Alberto Paz Félix: “O reintegracionismo tem novas estratégias que oferecer à cultura galega”



img_20211008_174553973_hdrDepois da nossa conversa por ocasião da disponibilização no repositório da UDC do seu trabalho fim de Grau (TFG) sobre a poesia publicada na revista Agália, entrevistamos novamente Alberto Paz Félix agora em relação com o Trabalho Fim de Mestrado (TFM) intitulado “Rede institucional do reintegracionismo: estrutura, agentes, programas e estratégias (2008-2019)”, já acessível também para consulta de descarga nesse repositório institucional da Universidade da Corunha.

No seu novo trabalho académico, Alberto Paz Félix descreve e analisa a rede institucional do reintegracionismo entre 2008 e 2019.
Através do estudo da estrutura, agentes, programas e estratégias das entidades alegadamente reintegracionistas, o investigador da UdC apresenta uma rede relativamente diversificada e autónoma, com presença em vários campos culturais e margem para a sua extensão, coesão e organização interna.

Após concluíres o teu Grau em Galego e Português: Estudos Linguísticos e Literários com o TFG “Repertórios e Canonização da Poesia Galega publicada na Revista Agália (1985-2009)”, pões fim ao teu Mestrado em Literatura, Cultura e Diversidade também na UDC com um TFM em que descreves e analisas a rede institucional reintegracionista. Conta-nos por que decides cursar esse mestrado e por que escolhes analisar no teu trabalho final a estrutura, agentes e estratégias das entidades reintegracionistas no período 2008-2019?

Quando acabei o Grau em Galego-Português, tinha dois possíveis rumos em que estava interessado. Tinha claro que queria continuar os meus estudos, mas tinha tanto a possibilidade de continuá-los pelo ramo de ensino de línguas, com vários professores e professoras a me recomendar prosseguir os meus estudos em Portugal com o fim último de me apresentar a dar aulas de português, e por outro lado estava a ideia de seguir a investigação que fizera no âmbito literário estudando primeiro o Mestrado em Literatura, Cultura e Diversidade e depois fazendo o Doutoramento em Estudos Literários, ambos ofertados pela Universidade da Corunha (UDC). Ao final decidi optar pelo segundo rumo, se bem ainda não fechei completamente a primeira porta, já que talvez é o que oferece melhores oportunidades laborais.

Para o TFM que elaboramos no curso 2019/2020 decidi optar a uma co-direção com os professores Roberto Samartim e Isaac Lourido. O tema já fora escolhido previamente à nossa primeira reunião de trabalho, com pleno consenso de que o objeto de estudo ia ser o reintegracionismo, se bem havia dúvidas sobre se devíamos focar a nossa investigação num campo em concreto (o literário, por exemplo) ou se tentaríamos analisar o conjunto da rede institucional mas focando a análise numa série de campos determinados (neste caso, o cultural e o literário). Ao final decidimo-nos por esta segunda opção.

No teu trabalho organizas a rede institucional reintegracionista em volta de três associações às quais atribues uma relativa centralidade no movimento (AGAL, AGLP e AEG). Em que reside essa relativa centralidade e quais são os elementos comuns ou diferenciais entre elas?

No trabalho utilizamos dois critérios para assinalar a centralidade. Em primeiro lugar, consideramos que estas três instituições, a Associaçom Galega da Língua (AGAL), a Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP) e a Associaçom de Estudos Galegos (AEG) são instituições normativizadoras que elaboram e socializam três variedades (formais e ideológicas) reintegracionistas. Assim, a AGLP socializa na Galiza o Acordo Ortográfico para a língua portuguesa, a AEG continua a apostar pela promoção da conhecida como Norma AGAL e a própria AGAL concilia desde 2015 as duas orientações anteriores numa única norma de caráter mais descritivo. Portanto, ao definirem e implementarem as suas normas, estas instituições dotam de ferramentas e impactam nas ações do resto da rede.

Depois, fizemos um estudo onde analisamos o número de relações de pertença de cada agente às instituições reintegracionistas, e olhamos em que instituições fizeram parte. Os resultados foram que duas instituições, a AGAL e a AGLP, acumulam a grande maioria dos agentes que pertenceram a três instituições ou mais. A AGAL é também a instituição reintegracionista com maior número de associados e associadas, chegando aos 480 em junho de 2020. Além disto, consideramos que as relações entre estas duas instituições são mais intensas do que com a AEG, com a que a AGAL perde grande parte dos vínculos de agentes a partir da criação da primeira associação em 2016, abandonando alguns agentes vinculados a AEG os seus postos nos grupos de trabalho da AGAL. Assim, observamos agentes em comum que participam tanto de órgãos de trabalho da AGAL e da AGLP no mesmo período temporal, o qual não sucede com a AEG.

