A BARCA DO RIBEIRÃOResenha de 'Diarios' de Carlos Calvo Varela, Através Editora 2015

Escrever cara riba: luar intenso alumiando o caminho



O jejum que me agrada é este:
libertar os que foram presos injustamente,
livrá-los do jugo que levam às costas,
pôr em liberdade os oprimidos,
quebrar toda a espécie de opressão
Isaías 58:6

Lembro muito bem a primeira vez que li um artigo do Carlos Calvo. Foi no web de apoio De volta para Loureda, e lembro muito bem também as fortes emoções que senti. Alá no fundo daquelas linhas tão bem escritas latejava a alma do País, a formosa procura do nosso código genético, o código genético dos Galegos. Lembro perfeitamente algumas lágrimas nos olhos ao ver as pedras que levavam os Galegos quando iam à seitura a Castela. As pedras eram os devanceiros e cumpria avisá-los da viagem. Mas ao chegarem aos lindes, as pedras deviam ficar na Terra, formando um amilhadoiro, porque os devanceiros não podiam abandonar a Galiza. Cousas que se calhar tinha ouvido vagamente, mas que agora podia quase tocar, narradas com mestria.

Foi numa dessas ocasiões de leitura tangível, quando pensei que aquele valioso material deveria ser recopilado num livro. Felizmente, o meu desejo tornou-se realidade. Agora é que reencontro essas pedras comovedoras de Loureses entre páginas impressas, os demos maus a falarem castelhano e os   demos bons a falarem português no corpo da gente… Mas o mais fascinante foi o encontro, as cousas novas que achei no livro do Carlos, Diários. Pouco a pouco descobri uma escrita única, um novo género jornalístico e literário, erudito e poético, científico e popular. A análise filosófica, antropológica e etnográfica ao serviço do Povo, a profunda erudição e o rigor científico, a citação das fontes, tudo ao serviço da procura da Verdade e da Liberdade. Mas quiçá o mais salientável seja a imensa capacidade de síntese, a criatividade e a originalidade, o talento inato do autor para em poucas linhas oferecer um artigo literário, rigor e poesia fundidos num só corpo. Mesmo a palavra artigo torna-se uma palavra inajeitada, pouco precisa. Haveria então que inventar uma nova palavra.

Ao ler o livro do Carlos não só se experimenta um intenso gozo estético, mas também o gozo de aprender cousas novas. O investigador procura, resgata e torna público o que permanecia no esquecimento, aquilo que pola sua importância paga a pena recuperar. Há muitos exemplos disto, mas poder-se-ia citar a inscrição da Igreja de Santa Maria de Viveiro, no genial artigo intitulado Picar Pedra, ou o excelente artigo Corpus Christi, onde se recupera um episódio histórico pouco conhecido de insubmissão e dignidade galegas. Esta recuperação honesta e rigorosa alicerça um independentismo galeguista consciente e sólido, para além de posicionamentos ideológicos, válido portanto para o conjunto da sociedade galega, evidenciando a grande e ineludível tarefa da recuperação da nossa História, ainda por fazer, reunindo a fragmentação causada polo imperialismo castelhano-espanhol, colando os anacos para reconstruirmos a casa inteira do nosso passado, lar imprescindível do nosso futuro.

        Os artigos do Carlos também fazem pensar. E muito. Às vezes cumpre relê-los várias vezes para achar esse significado central, essa mensagem oculta por trás da densidade semântica. Mas achar essa mensagem oculta torna-se fulcral, porquanto a mensagem significa quase sempre uma mudança de conduta, uma tomada de consciência, uma viragem necessária e imprescindível, uma ética incontestável. Todos estes elementos fazem com que a escrita do Carlos seja uma escrita cara riba – lembrando o seu formoso artigo Cair cara riba -, um intenso luar que alumia a noite coletiva na que ainda nos achamos, uma forte luz para seguir a caminhar na procura do dia. Como o topónimo mencionado num inspirado artigo, a sua escrita é um Poço da luz, um lugar de referência onde voltar sempre e com vagar para se orientar, para não se perder, extraindo a água necessária entre a densidade significativa e poética, entre a densidade moral e rigorosa. Neste sentido, e apesar da análise objetiva da realidade, necessária e inevitável, o sentimento após a leitura dos artigos do Carlos é um sentimento optimista: ainda são possíveis a mudança, a liberdade e a redenção. Ainda caminhamos na longa noite galega, mas o intenso luar guia os nossos passos, por enquanto não caimos, e se formos capazes de caminhar em pé e acordados, se calhar o intenso luar transforma-se na luz do dia.

