As Fragas do Eume

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Por João Aveledo (*)

No Norte da Galiza, não longe do Golfo Ártabro dos romanos, achamos as Fragas do Eume, a floresta atlântica termófila mais importante da Europa, quer em extensão e diversidade, quer em estado de conservação. Declarado Parque Natural em 96, este espaço reúne uns valores naturais superiores a outras áreas florestadas da importância, por exemplo, do Parque Nacional Killarney na República do Eire ou do New Forest em Inglaterra.

São estas, paragens bravias e agrestes, de montanhas com cumes nus salpicados de imponentes penedos de quartzito, entre os quais pastam greis de póneis em liberdade. Montanhas que escondem nos seus profundos vales, obra do rio Eume e os seus afluentes, as fragas, frondosos e, por vezes, quase secretos bosques.

As Fragas do Eume são algo mais do que simples carvalheiras e soutos. Lugar de encontro entre os sectores corológicos galaico-português e galaico-asturiano, contam entre a sua flora com 23 espécies arbóreas, 250 espécies de líquenes, metade das espécies de musgos da Galiza, mais de uma centena de fungos, 21 espécies de fetos (conhecidos nas falas por «fieitos» ou «felgos»)… E entre estes, espécies relitas das laurisilvas (bosques de loureiros) do Terciário, quando o nosso país desfrutava de um clima subtropical. Espécies como Culcita macrocarpa, Woodwardia radicans, Davalia canariensis… mais próprias, na actualidade, da Madeira ou das Canárias que do Norte da Península, e que aqui ainda se conservam, resguardadas por uma orografia particular que dá lugar a suaves microclimas.

A fauna das Fragas ultrapassa as cento e cinquenta espécies de vertebrados: açores, falcões, corços, veados, martas, gatosferos, lobos… Mas entre todas estas espécies podemos salientar uma pouco conhecida e especialmente singular, a salamandra-dourada (Chioglossa lusitanica), um anfíbio exclusivo das terras da velha Gallaecia.

Os Mosteiros de Monfero e Caaveiro, constituem as monumentais portas de entrada para este património natural único na Galiza e na Europa. S. João de Caaveiro foi fundado por S. Rosendo em 934. Primeiro convento beneditino e depois agostinho, acha-se situado no coração mesmo da fraga, na qual se integra perfeitamente. Santa Maria de Monfero chegou a ser uma das mais importantes abadias do Císter na Galiza. As suas origens datam do século XII, se bem que os séculos XVII e XVIII fossem, arquitectonicamente, os do seu maior esplendor.

Durante a Idade Média possuiu uma das mais sobranceiras bibliotecas peninsulares e o seu fundo documental, agora espalhado, contou com importantes escritos redigidos em galego-português, entre os quais destacamos um documento notarial em que consta a primeira referência a um gaiteiro galego, Joám de Gestoso. A sua Igreja guarda, entre outros, o sepulcro de D. Nuno Freire d’Andrade «O Mau», conde protagonista da primeira Guerra Irmandinha (1431). A «eucaliptização» ameaça, apesar da sua declaração como Parque Natural, o seu futuro, o nosso futuro.

 


(*) Artigo publicado originalmente no n.º 30 do Novas da Galiza