A AGAL é também a instituição reintegracionista com maior número de associados e associadas, chegando aos 480 em junho de 2020.
Por outra parte, existem convergências e divergências apreciáveis entre as três instituições. As três têm como programa principal regular e procurar a promoção e socialização (nalguns casos também de reconhecimento legal) duma norma convergente com o português, mas entre elas há algumas divergências a respeito da norma em questão. Em primeiro lugar, a AGAL continua a ter uma posição ecuménica, definindo-se como “casa comum” do reintegracionismo, onde posturas diversas e mesmo confrontadas podem partilhar um mesmo espaço, opinar num meio de comunicação comum (o PGL) e publicar numa editorial (Através Editora). Esta postura tem sido reforçada com a reconfiguração normativa de 2015, da mão da candidatura “Polo Novo Consenso” encabeçada por Eduardo Sanches Maragoto, e a criação duma norma descritiva que permitisse a colaboração de agentes vinculados às duas “tradições” anteriores. Assim, a AGAL foi-se reafirmando como a instituição reintegracionista mais abrangente. Por outra parte, a AGLP é o resultado da reestruturação estratégica daqueles agentes que pertencem ao eixo luso-reintegracionista, historicamente organizados arredor da Associação de Amizade Galiza-Portugal (AAG-P), com o objetivo de criar uma Academia focada no campo linguístico, proposta anunciada em anos anteriores por José Martinho Montero Santalha. Nestes últimos anos, a AGLP tem promovido o Acordo Ortográfico na Galiza e também tem realizado uma importante função de diplomacia cultural através de parcerias com instituições lusófonas, entrando na Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) em 2017 com o estatuto de “Observador Consultivo”. Finalmente, a AEG, criada em 2016, está focada em continuar a promover a norma AGAL anterior à reforma de 2015, sustentando uma posição crítica com a convergência normativa realizada pela AGAL esse mesmo ano. Esta instituição tem uma elevada produtividade, com várias edições, algumas de elaboração própria e outras continuadoras do lavor desenvolvido pela Comissom Lingüística da AGAL, e a criação duma publicação própria, mas a sua capacidade de ação é limitada por ter um número reduzido de agentes em comparação com as outras duas.
Nestes últimos anos, a AGLP tem promovido o Acordo Ortográfico na Galiza e também tem realizado uma importante função de diplomacia cultural através de parcerias com instituições lusófonas, entrando na Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) em 2017 com o estatuto de “Observador Consultivo”.

Quais são as principais características da Rede Reintegracionista que fixas e analisas? Em que campos tem atividade? Quais as suas principais ações e estratégias? Que lugar ocupa e como se relaciona esta Rede com o resto do sistema cultural galego?

No trabalho analisamos um total de 24 instituições, as quais foram localizadas em dois eixos estratégicos, o “reintegracionismo” e o “luso-reintegracionismo”, distinguidos por uma série de divergências programáticas e estratégias: o “reintegracionismo” procura a configuração duma norma autónoma convergente com o português e que dependa do trabalho de instituições galegas, enquanto o “luso-reintegracionismo” trabalha cara a incorporação do galego na escrita maioritária no sistema linguístico português através do diálogo com instituições lusófonas não-galegas (maioritariamente, portuguesas). O Subsistema Reintegracionista, parte do Sistema Cultural Galego (SCG), está constituído por uma grande maioria de instituições sem ânimo de lucro (associações culturais [8], fundações [2], etc.) que subsistem bem de donativos bem dos capitais económicos obtidos das suas atividades, sem apenas relações com instituições privadas (empresas ou fundações culturais ligadas a estas) e com difícil acesso a subvenções públicas.

No trabalho analisamos um total de 24 instituições, as quais foram localizadas em dois eixos estratégicos, o “reintegracionismo” e o “luso-reintegracionismo”, distinguidos por uma série de divergências programáticas e estratégias.

Isto caracteriza a atividade de grande parte da rede reintegracionista: por um lado, os meios limitados impedem a realização de estratégias que precisem de amplo investimento logístico (há exceções, como o caso das Escolas Semente, que conseguiram suporte económico graças a campanhas de doações), mas, por outro, permitem atuar com autonomia. Outro elemento encontrado a respeito destas organizações é o facto de muitas delas preferirem modelos organizativos flexíveis, com entrada e saída constante de agentes (a Associação Cultural Minho-Média, por exemplo) ou a preferência por reconhecimentos de caráter coletivo, divulgando a sua composição interna mas sem fazer referência aos agentes individuais que fazem parte de cada grupo de trabalho (como exemplo deste caso as Escolas Semente). A segunda tipologia com maior produtividade dentro da rede, depois das associações culturais, são os partidos políticos (5), que têm alguma presença nos campos cultural e literário através da edição de livros ou revistas.

Os principais campos de atuação do reintegracionismo são o cultural, o literário, o normativizador, os meios de comunicação, o político e o educativo. Nos dois primeiros, o esforço tem sido focado na criação dum espaço que permita a participação de agentes reintegracionistas, que tradicionalmente têm sido excluídos do resto de instituições do SCG. Para termos um exemplo, temos o relato de Teresa Moure quem, numa entrevista que lhe fizeram no Diário Liberdade, comentava como ao trocar de norma as editoriais em que tinha publicado anteriormente, quando publicava em NOMIG, deixaram de trabalhar com ela.

Os principais campos de atuação do reintegracionismo são o cultural, o literário, o normativizador, os meios de comunicação, o político e o educativo.
Assim, o reintegracionismo teve a necessidade de configurar um espaço onde se trabalhe com normas convergentes com o português, o que levou à criação de editoriais e publicações próprias para a edição de obras tanto de ficção como de não-ficção. No campo normativizador já apontamos atrás que tem sucedido uma importante reconfiguração e novos posicionamentos na última década. Nos meios de comunicação e no campo político observamos uma série de instituições inter-relacionadas que desde o início deste milénio contribuíram para o projeto independentista na Galiza, sendo a grande maioria delas comunistas,  muitas organizadas durante vários anos na egonet arredor de Nós-Unidade Popular. Porém, observamos a criação nestes últimos anos de partidos políticos com programas não necessariamente coincidentes com os do independentismo marxista, como são os casos do Partido da Terra (PT) e o Partido Nacional Galego (PNG), com atividade muito limitada ainda em relação com os parâmetros do conjunto da rede. Por último, o campo educativo não foi historicamente dos mais ativos, com algumas instituições a realizarem atos e eventos limitados, como foi o caso das diversas jornadas e eventos organizados pela Associação Sócio-Pedagógica Galego-Portuguesa ou os OPS promovidos pela AGAL em diversos centros educativos. Porém, nestes últimos anos o panorama mudou com a criação das Escolas Semente, abrindo a primeira em Compostela em 2011 e reproduzindo-se o mesmo modelo em diversas localidades galegas (atualmente em 5: Compostela, Corunha, Lugo, Trasancos e Vigo). A sua produtividade fez da Semente uma novidade não só dentro do reintegracionismo, mas dentro do SCG em geral, ao supor um modelo educativo inovador que permite, entre outras coisas, a imersão linguística em galego num contexto onde a educação tanto pública como privada na Galiza tem sido um agente desgaleguizador.
A sua produtividade fez da Semente uma novidade não só dentro do reintegracionismo, mas dentro do SCG em geral, ao supor um modelo educativo inovador que permite, entre outras coisas, a imersão linguística em galego num contexto onde a educação tanto pública como privada na Galiza tem sido um agente desgaleguizador.

