Por Heitor Rodal Lopes
Acho que o recente episódio do ridículo toponímico protagonizado polo excmo. Conselheiro de Cultura da Xunta de Galicia que tanta polêmica gerou no nosso País, foi não obstante um magnífico exemplo de dous dos males que aqueixam a nossa Língua portuguesa na Galiza.
O primeiro é a constatação do desleixo e desnorteamento induzido polos poderes públicos, e nomeadamente polo Governo da Xunta, sobre a população lusófona, mas também hispanófona, a respeito da Língua própria e primeira Oficial do País. Desnorteamento que, dada a reiteração nos fatos, dá para pensar ser nesta altura mais propositado do que casual.
O segundo, e imediatamente ligado ao primeiro, é o desnorteamento ingénuo, o desleixo papaleisão e até mesmo culpado da oposição e de amplos setores autodenominados defensores da nossa Língua e dos direitos dos galegofalantes.
Estes últimos, derom em fazer um grande escândalo polo fato de o Conselheiro ter lido diversos topónimos galegos, designadamente Touro (“Toro”) e Sobrado dos Monges (“Desván de los Monjes”) que legal e realmente, só possuem forma galega, traduzidos por ele para uma forma em espanhol inexistente, numa nota de imprensa oferecida na capital do Reino para um público presumivelmente na sua maioria castelhanófono.
Bom, concordaremos com eles em que esse lapso denota no mínimo uma grande dose de indolência e desídia por parte do Conselheiro e dos seus assessores na revisão dos textos preparados polo seu departamento com a Língua própria do País antes da sua exposição pública, nada novo por outra parte, mas que neste caso tem paradoxalmente uma leitura positiva ao nosso ver: ainda há quem redija na Conselharia de Cultura da Xunta de Galicia os seus escritos em galego, mesmo seja na sua versão autonómica reduzida e destinados a serem traduzidos posteriormente para o espanhol.
Porém, a parte mais negativa do assunto para a nossa Língua, que a oposição lingüística e política não forom quem nem sequer de alviscar e denunciar consequentemente, por desconhecimento culpado com certeza, não foi a tradução dum texto, topónimos incluídos, para um público castelhanófono de Madrid, mas antes a incorreta tradução realizada, equiparando o “Sobrado” galego com o “Desván” castelhano, por umas ferramentas automáticas informatizadas usadas regularmente polos organismos, instituições e empresas de tradução, etc… envolvidos e encargados da sua correta fixação, promoção e defesa, o que nos dá uma boa imagem do estado atual de estrago e desfeita do galego na Galiza
Sobrado, como indica o dicionário Estraviz na sua segunda aceção, é o “primeiro piso de uma casa, imediato superior ao baixo. Andar alto da casa”, entanto que já só o faiado é o “desvão, a parte mais alta da casa, imediato ao telhado”.
O dicionário Priberam matiza e pormenoriza também na sua segunda aceção ser sobrado palabra de uso corrente no Brasil (não sabendo nós se será isto “galeguismo” no brasileiro ou “brasileirismo” no galego. Quiçá algum experto após sisudas pesquisas possa destrinçar ..), com o significado a seguir: “Andar de casa, propriamente andar com balcão ou varanda saliente”.
Isto é: Sobrado e Faiado-Desvão NÃO SÃO SINÓNIMOS, mesmo a casa tiver só dous andares.
Um certo e arroutado jornalista e entrevistador da Televisão Autonómica atreveu-se ainda a aprofundar no erro e deitar por terra o seu pretenso cosmopolitismo e “trilinguismo harmónicoanti-pailão” traduzindo ainda Sobrado dos Monges como “Desván de los Monjes” em castelhano e “Garret of the Monks” em inglês, num “polilingueirismo” ridículo, trapaceiro e sem sentido que falha pola própria base -o conhecimento da Língua própria e original- que não sabendo de onde sai e impossível saber para onde vai.
Digamos, para tão ilustres e pretensiosos poliglotas da caixa do queijo, que “Garret” pode ser traduzido em efeito para a nossa Língua como “Desvão” ou “Faiado”, entanto que “Sobrado” deveria ser traduzido como “Main Floor” nesse inglês que tanto arelam ou “Planta Noble” ou “Principal” nesse castelhano que tanto se gabam de falar … mal.
Por isso, ao meu ver, entendo que as desculpas do conselheiro e as críticas dirigidas a ele não deviam ter sido principalmente pola tradução, mas antes polo uso sistematizado e automático de ferramentas que deturpam, bastardeiam e convertem numa gíria instável, confusa e inservível a nossa Língua.
Fiquem sabendo ..