            Vou citar agora alguns dos artigos dos que mais gostei, tarefa complicada porque gostei de todos. Gostei muito dos Filhos da Quintã, essa rapaziada compostelã que através do tempo fundou as cacharelas no centro do Santiago español, de Os Foucejazz de Navalcarneiro, free jazz lírico para guerrilheiros da liberdade, paxaros e homens; de Cair cara riba, onde se explica como os seres humanos podem cair cara as estrelas e cara a lua; de Trebelhedoras do mundo. Uni-vos!, onde uma gralha que não é gralha se torna um poema lúdico e documentado sobre o lazer e o trabalho; de Genealogia da Democracia de Mercado, didática precisa sobre a essência última do Estado; de Língua, Poder e Loucura, onde os demos falam várias línguas e os homens só podem falar uma. Mas obviamente o meu artigo favorito é o artigo das pedras, o artigo dos devanceiros: Santa Companha da Libertação Nacional, onde as pedras-devanceiros nos dão um exemplo de patriotismo galego durante a Francesada.

            Quero reparar em duas belas ideias do livro do Carlos, a primeira está exprimida como segue no artigo Decrescimento Linguístico: “…a vizinhança, como quando vinha o lume ou um novo imposto do Estado, convocou o concelho aberto para aplicar a melhor tecnologia jamais inventada: a ajuda mútua”. Eis uma das frases mais importantes do livro, na minha opinião. O Estado só pode triunfar se a fraternidade fracassa, se a Galiza triunfar e com ela a fraternidade, se a Pátria triunfar, então uma nova política, uma nova sociedade e uma nova economia são possíveis, são reais, deixam de ser mera utopia. Por outras palavras, a condição sine qua non da sociedade livre é a fraternidade.

            A segunda ideia acha-se na última página do livro, num desenho: “…Nós chamamos Galiza ao movimento real que anula e supera o estado atual das cousas”. Um movimento real não pode estar encarnado numa ideologia qualquer, abstração que pertence ao mundo teórico e ideal. Um movimento só pode ser real se há pessoas reais prontas para o liderarem. Eis a procura do patriotismo galego, ainda por descobrir, um patriotismo real, quer dizer, um patriotismo popular.

            Finalmente, vamos deixar falar um formoso desenho  do Carlos. Todos eles são muitos lindos, mas há um que tem um interesse especial. Nele várias mariscadoras galegas carrejam juntas as alcofas nas que recolhem o marisco. Eis a imagem da Pátria que cumpre construir: carrejarmos juntos, também no imprescindível plano físico, unindo as nossas diferentes energias e qualidades em redor das ilustres pedras dos nossos devanceiros, formando o amilhadoiro na Galiza, sem sairmo-nos dos lindes, vencendo o veneno alienante do colonialismo.

PARA REFLETIR:

            Todos estamos presos. Como o próprio Carlos diz num artigo, também cumpre abolir os cárceres ao ar livre, custodiados polo Estado e polo capitalismo, e dos que nós próprios somos os carcereiros. Mas há muitos que não querem sair da prisão, e outros como o Carlos que cavam todos os dias o caminho da Liberdade.

Manuel Meixide Fernandes

Manuel Meixide Fernandes

Depois de nascer em Chantada e passar alguns anos pela Península adiante, nomeadamente em Euskadi, onde chega a estudar a metade do primeiro ano do antigo E.G.B., com sete anos volta definitivamente para morar na Galiza, na sua comarca natal. Lá estudará o resto do ensino primário e secundário, para finalmente obter em Compostela a Licenciatura em Filosofia e Ciências da Educação. Um ano antes começa a estudar o curso de Tradução e Interpretação na cidade de Vigo. Tem colaborado na década de noventa na revista chantadina Além-Parte, publicando nela diversos contos. Foi co-fundador da infelizmente dissolvida Associação Cultural Rodrigues Lapa, nascida na vila do Asma no ano 2007. A partir do ano 2001 dá aulas de francês no secundário, morando na vila da Estrada desde o ano 2011.
Manuel Meixide Fernandes

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  • ranhadoiro

    Excelente texto, adofrei.
    E o que nos faz sentir a mim o Carlos ao lé-lo, é uma sensação sábia e inenarrável.
    Carlos é do melhor que há na Galiza, será por isso que está preso?, Pois nada se pudo demonstrar que justificara essa medida