Sobre a posição que ocupa o reintegracionismo no SCG, e as relações entre a Rede e o resto do Sistema, consideramos a primeira como um subsistema do segundo, pois, coletivamente, o reintegracionismo nunca procurou impugnar a existência do SCG nem a sua norma sistémica (quer dizer, o galego), mas no seu lugar procura uma mudança na natureza dos materiais que constituem esta última. Esta relação sofreu mudanças nestes últimos decénios. Por uma parte, a Rede Reintegracionista estabilizou e ampliou a sua presença nos campos já citados, apesar das dificuldades impostas e a falta de capitais. Enquanto às relações, estas têm aumentado desde 2014, ano de aprovação da Lei Valentim Paz Andrade, a partir da qual se têm desenvolvido eventos e parcerias, tanto de instituições galegas e portuguesas, tendo como exemplo as colaborações entre a Corporación Radio e Televisión de Galicia (CRTVG) e a Rádio e Televisão de Portugal (RTP) para a coprodução de seriais; como também (se bem ainda continuam a ser poucos e, maioritariamente, simbólicos) entre instituições reintegracionistas e não-reintegracionistas, como podemos ver na coedição da obra Bolcheviques 1917-2017 (2016) por Através Editora e Edicións Xerais de Galicia. Ainda assim, as relações centro/periferia continuam a ser conflituosas: as entrevistas realizadas a Víctor Freixanes, presidente da Real Academia Galega (RAG), deixam ver bem claro que, se bem está aberto a debates sobre a norma atual, esta é única (“os países serios teñen unha soa ortografía”) e não pode ser considerada de forma nenhuma parte do sistema linguístico português (“a língua galega é a língua galega, non é un dialecto de ninguén”).

Como valorizarias a relação entre os vários agentes que participam dessa rede institucional? Achas que existem suficientes elementos estruturais de coesão ou pensas que é possível, ou seria positivo, melhorar a colaboração nesse sentido? Se assim for, que ações sugeres para melhorar a organização interna e o impacto das ações da Rede Reintegracionista?

img_20211008_174705160_hdrA rede em muitos campos, como por exemplo o político, não é completamente coesa, mas desde o meu ponto de vista é algo positivo. É um traço de normalidade termos projetos culturais, políticos e sociais divergentes que só têm em comum o facto de procurarem a reintegração linguística galego-portuguesa e a socialização de normas convergentes com o português, instituições que por vezes têm programas que entram em conflito uns com os outros. Nem todas as instituições que participam no reintegracionismo têm como único programa o reintegracionismo em si. Ainda assim, no nosso caso temos o elemento a favor de ter uma instituição que está a funcionar em boa medida de “casa comum”, de lugar de reunião, a AGAL, o qual permite uma certa coesão ao redor dela. Se bem é verdade que esta posição de centralidade é questionada desde alguns espaços reintegracionistas, é inegável que continua a ser a ser a instituição reintegracionista com mais associados, aumentando desde 2015 até 2020 de 440 a 480 associados, período no que sucederam as duas reconfigurações estratégias da AGAL: a primeira a confluência normativa de 2015 e a segunda a proposta binormativista de 2019.

Uma proposta a levar em conta seria a criação duma federação de instituições reintegracionistas que serva tanto de nexo organizativo como também para juntar esforços em volta de projetos concretos ou de questões centrais onde não haja grandes divergência de opiniões, como, por apontar apenas um exemplo de campo de ação, acabar com a punição do reintegracionismo no campo literário,  fazendo pressão perante as instituições organizadoras de prémios literários em galego para que a participação de agentes seja independente da norma empregada. A organização da rede, e eventualmente a sua extensão, permitiria juntar energias ao mesmo tempo que também ajudaria a uma maior interconexão entre as instituições reintegracionistas locais, quer dizer, os centros sociais. Quanto a estes últimos, se bem no trabalho só analisamos os dois mais representativos (Fundaçom Artábria e a Gentalha do Pichel), encontramos na nossa investigação muitas semelhanças programáticas (promoção da cultura galega, soberanismo, anti-capitalismo) e estratégicas (cursos de formação, atos a favor da Memória Histórica, etc.) que apontam a que a criação duma instituição aglutinadora destes seria proveitosa enquanto que permitiria aos centros sociais desenvolverem estratégias a nível nacional, mas talvez seria preciso uma investigação mais profunda neste campo para podermos ter uma maior certeza pois é provável que outros centros não partilhem de estas convergências.

