Antela in memoriam

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Por João Aveledo (*)

Faz agora cinquenta anos, o governo do general Franco cognseguia dessecar a Lagoa de Antela, uma complexa obra de engenharia na qual muitos fracassaram ao longo da história, deles o primeiro foi Adriano, o imperador, lá no século II.

Situada numa depressão originada polo afundamento de blocos tectónicos durante o Terciário, na bacia superior do rio Lima, Antela constituía um imenso lago com cerca de sete quilómetros de comprimento e seis de largura. As motivações que levaram à sua drenagem foram o aproveitamento agrícola e o saneamento do terreno, num tempo em que pântanos e, em geral, zonas húmidas se associavam com mosquitos e paludismo.

Mas, longe desta visão de águas infectas, a lagoa era um paraíso da biodiversidade. Um paraíso “onde os patos nublavam o sol” no dizer dos mais velhos. Após a dessecação, muitas foram as espécies animais que desapareceram de Antela: os abetouros (Botaurus stellaris), as frisadas (Anas strepera), os grous (Grus grus), os gatos-bravos (Felis sylvestris), as martas (Martes martes)… e muitas, muitas mais ainda, as que diminuiram drasticamente o seu número. Botanicamente luxuriosa, podiam-se diferenciar várias comunidades vegetais na lagoa e a sua área de influência: as plantas aquáticas, as veigas, as matas ribeirinhas, as carvalheiras, os pastos, as leiras…. Hoje tanta biodiversidade ficou reduzida a uma monótona planície dedicada, principalmente, à cultura da batata.

Para completar a catástrofe ambiental, em 93, chegou a concentração parcelar à comarca. Sob a maquinaria pesada sucumbiu uma superfície de 30.000 hectares, que foi perfeitamente “uniformizada e homogeneizada” a esquadro e tira-linhas… carvalheiras centenárias incluídas.

Para além dos seus extraordinários valores ecológicos, Antela era também uma cultura surgida em torno às águas: modos de vida, tradições e costumes, cantos, lendas e um vastíssimo património histórico. Já desde tempos primitivos o ser humano se sentira atraído pola riqueza natural que representava a lagoa, como o provam os vestígios de povoamentos palafíticos. Da abundância de restos arqueológicos fala o próprio nome de Antela, diminutivo de anta, monumento megalítico. Mesmo, um menir, a Pedra Alta, o menir mais alto da Europa, dominava a lagoa.

A beleza do Lima fez com que os romanos o identificassem com o mitológico Lethes, o rio do esquecimento, águas que apagavam a memória de quem as transpusesse, aquelas que, arriscadamente, Decius Junus Brutus atravessou comandando as legiões romanas que civilizaram a Gallaecia. Agora, na “civilizada” Antela apenas umas poucas poças, resultado de explorações areeiras abandonadas, lembram o esplendor das “águas mansas” que foram, das esquecidas águas do Lethes.

 

Pola ponte da Lagoa
trinta e cinco xastres vão
as mãos carregadas de fouces
para matar uma rã

 


(*) Artigo publicado originalmente no n.º 76 do Novas da Galiza (março-abril de 2009)