Encontro Poético da Raia em Elvas



img-20200913-wa0015Teve lugar no dia 12 de setembro o encontro Luso-Hispano de poesia na Raia, na vila de Santa Eulália pertencente a Elvas.

Elvas é uma cidade encantadora que agora deixou atrás o seu passado defensivo para se abrir à poesia. Como dizia o nosso poeta lugués Luis Pimentel, a poesia é o grande milagre do mundo. Neste caso assim aconteceu. A cidade mais fortificada de Europa, em palavras de Moisés Cayetano Rosado, cedeu as suas defesas para a lírica e o encontro. Moises foi o nosso magnifico guia na fortaleza da Graça , uma construção militar de exceção, única em Europa e magnífico exemplo dos esforços que Portugal tem feito ao longo da sua história para se manter independente da Espanha. Elvas nisso é tudo um símbolo. No nosso percurso, tão bem documentado por Moisés apreendemos que nada é de graça. Se Portugal não foi absorvido por Espanha é por vontade explicita de seus habitantes e por seu empenho em ser um povo independente. Portugal, hoje amistosa e amável, lutou com coragem e persistência para manter sua língua, sua cultura e sua peculiar maneira de ver o mundo e de interpreta-lo face ao imperialismo español. Na Galiza bem sabemos disso. Vendo hoje a nossa língua minusvalorada e desprezada pola imensa maioria dos habitantes deste país, Terra mãe e berço da língua. Doe ver como tantas pessoas, inclusivamente consideradas cultas, não ensinam galego aos filhos/as e não falam na sua língua formosa, culta e amorosa. Uma língua que foi escrita desde o século XI antes que muitas das europeias. Uma língua que, levada da mão de Portugal cruzou mares e terras e é hoje falada por mais de 200 milhões de pessoas. Uma língua em que nos podemos reconhecer como povo e projetar-nos para o mundo inteiro. Mas a realidade da Galiza é assim. Dizia Xocas (Xaquin Lourenzo) “Somos um povo empenhado em suicidar-se e não dá conseguido” . Quêm estas palavras vão ler, serão gentes já convencidas. Dificilmente lerão este texto pessoas das que abandonam o galego ou das que o desprezam. Mas vale-me o desabafo e solicito vosso perdão por ele.

Se Portugal não foi absorvido por Espanha é por vontade explicita de seus habitantes e por seu empenho em ser um povo independente. Portugal, hoje amistosa e amável, lutou com coragem e persistência para manter sua língua, sua cultura e sua peculiar maneira de ver o mundo e de interpreta-lo face ao imperialismo español. Na Galiza bem sabemos disso.

raia-luso-espanhola-capaNa colectânea Da Raia Luso Espanhola participaram 261 poetas e artistas plásticos, dos cuais 25 éramos da Galiza. Será a saudade o motor da nossa participação? Esse sentimento tão galego e português que reflete a perda do filho ou da irmã afastada desde quase o nascimento como canta João Verde desde Monção? Ainda este sentimento de ausência tem na Galiza matizes e ramifica-se em morrinha ou senhardade, mas continua a ser um grande sentimento de falta de carência anímica que nos faz sentir incompletas.

Graça Foles Amiguinho fez um grande esforço para conseguir este “produto” internacional de grande valia e de transcendência histórica. Porque a poesia dá testemunho do sentir dos povos e de seu momento histórico. Pessoalmente não concebo a poesia sem compromisso. Quer este o que for. Bem seja a dor por que sofre injustiças, por quem sofre de amor ou por quem se deleita com a paisagem e se compromete com ela. Por quem se projeta no futuro ou por quem se agasalha no passado. Mas sempre é preciso um compromisso da autora com sigo mesma e com os tempos em lhe quadrou viver. Copio aqui uma parte do poema de Gabriel Celaya : “ La poesia es um arma cargada de futuro”

Maldigo la poesía concebida como un lujo
cultural por los neutrales
que, lavándose las manos, se desentienden y evaden.
Maldigo la poesía de quien no toma partido hasta mancharse.
Hago mías las faltas. Siento en mí a cuantos sufren
y canto respirando.

Porque é assim como eu penso. Rosalia deixou-nos seu exemplo. E tantos e tantas outras poetas galegas e de todo o mundo.

Desejo que estes encontros favoreçam os intercâmbios culturais e a paz que somente pode vir do reconhecimento do outro com a mesma dignidade que exigimos para nós.

Muito obrigada Graça Amiguinho, Moises Cayetano, e também Rui . Fico muito grata por ter-vos conhecido.

Bem haja a todas e todos . Bem haja a poesia.

Transcrevo cá o que eu li no encontro. Refere-se aos montanhas do Courel. Também a que cantei/ declamei em defesa das refugiadas que sofrem nas Ilhas Gregas , na Entrada da Europa cega e surda. Com a música de Evinha de La Torre.

O OLHO DO SOL

O olho do sol tingiu
o ar paralisado da tarde
com suas cores vermelhas
com seus raios de sangue.
Por um instante,
árvores ramos e folhas,
na transparência rosada
mimetizaram o medo
pairando sobre a montanha.
A atmosfera parada
espelhava
a cor de cobre
que antes nunca para mim brilhara.
Cálida luz do sol da montanha:
Quem pudera
deixar que a mim inteira me banhara,
de vermelho
de cobre
e, ainda de alvoradas.

SOU EU. SOMOS NÓS (Música de Evinha de la Torre)

Sou hoje quem tu já foste
a outra da outra sou eu.
Sou as mulheres todas
sou quem tu já nem poderás ser,
deitadinha ao pé desta floresta
que nunca te verá crescer.
Sou meninha, sou mulher
entre milheiros de corpos
que vagueiam na procura
dum horizonte sempre mais além.
Sou eu.
Somos aquelas que já passaram
por trás de todos os murados
tapizados
de brions que os milênios deixaram crescer.
Somos nós as da tribo da Helena,
primigênia
que cuidava o lume no lar,
a que arrolava meninhos no colo
a que cantava o doce cantar
para adormecer crianças
para consolar.
Sou quem percorre os caminhos
nesta alvorada sempre por chegar,
somos todas as que parimos filhos
que nunca cresceram.
Somos a noite e somos a manhã
neste dia sem dia
deste sem alvorejar.
Nevoeiro em que agora estamos
lado a lado
na procura dum alvo
em que amarrar a nossa vida,
a nossa paz.

Adela Figueroa Panisse

Adela Figueroa Panisse

Adela Clorinda Figueroa Panisse é de Lugo (Galiza), fazedora de versos, observadora do mundo e cuidadora de amizades. Trabalhadora no ambientalismo e na criatividade da palavra. Foi professora e lutadora pela recuperação da dignidade da Galiza e, ainda, pela solidariedade entre os seres humanos e a sua reconciliação com a terra. Gosta de rir, cantar e de contar contos. Também de escutar histórias, de preferência ternas e de humor.
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