Uma proposta a levar em conta seria a criação duma federação de instituições reintegracionistas que serva tanto de nexo organizativo como também para juntar esforços em volta de projetos concretos ou de questões centrais onde não haja grandes divergência de opiniões, como, por apontar apenas um exemplo de campo de ação, acabar com a punição do reintegracionismo no campo literário,  fazendo pressão perante as instituições organizadoras de prémios literários em galego para que a participação de agentes seja independente da norma empregada.
O repto que o reintegracionismo vai afrontar nos seguintes anos, se continuar a AGAL a trabalhar na estratégia binormativista e consegue atrair outras instituições do subsistema a esta nova proposta, é tanto grande como complexo. Programas como a normalização duma norma convergente com o português e a sua entrada no sistema educativo e na administração, a criação dum mercado literário onde as diferentes normas para o galego possam conviver e a entrada desta norma “reintegracionista” no sistema educativo são objetivos bastante difíceis de obter, sobretudo tendo em conta o reduzido alcance do reintegracionismo na sociedade galega. O número de associados e associadas do reintegracionismo é pequeno: o número total de agentes individuais encontrado na nossa investigação é de 247, levando em conta que está a questão de várias das instituições não divulgarem os dados da composição individual dos seus grupos de trabalho. Também poderíamos afirmar que seguramente existem pessoas que se posicionam como reintegracionistas mas que não fazem parte de instituição reintegracionista nenhuma, eu mesmo conheço vários amigos e amigas que estão a favor da socialização duma norma convergente com o português mas não querem formar parte de nenhuma das instituição existentes atualmente na rede. Mas faltam inquéritos que permitam saber o alcance do discurso reintegracionista na sociedade galega, e mesmo podemos considerar que esta mesma falta de inquéritos sobre o reintegracionismo ou possíveis críticas à norma RAG/ILG como única norma-padrão para a língua galega dá a entender que a mudança do paradigma normativo do galego é um assunto que não é considerado de relevante na esfera pública galega.
Faltam inquéritos que permitam saber o alcance do discurso reintegracionista na sociedade galega, e mesmo podemos considerar que esta mesma falta de inquéritos sobre o reintegracionismo ou possíveis críticas à norma RAG/ILG como única norma-padrão para a língua galega dá a entender que a mudança do paradigma normativo do galego é um assunto que não é considerado de relevante na esfera pública galega.
A isto somamos o desinteresse pelo reintegracionismo no sistema político autonómico galego. Por uma parte, atualmente não há apenas partidos políticos que se posicionem como reintegracionistas, contando a dia de hoje só com duas posturas. Dum lado, a do independentismo, que continua em fase de reconfiguração estratégica, e, por outro, um novo projeto que ainda está a definir o seu programa arredor do Partido Nacional Galego (PNG). Por outra parte, podemos analisar as posturas atuais das principais forças políticas galegas nas entrevistas realizadas pelo PGL no ano 2020, onde coincidiram no mesmo ano o Día das Letras Galegas a Carvalho Calero e as Eleições Autonómicas Galegas onde se decidia a composição do Parlamento de Galicia para a XI legislatura. Nestas,  procurava-se posicionar aos agentes entrevistados sobre possíveis reorientações normativas do galego no geral e sobre o binormativismo em concreto. Dois candidatos, Pancho Casal (Marea Galeguista) e Antón Gómez-Reino (Galicia en Común), defenderam positivamente a reabertura do debate normativo na sociedade e mostravam-se abertos a uma mudança do marco normativo do galego, defendendo o primeiro o binormativismo e o reconhecimento legal de duas normas para a nossa língua. Quanto às duas forças estatais, Noa Díaz (PSdG) e a candidatura do PPdG (sem que se concretiza-se o agente individual que responde às questões), posicionam a RAG como única instituição com a capacidade de modificar o modelo normativo do galego, se bem a primeira destaca o caráter “enriquecedor” do debate normativo. Por último, na entrevista realizada a Ana Pontón (BNG), a entrevistada só comenta concisamente que o BNG não tem uma posição adotada a respeito do binormativismo e não faz nenhuma referência a possíveis mudanças do paradigma normativo. Olhando para os resultados destas mesmas eleições, as duas forças que defendiam positivamente uma mudança normativa do galego ficam fora do Parlamento enquanto os três partidos que configuram o aparato legislativo autonómico galego são, por uma parte, as forças estatais que apoiam sem receios à RAG como única instituição com autoridade normativa, e, por outra, o BNG que, até o de agora, se bem internamente permite a expressão dos seus agentes na norma que prefiram, semelha ter receios à hora de se posicionar sobre possíveis modificações da situação normativa. Em definitiva, penso eu que é bastante complicado, por não dizer próximo do impossível, que se realize nenhuma modificação da norma linguística do galego no curto prazo. No mínimo, não penso que avancemos muito no marco legal e político, não com este parlamento, e muito menos com esta Xunta. Com 19 anos eu escrevia o meu primeiro artigo no PGL, um texto bastante mal feito (em todos os aspetos) sobre a notícia da resolução da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) a favor da implantação do português como língua de trabalho na Organização das Nações Unidas (ONU), no qual mencionava que o presidente da Xunta de Galicia, Alberto Núñez Feijóo, “defendera” o reintegracionismo (em concreto a semelhança linguística entre galego e português) numa entrevista realizada em Intereconomía. Quero reconsiderar as minhas palavras. Se olharmos o conjunto de entrevistas realizadas no PGL a agentes pertencentes bem ao PPdG bem à Xunta, veremos que a administração encabeçada por Feijóo posiciona-se a favor da promoção de vínculos internacionais Galiza-Portugal (incluindo aspetos culturais e linguísticos, mas não só); indiferente em torno da norma ou normas linguísticas existentes para o galego e em contra de qualquer política que tenha como fim a recuperação e normalização do galego.Assim, devemos entender os nossos projetos, especialmente o da estratégia binormativista, no longo prazo. Ao mesmo tempo, se bem nesta altura parece-me que a opção binormativista é a mais conveniente devido à falta de alternativas práticas no marco social atual, ao estar a norma ILG/RAG suficientemente assentada na sociedade depois de quatro décadas de ensino e administração em galego, não devemos fechar-nos a outras opções estratégicas. Depois de tudo, esta estratégia depende não só de que o reintegracionismo legitime o centro, mas também de que o centro permita a entrada do reintegracionismo, e até agora a resposta dada pelas instituições centrais é, no mínimo, medíocre. Continuamos no risco de legitimarmos a norma ILG/RAG sem que isso suponha a entrada de normas convergentes com o português em âmbitos administrativos e educativos (a não ser como “língua estrangeira” nas EOI e no ensino secundário).

