Esconder a barriga

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Por Valentim R. Fagim

Uma das imagens que me ficou gravada dos desenhos animados que via na infância é umha cena da abelha Maia. Vili, seu amigão molengão, fizera umha travessura e, prestes a ser apanhado pola professora Kasandra, escondera-se. Ocultou-se atrás de umha coluna estreita e ficou a olhar para a parede a pensar: se eu nom os vejo, eles nom me podem ver. Como lembraredes, Vili era grosso e o seu corpo naturalmente sobressaía nitidamente da coluna.

Uma das constantes do galeguismo hegemónico na atualidade é precisamente ocultar, no seu caso, o castelhano e o português. O do português já sabemos como é: 27 gerações de alunos e alunas a estudarem galego na escola para saírem dela sem saber que a língua de Portugal e do Brasil também é sua. Creio que nom é preciso indicar a revalorizaçom da nossa língua e da própria matéria escolar se se oferecesse o sabor lusitano e brasileiro do galego. Algum dia terám que explicar-nos as bondades desta estratégia e nom o vam ter fácil.

O do castelhano tem um esquema diferente mas resume-se em: eu nom vejo a presença do castelhano no galego, portanto a minha língua está livre de quaisquer interferências. O interessante é ser precisamente a ocultaçom do português o que nom permite detetar o muito castelhano que há nas nossas falas e escritas. Ora, é tam fácil de ver como a barriga do Vili. Para isso é preciso dominar o galego de Portugal e do Brasil, porque são as variedades que ficaram livres da interferência profunda do castelhano essencialmente porque tinham e tenhem… estado. Reconheçamos, no entanto, que olhar para a parede também tem as suas vantagens.


(*) Opiniom publicada originalmente no n.º 94 do Novas da Galiza, na secçom Língua Nacional.