Anúncio de uma outra Primavera… silenciosa

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Por João Aveledo (*)

Sulcam os céus as primeiras andorinhas e as flores cobrem salgueiros e mimosas. A Primavera já está aqui. Uma Primavera que nas últimas décadas vem adiantando progressivamente a sua chegada devido ao aquecimento global, consequência da intensificação do efeito de estufa. Foi em 1896, em plena Revolução Industrial, quando um químico sueco, Arrhenius, intuiu que a queima dos combustíveis fósseis haveria de provocar uma mudança climática. Mas esta subida das temperaturas não era contemplada como algo negativo por um escandinavo do século XIX. Pensava Arrhenius que ”por influência do percentual crescente de CO2 na atmosfera, temos esperança de desfrutar de épocas com climas melhores e mais estáveis, sobretudo nas regiões mais frias da Terra”.

Hoje, no entanto, parece existir um consenso quase geral na comunidade científica sobre os efeitos catastróficos do aquecimento do Planeta: aumento no nível dos oceanos por derretimento das calotas polares, desertificação, grandes incêndios, alterações graves nos ecossistemas, extinção de espécies… Os galos-do-monte (Tetrao urogallus) têm (ou tinham?) o seu limite de distribuição sul-ocidental na Galiza. Povoaram estas aves as serras dos Ancares, Courel, Pena Trevinca, Montes do Invernadeiro e Gerês. O seu desaparecimento progressivo deveu-se à caça indiscriminada e, assim, em finais do século XX só ficavam “pitas-do-monte”, como ali são conhecidas, na Serra dos Ancares. A propósito, que o nosso Presidente[1] se gabava, quando ministro, polos muitos que tinha caçado… Era a chamada caça em Primavera, aproveitando a época do canto dos machos, que, cegos e surdos na sua dança nupcial, se tornavam alvo fácil para as espingardas.

Em 1972, perante uma situação já crítica, é proibida a caça desta galinácea e a população começa a recuperar-se devagar até chegar a atingir em 1980 uns trinta machos nos Ancares Ocidentais (os administrativamente galegos). Depois, um gradual e nem fácil de explicar declínio leva a que em 1995 se registe pola última vez a cria e que os censos de 1998-2000 deem o triste resultado de só duas fêmeas e nenhum macho…Quais as causas últimas desta redução de exemplares que está a afectar toda a Cordilheira Cantábrica e os Pirineus? Furtivismo? Populações fracas e isoladas entre si? Abertura de pistas florestais? Afluência de turistas?…

Há quem opine que por detrás deste fenómeno está também a mudança climática. Tenhamos em conta que os galos-do-monte são uma espécie boreal, própria de ambientes frios, que o último período de glaciações nos deixou em herdança. Em 1962, a bióloga norte-americana Rachel Carson alertara-nos em Silent Spring, um dos livros que marcaram o século XX, sobre os efeitos adversos dos pesticidas. Será esta, a do CO2, uma outra Primavera silenciosa?

 


(*) Artigo publicado originalmente no n.º 28 do Novas da Galiza

[1] O artigo publicou-se originariamente em 2005, governando ainda Manuel Fraga.