Continuamos no risco de legitimarmos a norma ILG/RAG sem que isso suponha a entrada de normas convergentes com o português em âmbitos administrativos e educativos (a não ser como “língua estrangeira” nas EOI e no ensino secundário).

Atualmente, precisamos de consolidar as posições já obtidas e começar a pensar na nossa introdução e organização em novos espaços. Seguimos numa situação de desigualdade, e os nossos capitais são reduzidos. Mas, com a suficiente planificação, é possível fazermos do reintegracionismo uma  alternativa razoável às políticas linguísticas atuais. No curto prazo, o que sim podemos fazer é investigar e também tentar diminuir a desigualdade de género existente no reintegracionismo, que também foi um dos aspetos encontrados na investigação. Olharmos se esta desigualdade também acontece e com maior/menor força no resto do SCG, e encontrarmos estratégias para tratá-la. É de extrema importância que, tendo em conta que somos um movimento de caráter voluntarista, todos os agentes sejam bem-vindos e que possam realizar as suas contribuições com a maior igualdade possível.

No curto prazo, o que sim podemos fazer é investigar e também tentar diminuir a desigualdade de género existente no reintegracionismo, que também foi um dos aspetos encontrados na investigação.

Para além da qualificação obtida, estás satisfeito com o trabalho realizado? Parece-che que um trabalho deste tipo tem alguma utilidade para a planificação estratégica do movimento reintegracionista em particular ou da cultura galega em geral? Também em geral, onde achas que reside a utilidade social duma investigação como a que estás a fazer desde a UDC?

Fico muito satisfeito tanto com o trabalho como com o apoio dos meus orientadores. Foram umas circunstâncias muito difíceis coletivamente pela quarentena resultada da pandemia global. Porém, não ignoramos que o trabalho deixou em aberto várias questões que ainda é preciso resolver. Já vários agentes que contatei para a investigação apontaram para elementos melhoráveis tanto na arrumação da informação como em vazios encontrados, que procuraremos corrigir tanto em possíveis reelaborações do trabalho original como em futuras investigações. Esperamos diminuir esta margem de erro na seguinte investigação empregando novas metodologias, como por exemplo reforçando a informação obtida dos agentes individuais participantes nas instituições através da realização de inquéritos e entrevistas.

Enquanto a termos de planificação, eu não dissocio a planificação do reintegracionismo com a da cultura galega. O subsistema reintegracionista forma parte do Sistema Cultural Galego, neste momento na sua periferia. Como parte da periferia, o reintegracionismo tem novas estratégias que oferecer à cultura galega. E o importante é que estas estratégias são inovadoras. A maioria delas não foram testadas anteriormente. O reintegracionismo tem o potencial de oferecer alternativas ao Sistema Cultural Galego no seu estado atual de crise: as percentagens de falantes continuam a cair constantemente e o galego está a caminho (se não chegou já) de ser por primeira vez na nossa história língua não só minorizada, mas minoritária.

O reintegracionismo tem o potencial de oferecer alternativas ao Sistema Cultural Galego no seu estado atual de crise: as percentagens de falantes continuam a cair constantemente e o galego está a caminho (se não chegou já) de ser por primeira vez na nossa história língua não só minorizada, mas minoritária.

Há dúvidas cada vez maiores sobre a sua supervivência, dado o avançado processo de dialetalização e substituição linguística, com cada vez menos falantes nas populações jovens e urbanas, as percentagens de falantes de galego como primeira língua continua a cair e não semelha que vaia parar num futuro próximo. Ao que é preciso somar um nível de interferência do castelhano que continua a aumentar. Números publicados há só uns meses começam a sugerir que um dos poucos dados positivos, o amplo conhecimento do galego na nossa sociedade, está em perigo ao haver notícias de que mais do que um terço dos alunos castelhano-falantes têm um nível baixo de competência linguística em galego. Este mesmo ano o mesmo Víctor Freixanes anunciava que “algo está a fallar” nas políticas linguísticas, como publicava o Nós Diario. Os dados que estamos a olhar, desde logo, não são nada otimistas. Portanto, analisar as estratégias empregadas pelo reintegracionismo não é só útil para o subsistema, mas para o conjunto do SCG, ou pelo menos assim o vejo eu. Nesta altura, onde é preciso procurar alternativas às políticas desenvolvidas nestes últimos decénios, podemos observar como o reintegracionismo, na periferia do sistema, elaborou propostas inovadoras que poderiam ser de ajuda no processo de normalização do galego. Como exemplo disto temos as Escolas Semente, que procuram a educação íntegra em galego estabelecendo centros educativos próprios; e Através Editora, que, entre as editoriais galegas incorporadas depois de 2003, é a décima por volume de produção, posto que alcançou graças a um modelo editorial inovador baseado no associacionismo, o voluntariado e a sustentabilidade.

