Caldo verde e brou gallec

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Por Fernando Vázquez Corredoira

Ainda continuo a ler e de quando em quando topo com passagens curiosas e por natureza tendo a reter aquelas que me parece prenderem-se ao nosso Caso.

A ler os Retrats de passaport de Josep Pla encontro uma semblança (palavra que acabo de introduzir na nossa língua) de Julio Camba, o celebrado jornalista e escritor galego em castelhano. Diz Pla:

Uma das cousas que lhe enchiam a vida era as suas longas estadas em Portugal. Portugal, país de restaurantes, hotéis e empregados de mesa galegos [ cambrers gallecs ]. Era um país de que gostava e era apreçado. Em Portugal falava sempre o galego. Comprazia-lhe porque esta foi a sua língua real.

É vantagem incontroversa dos leitores caóticos acharmos de vez em quando cousas como estas, que nos arregalam os sentidos: a sua língua real. Como a admiração é sentimento que busca ser partilhado, comunico a uma amiga o achado. Leio-lhe o excerto e diz-me que pouco importa o que Pla possa opinar da língua «real» ou «irreal» de Camba. O que o que importa é o que o próprio interessado tenha a dizer sobre o assunto. Terá razão, mas eu não deixo de me perguntar o que pretendia dar a entender Pla com a língua real. Ao primeiro olhar, a cousa parece logo clara: a língua que Camba não cultivou era a sua língua verdadeira e autêntica. A outra, a castelhana, a que cultivou ao longo duma carreira bem sucedida na imprensa espanhola, foi um simulacro, um arremedo.

Não me envergonha recordar aqui uma verdade histórica notória e trivial: os Galegos, para triunfarem no seu País – nas artes, nas ciências, nas letras e na política –, tiveram antes que triunfar em Madrid. Madrid é a instância consagradora. Verifica-se em qualquer biografia: todos ou quase todos os Galegos pimpões passaram e pousaram, em estadas mais ou menos longas, por Madrid.

O facto foi notado e repudiado pelo galeguismo. Escreve Antom Vilar Ponte:

Coidamos que si Vicente Risco, en troques de vivir n’Ourense, vivira en Madrí e traballara alô a mitade do que traballa hoxe seria un dos nomes d’intelectuaes que mais sonara. E non sô isto, senón que ô vir de vrañego [= veraneio] â sua terra, recibiría honores e agasallos á feito. (…) Pró como reside n’Ourense e olla pouco para Madrí, as cousas acontecen d’outro xeito. (Revista Nós, 1928)

O que, diga-se de passagem, constitui ilustrativa diferença entre nós outros e os Catalães. É claro que os Catalães eram obrigados a ir tratar de certos assuntos importantes à capital do reino. Viagens fugazes e concretas. Lá ir e de lá voltar. Eles, porém, recusaram-se de regra a aceitar que a capital espanhola lhes fosse o centro de consagração. Convém lembrar ainda que um Catalão normal nunca incorrerá no provincianismo de se deixar impressionar por uma «villa y corte» de questionável fulgor. Ao contrário, certo tom de discreta condescendência é de rigor. (Isto, é verdade, pode também dizer-se dos Galegos normais, mas desses há bem poucos!). O próprio Pla, que vivera em Barcelona e em Paris antes de visitar Madrid, exerceu nas suas crónicas jornalísticas de tema madrileno esse tão catalanesco tom de benevolente superioridade.

Quem ler Josep Pla descobrirá menções – curiosas quase todas, interessantes algumas – relativas à Galiza e a Portugal.

Quanto a Portugal, faço notar que é comum autores catalães surpreenderem-se de que Portugal exista e, sobretudo, de que exista tanto. Na verdade, tal surpresa não parece exclusiva da gente catalã. Confesso que eu mesmo – que não sou Catalão – muito me pasmei ao constatar já lá vai a existência real de Portugal. É cousa bem sabida, ademais, que a partir de dada altura a certos Galegos nos deu na gana de imaginarmos que da outra banda da raia existia qualquer cousa assim como uma «pátria sonhada» ou, dito de maneira talvez mais académica mas decerto menos apelativa, um «referente de integração». Os testemunhos estão longe de ser escassos e, com paciência, poderia fazer-se uma colectânea (ou mais uma) de galaicas efusões lusófilas.

De maneira que Portugal, afinal, existe mesmo.

Ligado à existência real e verdadeira de Portugal, advirto-vos que outra das surpresas dos Catalães é verificarem que os Portugueses liguem tão pouco para Espanha.

