Fei[j]oo

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Por Valentim Fagim

O ovo e a galinha, a semente e a planta, a fala e a grafia. Quem está antes, quem está depois? Quem depende de quem? Um bofetada de metafísica doméstica para ativar a mente. Play.

Dizia o grande Pessoa que a fala era democrática e a escrita aristocrática. Quereria indicar que falamos como queremos mas escrevemos como devemos? Embora não seja mesmo assim, o certo é que a escrita de uma língua oferece muita menos variabilidade do que a escrita. Esta afinal é um conjunto de regras de natureza similar à que regem o xadrez. Para jogar necessitamos um consenso de como o fazer. Se em metade da partida o peão se movesse como a rainha, sem mediar aviso, seria o alvor de uma sociedade nova.

Existe uma correspondência entre a escrita e a fala. A primeira é uma tentativa de congelar a segunda em símbolos. Na Idade Média, escreventes de línguas latinas, faziam o melhor que sabiam para transcrever fonemas que nem sempre existiam em latim. Veja-se por exemplo a nasal palatal… soa estranho, sei, mas não afastes o olhar do artigo, vai acabar sabendo o que é a tal nasal palatal. Para a transcrever, na França e na Itália acabou triunfando o GN, na Occitânia e Portugal o NH, na Catalunha o NY e em Castela esse símbolo fascinante que é o Ñ, nascido para poupar espaço sendo que em origem era um N acima de outro.

Ora, outras vezes, embora o fonema não existisse em latim, podia-se pegar numa grafia latina e os escribas respiravam aliviados, afinal andar a inventar grafemas não estava recolhido no contrato. É o caso da letra J. Em palavras como Judeu, Juif, Jew, Josieu, Jueu, Judío estamos perante diferentes pronúncias mas todas estas línguas usam o J latino para a transcrever.

Como sabemos, a escrita “oficial” para a nossa língua na Galiza decidiu prescindir desta santa letra e carregar sobre o X um peso, a meu ver, excessivo. Ora, há uma esfera onde a tal letra não delegou, os apelidos. E assim temos Janeiros com o mesmo J que o inglês January e temos, sim, Feijoós. Por causa do desterro do J, trabalhamos para lhe serem perdoados os seus pecados, criou-se uma situação curiosa: lemo-la como se fosse uma palavra estrangeira do tipo teJemaneJes. Não é justo, não. A Feijoo o que é de Feijoo, a Frijol o que é de Frijol.

 

(*) Opiniom publicada originalmente no n.º 131 do Novas da Galiza.