Assim, a investigação ajuda-nos a compreender a Rede Reintegracionista que, no curto prazo, está num processo de expansão e diversificação. Vemos que nestes últimos anos se criaram novas instituições em âmbitos até a altura inexplorados, como são os casos da AGLP no âmbito normativo e da revista Caleidoscópica no campo artístico. Ainda assim, estas afirmações partem da realidade atual, num mundo em constante mudança: haveria que ver nos seguintes anos se a rede vai ser impactada pela crise económica antecipada como resultado da pandemia provocada pela COVID-19.

Na nossa última conversa dizias que ias continuar e alargar esta investigação sobre o reintegracionismo na tua Tese de Doutoramento. Para além deste empreendimento académico de fôlego, tens previsto divulgar no curto-meio prazo estes ou outros resultados das tuas pesquisas?

No curto prazo, vamos procurar a divulgação dos resultados parciais da investigação ao longo do doutorado. Isto é útil tanto em termos da própria investigação, ir publicando os resultados obtidos com as metodologias que empreguemos e olhando as receções que estas obtêm, como também para essa faceta de planificação cultural, que continua a ser um dos múltiplos usos deste trabalho: informar aos agentes envolvidos nas instituições culturais reintegracionistas (ou simplesmente galegas) sobre os resultados obtidos até o momento dos programas e estratégias que foram elaborados nestas últimas décadas. O ótimo seria publicar estes resultados parciais tanto em revistas científicas como também elaborar textos dum caráter mais divulgativo e menos académico para a sua publicação nos espaços da própria Rede, tanto nos atuais como naqueles que eventualmente possamos ainda vir a criar.


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  • ernestovazquezsouza

    Boa entrevista… e longa… muitos fios de análise aí para ler e debater com vagar.

    Muito interessante tudo, mas o dado que mais me dá nos olhos é :

    440 a 480 pessoas… na AGAL… e em conjunto tudo, no mais… bastante nas costas ou arredor de 247…

    bem que 247 gatos, quando menos já não são 4… 😉

    apertas

    • https://pglingua.org/index.php abanhos

      Desde os começos muitas pessoas tem passado (deve andar a cifra perto -arriba/abaixo- dos duas milhares) pela Agal, alguns deixaram o mundo, mas muitos deixaram a Agal por causas bem diversas. Houve membros da Comissom linguística que hoje seguem a RAG…isso não poucas vezes tem a ver com a repressão e coação do poder e o trabalho que te dá de comer. Muitos seguem a ser reintegrantes mas ao modo Freixeiro Mato, desde a norma “oficial” do governo regional da espanha.

      O que se chama decisões livres, são tão livres como a dos pais que lhe falam no castelhano aos filhos, sendo eles falantes habituais. As escolhas livres são rara avis, pouco menos escassas no mundo, como a decisão livre, de ao um nascer, escolher os pais,

    • Alberto Paz Félix

      Obrigado pelo comentário, Ernesto, mas acrescento um detalhe. O número “247” é o número de agentes individuais que registamos ao analisarmos as instituições reintegracionistas e os seus grupos de trabalho. Como já indiquei na entrevista, é um número que não é absoluto nem total.

      Só registamos relações de pertença, não de colaboração (por exemplo, os redatores e redatoras do PGL, ou os produtores e produtoras de Através), e só numas poucas instituições conseguimos uma listagem de agentes associados além das diretivas (um exemplo a AEG, que colocaram, penso que na sua própria página, a listagem de membros fundadores).

      Além disto, houve muitas instituições das que não obtivemos nenhum ou quase nenhum agente por vários motivos: por não querer publicitação individual, por terem direções flexíveis que trocam constantemente de cargos, por terem desaparecido sem deixar documentação na web, por serem de recente criação e ainda não divulgarem dados internos etc. Assim, não sabemos os agentes individuais das Escolas Semente, do movimento independentista (Nós-UP, AMI, Primeira Linha etc.) apenas temos alguns agentes que formaram parte das suas diretivas, e quase toda esta informação vem de notícias isoladas, encontradas em diversos meios de comunicação, relacionadas com greves, manifestações e processos judiciais, onde não se costuma falar demasiado da organização interna destas organizações.

      A isto poderia somar também outras variáveis (agentes que formam parte de grupos de trabalho anteriores a 2008, por exemplo), mas penso que se entendo do que estou falando. 247 não é o “conjunto de agentes reintegracionistas na Galiza”. É só o número de agentes que encontramos na informação à tivemos acesso, e que poderia ajudar a termos uma aproximação ao número de agentes que participam ativamente nos grupos de trabalho reintegracionistas. Não gostaria de falar nem tratar do número de 247 como se fosse a totalidade de pessoas associadas e/ou militantes do reintegracionismo.

  • Eduardo Maragoto

    Muito interessante, até para levar em conta nos seguintes passos a dar. Permite-me só atualizar a informaçom relativa às pessoas sócias em junho de 2021:

    489 só[email protected] (com quotas em dia). Este é o dado comparável com o que dás na entrevista.
    13 só[email protected] lusó[email protected] nom [email protected] (que durante o primeiro ano só pagam quota simbólica).
    51 [email protected] da AGAL (pessoas que já foram sócias mas que neste momento nom pagam quota por motivos económicos. Direito a voz sem voto)

    No total, portanto, penso que se pode dizer que há 552 pessoas vinculadas à AGAL de algum modo. Nom é espetacular, mas penso que é digno para um movimento minoritário, uma vez que começou, em 1981, com 86 só[email protected]

    • ernestovazquezsouza

      Homem… francamente, não é muito espetacular… Mas de certo é o que há. É muito importante saber. Não fazia ideia… acho que alhures tenho um cartão velho com nº de associado muito mais alto (um pouco suspeitoso)… mas sempre pensei que talvez era devido aos histórico, às altas e baixas…

      E, portanto, por aclarar… de 2020 a hoje, sem contar lusófonos e “amigos”… apenas entraram de novos sócios… 8?

