Por João Aveledo (*)
Acorda a Primavera no Courel e verdes diversos sobem, devesa acima, para os “tesos cumes que olham de longe”. São as devesas os bosques milenários do Courel, um território que se estende entre Quiroga, Oência e o Zevreiro. Devesas como as da Rogueira, Romeor, Faro, Rio Cereija, Fonte Formosa, Cervo, Paderne… Lugares de encontro das floras eurosiberiana e mediterrânea, é tal a riqueza botânica que encerram, que sendo o Courel arredor de 1% da superfície galega alberga 40% das suas espécies vegetais.
Refugiada nas abas do Pico Formigueiros (1.643 m de altitude), achamos a mais conhecida destas florestas, a Devesa da Rogueira. Nos seus pouco mais de 200 hectares de superfície encontramos mais de 700 plantas distintas. Na Rogueira convivem, formando diferentes estratos de vegetação, castanheiros, aveleiras, azinheiras, carvalhos de três espécies diferentes, azevinhos, faias (que têm aqui um dos pontos mais ocidentais da sua distribuição), teixos, vidoeiros, tramazeiras…
O Courel também destaca pela sua fauna, com mais de 160 espécies de vertebrados. Sabem estas montanhas de águias-reais (em grave risco de extinção no nosso país), de charrelas (agora autênticas rarirades), de lobos, martas, arminhos, gatos-bravos… e ainda de algum urso, visitante ocasional. E continuam a guardar memória de cabras-bravas, camurças e galos-monteses que as habitaram algum dia, não há muito.
A sua riqueza natural passa também por ser esta serra um dos pontos geológicos estruturais mais importantes da Península Ibérica. Achamos xistos (piçarras), quartzitas e calcários, existindo nesta comarca ao redor de cem grutas calcárias e, precisamente, numa delas mora o galaicodytes caurelensis, um escaravelho único no mundo, que tem os seus parentes mais próximos nas selvas da América Central. Nestas covas também podemos encontrar impressionantes estalactites e estalagmites, assim como fósseis do gigantesco urso-das-cavernas. Pequenas lagoas, como a de Lucença, salpicam estas paragens, nelas ainda se deixam ver as pegadas da época glaciar. Do miradoiro de Campodola-Leixazós contempla-se um espectáculo geológico excepcional na Europa, uma dobra sinclinal a céu aberto, colossais forças tectónicas fizeram com que a montanha “dobrasse” e, em Campodola, é mesmo como se as entranhas da Terra se abrissem perante os nossos olhos.
Começamos e acabamos com Novoneyra, o poeta do Courel, para dizermos: aqui sente-se bem o pouco que é um homem.
(*) Artigo publicado originalmente no n.º 40 do Novas da Galiza
