Partilhar

Dicionário Incompleto de Mulheres Rebeldes, resenha de Guillermina Domínguez Touriño

Guillermina Domínguez Touriño – Nom é fácil fazer umha resenha bibliográfica sobre um tema “marginal” ainda, e digo marginal porque o facto de tratar mulheres esquecidas, invisíveis para a História, a Literatura, as Artes e, já nom digamos, para a vida em geral, já de por si é todo um repto.

Parece mentira que nos alvores do século XXI, ainda tenhamos que estar a fazer recopilaçons, resumos, antologias e tratados de investigaçom de pessoas que fizeram a História, igual que os homes, mas que, no entanto, nom aparecem por nengures…surpreendente, nom é?, mas real.

O resultado é, entre outros, este Dicionário, que, longe de ser tal como se poderia entender o termo dicionário, é toda umha amálgama de dados sobre todo um conjunto de mulheres que em todos e cada um dos campos da vida tivérom um papel importante, em muitos, inclusive, definitivo.

Além de nom conhecermos muitas delas, surgem, como do nada, mulheres de mundos que muita gente acha subdesenvolvidos para o mundo actual e que neste campo levam tanto tempo como nós a luitar.

Eu som da opiniom que a única diferença entre todas elas e nós é a distáncia no tempo e inclusivamente no espaço. Sempre fum da opiniom que se algo bom podemos recuperar da batida “globalizaçom” será o movimento de mulheres, explico-me…. Quando Cristina de Pizán , Trótula, Hildegarda ou Leonor de Aquitánia tentavam espalhar os seus conhecimentos, logo se tentava, em instáncias patriarcais, desmontar ou fazer desaparecer, ou de infravalorizar esses conhecimentos, a dificuldade acrescentada, além da era do espaço, o da comunicaçom, o da uniom universal de tantas e tantas mulheres que teriam conhecido através delas e que nom chegavam a fazê-lo. A “globalizaçom”, a internet, todos os meios que hoje em dia fam que qualquer de nós podamos ter contacto directo e imediato com mulheres e conhecimentos doutro extremo do mundo, fará que o caminho começado após a revoluçom feminista, seja imparável.

Já ninguém concebeu desde a segunda guerra mundial que as mulheres tenhem que ser anjos do lar, mas tivo que haver um movimento, mal chamado radical, como o encabeçado pola insigne Simone de Beauvoir, que emulando as anteriores Mary Wollstonecraft, ou a mesma Olimpe de Gouges, tomasse a bandeira da defesa dos direitos das mulheres e do reconhecimento de “ser mulher”, da tomada de consciência que fai com que os movimentos sociais empurren o progresso da humanidade.

O facto de o dicionário se intitular “de Mulheres Rebeldes” em si mesmo convida-nos a fazer umha importante reflexom. Todas as mulheres fôrom, somos e serám rebeldes de umha ou de outra maneira até o momento em que essa rebeliom nom tenha razom de ser. Todas e cada umha das que reflecte o livro-dicionario som todas e cada umha das que tivérom que “rebelar-se” para poderem ser elas mesmas, para poderem dar-nos às vindeiras geraçons umha consciência formada, séria e rigorosa onde poder assentar a nossa autoestima, a nossa trajectória como pessoas, como cidadás de pleno direito.

Acho que a filosofia, a argumentaçom que todas estas mulheres achegárom à vida de todas as mulheres presentes, ainda que muitas nom o queiran ver ou que poda passar despercebido, por isso de “eu nom som feminista”…está claro que tem formado umhas quantas geraçons de mulheres e que se, realmente, os homes tenhem algo importante por fazer é, justamente, esse corpus argumentado que as mulheres, essas mulheres e ainda muitas de hoje, tenhem feito.

Nenhum movimento social pode sustentar-se sem um córpus argumental, e qualquer nível de conscienciaçom, seja a do proletariado, a do movimento pola libertaçom racial ou o feminista, despontando nas revoluçons liberais do XIX, tenhem que ter, sem remédio, umha base filosófica e umha epistemologia em que basear-se.

A dia de hoje, continuam a fazer falta estas antologias porque o movimento feminista nom passa por um dos seus melhores momentos; quando se institucionalizam os movimentos sociais, às vezes, correm o risco de normativizar-se até o extremo de que as nossas novas geraçons de raparigas e rapazes nom consideram que haja que conquistar nenhum campo, nem que haja que luitar por nenhumha igualdade, já que pensam, está estabelecida por lei.