      • Eduardo Maragoto

        Nom, entraram muitos mais, várias dezenas, mas igualmente houve dezenas de baixas. 9 é o resultado de subtrair as baixas às altas. O resultado é um número relativamente baixo, levando em conta que as baixas (quase todas por motivos económicos) som inevitáveis. Todos os anos mudam as circunstâncias económicas de uma percentagem de só[email protected] e é normal que se produzam. Por isso estamos [email protected] de irmos compensando isso anos após ano, até com uma ligeira crescida sustentada.

        • Arturo Novo

          Não entendo como pode haver tantas baixas por motivos económicos, sendo a quota tão pequena (30 euros). Segundo a minha informação, os de Omnium Cultural na Catalunha pagam entre 36 e 96 euros. Partindo disto, tenho pensando propor, se me é permitido, na próxima assembleia presencial um aumento da quota, voluntariamente, até os 90 euros para todos/as aqueles sócios/as que assim o consideremos. Estabelecer uma espécie de sócios protetores. O que não queira ou não possa fazer outra cousa, que continue a pagar unicamente os 30 euros. Eu pagarei gostosamente os 90 euros, embora seja eu o único.

        • ernestovazquezsouza

          Sim, claro na compensada… teria de ter escrito “ganhou” a AGAL 9 novos associados, no canto de “entraram”.

          Acho que (já que comentas) quase me interessam mais, e mais na tese do Alberto Paz, que peso como agentes tinham, essas dezenas de baixas?

          Eu não estaria satisfeito. E menos se tivesse dedicado a maior parte do tempo e das energias dos últimos anos em campanhas e propagandas destinadas a aumentar a presença do reintegracionismo, a abrir o espaço reintegracionista à sociedade e a captar massa social, associada e arredor.

          Por favor… “ligeira crescida sustentada”… motivos económicos… é um mal resultado; eu diria que são os efeitos de umas estratégias custosas e ousadas, que consome os recursos internos em publicidade para fora, sem resultados ou benefícios que a justifiquem.

          Mas, enfim, que lhe imos fazer… Sorte que a maior parte da massa reintegracionista veterana é militante, está muito curtida na vida associativista e sabe mirar para o bom… 😉

          saúde…

        • https://pglingua.org/index.php abanhos

          Tendes quantificado se se deram baixas pola aposta no binormativismo?.

          Houve um esforço de esclarecimento a quem se deu de baixa por isso?
          Isso não afectou a massa associativa, e levou a muitos a se associarem?

          • Eduardo Maragoto

            o binormativismo foi a principal via de entrada de associados na AGAL nos últimos anos.

          • ernestovazquezsouza

            Eduardo, isto haveria que o debater com dados de altas e baixas… Esta é a primeira vez em muitos anos que vejo qual é a massa social ativa na AGAL…

            E o resultado total (altas e baixas) a pouco que os dados sejam reais… dá uma leitira divergente…. esses 9 de compensação não parecem muito negócio… A sério…

          • https://pglingua.org/index.php abanhos

            Que alegria que fosse a terceira das questões que te fazia.

          • Eduardo Maragoto

            Caros amigos, tratamos isso em todas as assembleias, onde, para além de anunciar as altas, explicamos a razom de cada uma das baixas. Convido-vos a ir à seguinte. Quanto ao que ao Ernesto parece fraco negócio, eu opino o contrário, mas nom o levo a mal: atribuo essa opiniom à sua falta de experiência organizativa. Poucas associações culturais se podem gabar de ter crescidas continuadas, assembleia após assembleia, desde há muitos anos.

          • ernestovazquezsouza

            Ok, dacordo…

            Saúde

          • Alberto Paz Félix

            Bom dia a todos.

            Em primeiro lugar, muito obrigado pelos vossos comentários, e a Eduardo pelos números de imensa utilidade.

            Vejo que o foco dos comentários gira arredor das altas e baixas da AGAL nestes últimos anos. Gostaria em primeiro lugar de dizer que a análise do reintegracionismo é um tema bem mais complexo do que olhar para números. O número de associados e associadas é importante, pois implica uma melhor logística e mais capitais económicos, mas o foco deveria ser que trabalho realiza a instituição e para que o faz.

            Agora, para quem estiver interessado, as apresentações Prezi usadas nas assembleias da AGAL desde 2015 estão disponibilizadas publicamente no perfil de Eduardo: https://prezi.com/user/rriwwpnpl0ts/ . Anteriores só encontrei uma do Miguel R. Penas quando era presidente: https://prezi.com/qzv4fgwbr0q_/assembleia-da-agal-30-de-novembro-de-2013/

            Obviamente, Eduardo terá muita mais informação, mas o que tem a ver com número de associados, altas, baixas e motivos das baixas semelha estar registado em todos os anos, por se alguém lhe quiser botar uma olhada. Também estão os orçamentos anuais, também de imenso valor. Sobre o que comentava Arturo, semelha que em quase todos os anos (menos em 2016, pela confluência normativa, fundação da AEG, etc.) os principais motivos de baixa foram os económicos.

