Por João Aveledo (*)
Nos tempos obscuros das Galicias Bilingües, em que os, agora já indisfarçáveis, inimigos da nossa língua manifestam às claras as suas intenções, convém refletir (e não fechar os olhos!!!) sobre o autêntico bilinguismo que se dá na Galiza, o desse “pueblo” que fala um “ghalhegho” produto de séculos de hibridação com o castelhano e o das suas elites intelectuais, presumidamente consciencializadas, que acreditando falar um autêntico galego, fizeram do nosso idioma um tosco decalque do castelhano, enfeitado à vontade, isso sim, com artificiosos inventos que identificam à primeira o neofalante de bandeira branca e azul ao peito.
A normativa oficializada em 81 consagra este duplo processo transformando o galego num “patois” afastado quer das falas populares, quer do resto da Lusofonia, convertendo-o num dialeto absolutamente subsidiário do castelhano no que parece que “vale tudo”… menos o português!!!
E o “pueblo ghalhegho”? Pois como era de esperar e, na medida em que a sua formação académica lho facilita, maioritariamente abandona a língua dos seus antepassados e abraça a dos seus governantes, quer dizer, a dos senhores do poder e do dinheiro. E é assim como, aceleradamente, a nossa língua perde falantes e ainda qualidade nos falantes que todavia lhe restam. E é assim como, aceleradamente, culmina o processo começado no século XV e a nossa sociedade caminha face ao monolinguismo em castelhano.
O “galego bilingue”, o “galego-castelhano”, quer em versão popular, quer em versão académica, suicida-se, não tem futuro, não o pode ter. Mas o nosso idioma não corre risco de extinção. Língua oficial em oito estados, falado por quase 250 milhões de pessoas, apenas vai desaparecer do que foi o seu berço norte, da atual Galiza. Fraco consolo para nós galegas e galegos.
Podemos reverter esta situação? Não temos certeza, embora acreditemos que alguns dos passos necessários a dar são:
1º Diagnóstico sobre a realidade linguística na Galiza, para além das mistificações pseudonacionalistas ou das visões glotofágicas dos defensores da imposição do castelhano.
2º Compactação da massa social de falantes que consiga a naturalização dos neofalantes na língua do país e a culturalização dos falantes espontâneos no seu próprio idioma. O acesso à cultura produzida no resto da Lusofonia, nomeadamente, em Portugal e no Brasil, é imprescindível para que isto se torne possível, pois permite romper definitivamente com a atual dependência do castelhano. Este núcleo de falantes deverá ser o foco central a partir do qual se irradie a normalização linguística ao resto da sociedade.
3º Recuperação progressiva do léxico, sintaxe, fonética e prosódia originalmente galegos (e, portanto, lusofónicos). Daí a importância de potenciar o ensino na Galiza do português (mesmo que se alcunhe com o eufemismo de “língua extrangeira”).
4º Reintegração total das falas galegas na normativa ortográfica internacional comum ao conjunto da Lusofonia (espaço para o que há quem reivindique o nome Galeguia, por enquanto, com pouco sucesso).
5º Apoio popular à Academia Galega da Língua Portuguesa, instituição privada que deverá ser a referência linguística neste processo de reintegração. Não devemos esperar que as instituições políticas espanholas ou as suas sucursais autonómicas facilitem o processo, a própria sociedade galega deverá ser quem o impulsione.
Não sabemos que futuro idiomático nos aguarda, se o de uma sociedade galega que retorne ao monolinguismo na única língua que tem por própria, se o de uma sociedade galega dividida em duas comunidades linguísticas mais ou menos estáveis ou, mais provavelmente, o de uma sociedade galega monolingue em castelhano… ora, como já advertira Carvalho Calero, por economia linguística as sociedades tendem ao monolinguismo. Mas ainda que a nossa língua chegasse a desaparecer do uso social normal, poderia continuar a ser para nós, galegas e galegos, um forte sinal identitário, para além de uma poderosa ferramenta de comunicação internacional.
Nós aspiramos a uma sociedade monolingue em galego-português (ou português da Galiza), em que os seus membros, polo menos, dominem também o castelhano e o inglês. Não podemos (nem queremos!!!) renunciar ao castelhano e ao seu universo cultural como parte da nossa identidade diferenciada (justamente a que nos diferencia de Portugal), pois seria renunciarmos à nossa história como povo.
Insistimos, o nosso objetivo final é a constituição de uma comunidade monolingue de falantes poliglotas. Falantes que vão dominar, quase de nascimento, dous idiomas internacionais, o que junto com a aprendizagem do inglês lhes vai abrir inúmeras portas num futuro cada dia, queiramo-lo ou não, mais globalizado.
