Por José Luis Fernández Díaz (*)
Passaram já 27 anos desde que conheci Estraviz numha palestra que nos deu na Escola Universitária de Ourense. Desse primeiro encontro lembro que nos falou da identidade das línguas Galega e Portuguesa com umha naturalidade pasmosa. Tinha-o tam claro que fiquei pensativo quando ouvim que da sua autoria era o melhor dicionário galego que existisse e que poucos foram os que o valoraram e deram a conhecer. Por essa injustiça aparente decidim conhecê-lo pessoalmente. Queria experimentar se estava diante de um convencido sem prestígio ou se, ao invés, era toda umha eminencia desprezada e rejeitada. O tempo passou paseninho e o segundo encontro aconteceu nas XII Jornadas do Ensino em Ourense que convocava perto de 200 professores em exercício. Estraviz falava galego e escrevia de um modo diferente à norma oficial, porém o mais chocante nom era isso, mas que nom impunha a ninguém a sua norma. Com explicá-la era bastante para percebê-la e aceitá-la. Pouco a pouco comecei a ler em português sem grandes dificuldades e nos dias de hoje penso que as teses de Estraviz vam-se cumprindo pouco a pouco. Estou certo de que ele gostaria que fossem mais rápido, mas a luta aberta contra o reintegracionismo chegou a um ponto morto, com uma nova mudança nas normas oficiais. Palavras que antes eram proibidas agora são normativas… nom deixa de ser uma curiosidade!
Com esta pequena introduçom tento demonstrar que o livro Conversas com Isaac Alonso Estraviz, de que é autor Bernardo Penabade, é um volume imprescindível para perceber a reconstruçom da língua e da cultura galega. Digo reconstrução e talvez haja que chamar… tempo perdido, quem sabe? Contudo e a pesares do acontecido, Estraviz nunca perdeu a esperança de ver o povo galego livre das ataduras alheias que o separam da sua própria identidade que é a língua. E para isso trabalhou arreio e continua a semear a sua vida pela Galiza. Eu procurava umha resposta à minha pergunta inicial e descobrim em Estraviz um talento galego sem precedentes. Agora de pouco valem os reconhecimentos se nom provêm dos seus amigos.
Na apresentaçom [em Ourense] do livro de que falo houve muitas cousas a salientar. Entre cantiga e cantiga de Zeca Afonso interpretada pelo grupo Terra Morena, além de parabéns e amostras agarimosas, houve tempo para denunciar em público os traidores da Nossa Terra. Estraviz não deixa boneco com cabeça quando fala daqueles que antepõem os seus interesses pessoais à língua e ao País galego. Nem a igreja maioritária se salva das suas teses. Ao melhor estilo de Hans Küng, lamenta estar rodeado de pessoas que nom levam o Evangelho à sua faceta mais prática, continuando afastados do povo galego. Deste modo, conversar com Estraviz sempre foi, e continua a ser, uma oportunidade excelente para aprender a amar o nosso País, desde a esencia do nacionalismo e desde o cerne espiritual esquecido no tempo. Por isso estou convencido que em cada momento histórico aparece um Prisciliano, um Zuinglio, um Lutero, um Estraviz, que faz com que se repita o processo da Reforma em cada lugar onde for preciso. Todos guardam um fator comum que os carateriza como homens comprometidos que acreditam naquilo que fam, na procura da justiça. Se essa mesma segurança presidisse as nossas vidas, pudesse ser que tivéssemos mais problemas que os de agora, verdadeiro!, mas é certo que chegaríamos a ser um pouquinho mais livres do que sempre fomos. Esta liberdade tem um alto preço e som poucos os bons e generosos que a procuram para os demais. De um dos grandes já falamos hoje, com letras bem grandes.
(*) Membro do Conselho Escolar da Galiza.
Fotografias das apresentações em Ourense e Vila Seca
(17 e 18 de janeiro de 2014)
Áudio do evento realizado no Auditório de Ourense
(17/01/2014){mp3}2014/170114_conversas_estraviz_ourense{/mp3}
Sobre as Conversas com Isaac Alonso Estraviz
Brasil:
Assim pensa Paulo Soriano das “Conversas com Isaac Alonso Estraviz”Portugal:
Assim pensa M. Amélia F. Fernandes das “Conversas com Isaac Alonso Estraviz”
+ Ligações relacionadas:
- Conversas com Isaac Alonso Estraviz, resenha de Carlos Durão [PGL, 27 de janeiro de 2014]
- Ficha do livro Conversas com Isaac Alonso Estraviz na loja em linha Imperdível
- Através publica as ‘Conversas com Isaac Alonso Estraviz’ de Bernardo Penabade [PGL, 18 de dezembro de 2013]
