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Jesusalém, resenha de Séchu Sende

Séchu Sende – Jesusalém é um livro como um desses caminhos pelos quais antes nunca passache. Um caminho novo. Essa será a experiência de quem já tinha lido algum dos 21 livros anteriores de Mia Couto. Este romance com zebra, árvore e labirinto na capa volta surpreender.

Talvez porque a infáncia seja idade da neofilia, do gosto insaciável polas experiências novas, o narrador, que fala de quando tinha onze anos, conta umha história que transmite a originalidade do mundo que se está a descobrir, a revelar.

Porque o romance de Mia Couto é um livro que acompanha a descoberta do mundo porque “O pai escondeu-me o mundo enteiro”, relata Mwanito. Um pai foge com os seus dous filhos ao lugar mais solitário do mundo porque “o mundo acabou” e quer construir um território – Jesusalém, a terra onde Jesus haveria de se descrucificar- sem memória nem imaginaçom. O pai é um homem louco. Os filhos, por sorte, ainda nom som homes nem estám loucos.

Porque Jesusalém é um mundo de homes. Só homes. A mulher, proibido recordá-la. Pensá-la. E é muito difícil de imaginar. Para esse pai misógino e delirante a única presença feminina permitida nessa utopia é a jumenta Jezibela. Animalinho.

Mas diante do home que foge da realidade, a mulher aparece e enfronta-se a ela, transformando-a. Ainda que tamém hai mulheres derrotadas, pola morte ou a injustiça. A mulher muda a história.

E o conflito entre o pai e os filhos é rutinário e transcendental ao mesmo tempo, violento, patético, comovedor, como na vida fora dos livros. Ou na carta de Kafka a seu pai.

Passei-no bem lendo Jesusalém. Tivem a impressom de estar a conhecer um pouco da África e reconhecim o meu próprio País. Na sua gente, a minha.

A gente de Jesusalém está viva. Algumha está louca e outra luita contra a loucura. E o tempo voou, entretido. Para colegas, sinceramente: Jesusalém deve-se ler.

Espero que gostedes. E se nom, sinto-o.

Séchu Sende

Iniciou-se como poeta vinculado ao Colectivo Poético Serán Vencello, formando parte da geraçom de 90 e que mais tarde se revelou também como um dos narradores de princípios do século XXI. Foi um dos fundadores do projeto editorial Letras de Cal, no qual publica o seu primeiro livro Odiseas em 1998. Licenciado em Filologia Galego-Portuguesa, como sociolingüista foi cofundador da Cooperativa Tagen Ata, Língua e Comunicaçom. Em 2003 ganha o Prémio Blanco Amor com o romance Orixe. O seu último livro é o conjunto de relatos curtos Made in Galiza (2007), que recebeu o Prémio Anxel Casal ao Melhor Livro do Ano, concedido pola Associaçom de Editores Galegos.

 

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