Livros como o que tratamos, ajudarám as geraçons mais novas a compreenderem que a dificuldade que nom ven na vida quotidiana, já que fôrom outros os obstáculos que podem ter todas essas mulheres rebeldes, primeiro, pode voltar en qualquer momento, já que a História nom é linear, ocorre involuçom e se atranca quando menos o esperamos e, sobretodo, com os sectores mais fracos da sociedade; além disso, perceberám que só através da sororidade, do esforço comum do colectivo, e melhor se bem apoiado polos homes, se poderá construir umha vida mais justa, um futuro mais eqüitativo, democrático e, por fim, e por que nom, mais feminizado.

Adelheid Popp (1869-1939): Num dos seus primeiros discursos para operários do têxtil….ficárom convencidos de que era um home vestido de mulher porque “só um home pode falar assim”.

Visto o visto, o exemplo desta mulher, que nom está tam longe, é um reflexo do que resta por fazer, do que no resto do mundo se está a passar, do que todas e todos temos que reflectir e de como trabalhos como este nos ajudarám a fazê-lo.

Todas e cada umha das que estam aqui reflectidas nom som todas as que fôrom as artífices da nossa realidade, estám todas as que som, mas faltan muitas que na vida quotidiana, na rotina, na sobrevivência, na luita diária de levar avante famílias e projectos comunitários, como hoje em dia na África, Ásia ou mundos que nom se achegárom às Leis de Igualdade nem nada que se lhe pareça; por elas, e enquanto houver umha única mulher no mundo que seja maltratada, desprezada, ignorada, vexada… polo facto de o ser, só por isso temos que continuar a produzir realidades como a que o Dicionário de mulheres rebeldes, de Ana Barradas, nos oferece, com umha singeleza abafante, com ánimo de mostrar, de reflectir acontecimentos que a História mais patriarcal tem ocultado sem cessar.

Guillermina Domínguez Touriño

Licenciada em Geografia e História, secçom de História (Medieval), pola Univerdidade de Sam-Tiago de Compostela em 1977. Também tem um POP pola USC no tema “Educaçom, Género e Igualdade”. Actualmente é professora no IES Sam Clemente de Sam-Tiago de Compostela. Recebeu o Prémio do Ministério de Educaçom no ano 1996 polas publicaçons “Materiais para unha Historia non androcéntrica” e “As mulleres e o traballo”.

Colaborou na Revista de Estudos Provinciais, editada pola Deputaçom de Ponte-Vedra, com os artigos “As mulleres creadoras” e “Vida familiar no século XIX: tratamento iconográfico”. Participou como relatora no Congresso Nacional XXV AÑOS DE ESTUDIOS DE GÉNERO na Universitat Jaume I com a comunicaçom “Mujeres Sabias entre la teoría y la práctica”. Colaborou e co-escreveu no ano 1995 “Muller e traballo”, no ano 1997 “As Mulleres na Historia” (publicada pola Editorial Xerais) e já no ano 1999 “Textos para a Historia das Mulleres en Galicia” (polo Conselho da Cultura Galega). No ano 2009 publica em parceria com Felicia Estévez o bem-sucedido “Tres mulleres galegas de Armas Tomar: María Balteira, María Castaña e María Soliña”.

Actualmente continua a colaborar em estudos de género e em congressos, reunions e, mesas redondas que ajuden a concienciar e a espalhar as ideias do feminismo mais sincero e honesto defendendo a plena igualdade e os direitos das mulheres.

 

+ Ligaçons relacionadas:

Ângelo Brea apresenta Ensinamentos de Rahotep em Bertamiráns

Através Editora publica Ensinamentos de Rahotep, de Ângelo Brea, obra ganhadora do I Prémio de Criação Literária da Cátedra Carvalho Calero da USC

Lançamento de Tourists, go home? Em Ponte Vedra

Os artigos dos topónimos no novo Nomenclátor

Juan Luis Fernández apresenta o livro Futebol Gaélico em Celanova

Colóquio sobre Tourists, go home? na Semana do Livro de Compostela (SELIC)

Ângelo Brea apresenta Ensinamentos de Rahotep em Bertamiráns

Através Editora publica Ensinamentos de Rahotep, de Ângelo Brea, obra ganhadora do I Prémio de Criação Literária da Cátedra Carvalho Calero da USC

Lançamento de Tourists, go home? Em Ponte Vedra

Os artigos dos topónimos no novo Nomenclátor