O célebre jornalista Gaziel conta-nos num capítulo de Portugal enfora (1960) uma cena deliciosa de que foi protagonista. O capítulo tem um título bem eloquente: «Entre Irmãos Antípodas». Convidado a um jantar com a elite portuguesa, o jornalista descobre logo com espanto um facto revelador:

Os onze Portugueses reunidos à volta da mesa, todos gente culta e viajada não sabem nadinha das cousas de Espanha…

Não desiste, porém, e uma e outra vez tenta puxar conversa evocando diversos temas espanhóis. Fracassa outras tantas vezes, diante de:

Uma indiferença engolidora tão profunda, que as minhas sugestões iam ao fundo e aí se perdiam instantaneamente – tal uma pedra lançada a um poço.

A conclusão é um tanto hiperbólica:

Numa palavra: falar-lhes de Espanha era falar-lhes da Lua. E ainda: por pouco que fossem dados à astronomia elementar, ter-lhes-ia interessado muito mais.

Este existir sólido, tangível e independente da nação portuguesa é por vezes motivo de certa inveja ou, antes, parece aguilhoar certa vontade de emulação. Porque eles sim e nós não? Parecem dizer-se alguns Catalães. O Valenciano Joan F. Mira é bem explícito a este respeito. As palavras derradeiras da sua Crítica de la nació pura (1984) apelam directamente à reflexão do leitor:

Pensem um bocadinho: porque os políticos e os intelectuais espanhóis nos acusam aos outros de querermos “levantar barreiras”, de pretender “isolar-nos”, “fechar-nos” no nosso âmbito menor, e outros pecados semelhantes? Porque a fronteira do estado marca para eles o âmbito de identidade suprema, porque consideram o nosso território parte do seu território, a nossa identidade parte da sua identidade, porque não podem entender que possamos ser outra cousa não incluída nem subordinada, por cousas assim. Aos Portugueses, não lhes fão estas acusações: têm direito a ser apenas Portugueses. Estão da outra parte da raia. Olham para eles como outro todo, não como parte. E quereria apenas que me olhassem como se fosse Português. Entranhável irmão ibérico, é desnecessário dizê-lo. Abertamente disposto a todos os intercâmbios e cooperações. Mas Português.

Tornando a Pla, é notável que um homem tão pouco dado aos entusiasmos, radicalmente incrédulo, se lance a elogiar com excesso certo as bondades gastronómicas do caldo verde. E é também por demais notável que o escritor estabeleça uma relação entre o caldo verde e o nosso caldo, o brou gallec.

Acrescentarei desde logo que estes simpáticos louvores e afinidades dos dous caldos atlânticos não conseguem temperar o embaraçoso incómodo que nos causa lermos na mesma obra uma apologia salarazenta – estranhas superstições monetaristas, terror visceral à desordem, maurrasianismo crónico, pessimismo antropológico, o próprio tom menor da ditadura portuguesa e a proverbial circunspecção do ditador de Santa Comba, tão congenial com a procurada falta de ênfase do escritor catalão… – enfim, tudo o que quiserdes e mais, mas é forçoso reconhecer que estas e outras saídas de tom tornam mui embaraçoso confessar que, a mim, Pla muito me agrada e diverte.

Direi ainda que, nos seus anos crepusculares, Josep Pla endureceu o seu casmurro conservantismo social e político, chegando ao delírio mais irresponsável. Creio que o pavor à revolução social acabou por lhe embotar a lucidez que Vázquez Montalván lhe atribuía. Nas suas Notes del Capvestrol o desvario é por vezes até cómico. A este propósito, talvez não seja ocioso recordar que em 1974 foi chimpado da revista Destino pelo novo proprietário da publicação, Jordi Pujol, o banqueiro, por defender num artigo o Estado Novo. O escritor dá a seguinte versão dos factos:

[Jordi Pujol] proibiu a publicação dum artigo meu sobre Portugal, que fez a revolução mais besta e ignara (sic!) da Europa no século que vivemos. Diante deste facto, tenho o prazer de vos comunicar que abandonei a revista com a máxima satisfação…

Nem é preciso ler o tal artigo para lhe cheirar o teor e o tom.

Na ingente obra de Pla, Julio Camba é um dos Galegos que assoma aqui e acolá. É tratado com consideração não isenta, cuido, de certa malícia amável, mui ao estilo de Pla.

Vou reunindo indícios para confirmar uma suspeita: para os Catalães, os Galegos acastelhanados, por mais triunfantes e pimpantes que sejam, são, no fundo, uma casta fracassada e infeliz.

O remate da citação que deu azo a este papel sugere-me que não vou errado:

Por toda a parte me deu a impressão do emigrado que subiu de grau.