente já desde o século XIII. É a fronteira administrativa mais antiga da Europa.

A Galiza e Portugal foram separados administrativamente ou politicamente já desde o século XIII. É a fronteira administrativa mais antiga da Europa.Portugal nasceu arrancado da Terra Mãe ( Galiza) polo arrojo de seu primeiro rei Afonso Henriquez, rebelado contra sua mãe Galega dona Teresa . E fiz bem. Porque nesse ato libertou-se de Castela, em quanto a Galiza seguiu sempre na órbita deste reino que lhe veio custar sua vida independente e autónoma.

Portugal nasceu arrancado da Terra Mãe ( Galiza) polo arrojo de seu primeiro rei Afonso Henriquez, rebelado contra sua mãe Galega dona Teresa . E fiz bem. Porque nesse ato libertou-se de Castela, em quanto a Galiza seguiu sempre na órbita deste reino que lhe veio custar sua vida independente e autónoma. Que lhe cobriu seu ser como veio da indiferença e do maior do desprezo, negando-lhe sua existência como povo diferenciado cultural, ambiental e historicamente.( Galiza nom queiras nunca chamarte española, que España de ti se olvida siendo tu tan hermosa) ( Rosalia de Castro)
Nossa língua seguiu vivendo e crescendo em Portugal. E mentres “aló” continuava a ser língua de Reis / Rainhas e de Estado, cá deste lado só ficou guardada pelo povo humilde, que a não podia escrever. O Castellano foi e ainda é , a língua dos atos civis , do poder e do dinheiro.caminhos-da-poesia
Por isso estes atos chamam-se  do Reencontro, porque sabemos que os dois povos nunca deixaram de se procurarem. Independentemente dos interesses políticos de seus governantes a um e outro lado do Minho galegas e portugueses continuamos a falar a mesma língua e experimentar os mesmos sentimentos comuns de amor à paisagem, de amor à poesia e de comunhão com a Terra como o faziam nossos antepassados celtas.
Se calhar esse nosso sentimento da Saudade ou “senhardá” venha dessa falta que temos por nos ter arrancado um pedaço da nossa Terra.
Participam neste volume de Poetas do Reencontro 67 poetas, dos que  38 são galegas/os e 29 portuguesas/es. Da Galiza vêm, na sua maioria da província de Lugo e de Ourense, mas há da Corunha e de Pontevedra. Podemos dizer que toda a Galiza está representada. Inclusivamente com poetas de Astúrias que também escrevem em galego. Pela parte Portuguesa as origens são, fundamentalmente do Minho e zona Norte de Portugal, embora haja quem venha desde Lisboa.
Este volume queria estar dedicado as lendas, e a poética associada a elas, com o intuito de verificar como as raízes culturais coincidem para darem crenças comuns que se transformam em lendas polo génio criativo do povo.
Foi um dia bem grato o que passamos com os/as nossas colegas da poesia, cultivando cultura na procura das nossas raízes mais profundas e da nossa autenticidade como povo.
Esta foi a poesia que eu li no ato da apresentação como símbolo da unidade cultural na profundidade dos nossos sentimentos. Duma ausência jamais calmada.

SAUDADE.
A consistência da tua ausência
espelha um lugar valeiro no meu universo.
Para um mundo feito de carências
e de versos sem rimar,
a procura de um alegre cantar.
A tua presença sem presença
ocupa o lugar todo do meu pensamento:
Louco tempo
a passar e passar insensível ao nosso penar.
Doído instinto desejando que o tempo possa ser parado
ou movimentado à nossa vontade.
Música do cosmos em que giram as esferas divinas
em quanto dançam
Samba da minha esperança
cantada num ritual de vida sem viver.
Obscura ausência que procura uma raiola
de luz para se encher
na amanhecida como um querer.
Penas da i- alma que as vezes nascem sem florescer.
Flores que nunca foram
pétalas dormidas duma árvore não nascida
em que o vento nunca cantara
as mágicas notas da valsa, nem do samba.
Nem, ainda os estridentes queixumes dionisíacos.
Imaginário oculto
para olhos que apenas sabem ver o evidente:
sol, luz, névoa e abrente.
Noite avessia que existe
a pesar dos míseros seres humanos.
“Zamba da esperança
amanhecida como um querer
sonho, sonhos da alma
que as vezes nascem sem florescer
Sonho, sonhos da alma
que as vezes nascem sem florescer”( Luis Profili)

Adela Figueroa Panisse

Adela Figueroa Panisse

Adela Clorinda Figueroa Panisse é de Lugo (Galiza), fazedora de versos, observadora do mundo e cuidadora de amizades. Trabalhadora no ambientalismo e na criatividade da palavra. Foi professora e lutadora pela recuperação da dignidade da Galiza e, ainda, pela solidariedade entre os seres humanos e a sua reconciliação com a terra. Gosta de rir, cantar e de contar contos. Também de escutar histórias, de preferência ternas e de humor.
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