Dos soutos em tempos de lumes

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Por João Aveledo (*)

Como diz o adágio popular, chegados os primeiros dias do Outono começam a abrir os ouriços nos soutos. Chama-se soutos às florestas de castanheiros e soutos mansos àqueles destinados à produção de castanhas.

O castanheiro-europeu (Castanea sativa) não é uma árvore autóctone, mas perfeitamente naturalizada nos nossos ecossistemas. Tudo parece indicar que foram os romanos que estenderam o seu cultivo pola Europa a partir da Ásia Menor.

Antigamente, as castanhas eram básicas na dieta galega; logo foram substituídas polas batatas e daí a denominação de ‘castanhas da terra’ que algures ainda se lhes dá. Não é de estranhar, pois, a sua grande presença na cultura popular: magustos, sequeiros, receitas de cozinha, cantigas…

Os nossos soutos foram dizimados por duas pragas, a tinta e o cancro americano. Para as tentar combater, foi hibridado o castanheiro-europeu com o japonês (C. crenata) e ainda que os resultados obtidos não fossem os melhores, estes híbridos espalharam-se por todo o País, sem que qualquer responsável se tivesse perguntado polos efeitos, se os houver, no património genético dos nossos soutos tradicionais.

Porém, conservamos ainda importantes soutos. O de Cata-Sós (Lalim), declarado monumento natural, tem os exemplares mais altos da Europa com 30m de altura. Mas existem por todo o País castanheiros que polo seu magnífico porte seriam dignos de tal título, como o de Armariz (Nogueira de Ramuim) de 16m de circunferência ou o dos Pombarinhos (Maceda de Trives), que dizem milenário. Infelizmente, outros foram cortados, como o de Folgueira (Baralha), do qual se conserva uma fotografia em que aparece um homem com um carro do País no seu interior, segundo os vizinhos, porque dava demasiada sombra…

Agora que a Galiza acabou de sofrer uma nova vaga de incêndios, achamos necessário lembrar que os soutos ardem mal, que os caducifólios em geral ardem mal e que, portanto, constituem magníficas barreiras naturais frente ao lume.

Fica dito.

 


(*) Artigo publicado originalmente no n.º 46 do Novas da Galiza