            Eu gostaria de ter tratado esta informação ao detalhe no TFM, mas o nosso objeto de estudo era a Rede Reintegracionista, não só a AGAL, e não tínhamos nem o tempo nem o espaço para tratar, processar e analisar toda a informação relativa à AGAL (que é muita e é a instituição da que temos mais informação, com diferença) sem que isto significasse diminuir o tempo e espaço dedicados a outras instituições. Ernesto chamava ao que realizei de “tese”, mas suponho que falará da investigação que estou a começar e que continuará os seguintes anos. O que foi apresentado foi um TFM, que se realizou no segundo quadrimestre do curso 2019/2020 e nas primeiras semanas de setembro, como se coloca no início da entrevista. O espaço e a forma tinham de cumprir uma série de normas (entre elas a da amplitude, que tivemos de fazer muitos esforços para o cumprir, pois nas primeiras elaborações superamos demasiado o espaço aconselhado) e o tempo era limitado, assim que não foi possível processar tudo. Assim, toda a informação que tirei dos prezis foi o número de associados de 2013 a 2019, que naquela altura eram a mais antiga e a mais recente às que tinha acesso, para assim fazer um cálculo simples sobre o aumento de associados e associadas no período. Mas, com os dados ao dispor, a menos que haja algum ano do que não se colocou, não deveria haver problema em criar alguma estatística, se for de interesse.

            Por último, por responder à pergunta de Ernesto relativa às baixas destes últimos anos e que peso tinham, toda a informação relativa aos grupos de trabalho da AGAL está colocada nos censos do Anexo I do TFM, páginas 87 a 92, por se isto lhe for de utilidade.

          • Eduardo Maragoto

            Por tirar o debate do frio âmbito dos números, acho que no trabalho está bem identificada e descrita a missom da confluência normativa e do binormativismo… e, em geral, também o contributo de outras linhas atuantes no reintegracionismo. Ficamos à espera de novos contributos.

          • ernestovazquezsouza

            Obrigado, muito interessante tudo… bem sei que essa peste de formalismos académicos e burocracias esmagam cada vez mais…

            Com “tese” referia-me à análise, do papel, do peso, da importância e circulação entre grupos de elementos concretos: como agentes, animadores, propagandistas, militantes, quadros…

      • José Luís Maceira

        Eu não sei bem a conclusão a que chega o trabalho do Alberto paz. Mas a minha é uma outra: desde a morte do Prof. Carvalho Calero, o ‘reintegracionismo’ fica órfão e entra num definhar constante, até o estado pré-agónico em que hoje se encontra. Ainda que pareça o contrário…

        • ernestovazquezsouza

          .
          Pois eu vejo outra cousa…

          Eu o que vejo é que há menos falantes menos galego aprendido apenas na oralidade… Agoniza o galego como língua da sociedade ou perde peso como língua da maioria da Sociedade galega…

          Agora, por outra banda, há mais utentes cultos de galego do que nunca, de várias gerações, hoje, que já foram total ou parcialmente escolarizados e com um domínio da língua superior ao das gerações anteriores, desde logo muitos mais dos que havia quando morreu Carvalho… e entre eles, portanto e por simples lógica, há bem mais reintegracionistas de prática e gentes favoráveis ao reintegracionismo do que nunca houve…

        • https://pglingua.org/index.php abanhos

          Acho que o reintegracionismo nunca teve o peso que tem agora, nem nunca houve tantos reintegracionistas, nem tanta prática escrita reintegrante. Neste momento é de facto comparável em não pouca medida a criação que se produz sob o guarda chuvas do poder regional, e em qualidade nem digamos.

          Vou-vos dizer algo bem curioso, quando a AGAL tinha mais de 800/880 associados 1984-1989, finais dos anos 80, nem um 20 por cento deles (tirandopor arriba) tinha pratica reintegrante alguma. Nos anos 80 houve um momento, quando as normas eram questionadas, com aquilo de mínimos do Bloco…, que muito pessoal do ensino entrou na AGAL, e achavam que a autonomia nem se ia consolidar e que ia vir a ruptura democrática e que ter um bilhete de identidade da Agal dava pontos.

          • Eduardo Maragoto

            Concordo com a análise, mas corrijo o dado. No ano 89, a AGAL chegou a inscrever o sócio 591, mas nom tinha esse número de associados, pois esse número nom contempla as baixas, que, como dizes, foram muitas ao longo dos 80. Eram as pessoas que estavam ou alguma vez chegaram a estar na AGAL.

  • Ângelo Cristóvão

    Interessante análise, que merece comentários positivos. E também sugestões sobre outra focagem complementar para explicar como chegamos até aqui. Contar só com os agentes nascidos na Galiza talvez não seja suficiente para explicar alguns acontecimentos e evoluções. Rerifo-me ao relacionamento internacional. Nestas últimas décadas houve personalidades portuguesas (e brasileiras em menor medida) que foram decisivas, ou que tiveram uma participação importante no reintegracionismo linguístico galego. Existe uma linha de pensamento e de atuação que liga Ernesto Guerra da Cal e João Malaca Casteleiro, por dar só dous nomes, com o Acordo Ortográfico, as Irmandades da Fala, e o relacionamento diplomático que se produziu. Acontecimentos que tiveram lugar principalmente no Rio de Janeiro e Lisboa, com efeitos na Galiza. Poderia dar-se outros nomes.

    • Alberto Paz Félix

      Bom dia, Ângelo.

      A investigação parte das instituições, não dos agentes individuais. Quer dizer, não é que excluamos agentes não-galegos da investigação, mas que as instituições que analisamos têm necessariamente que desenvolver as suas atividades na Galiza. Por que? Porque o reintegracionismo é um movimento galego, que tem por objetivo a socialização na Galiza de normas convergentes com o português. Como poderás ver no TFM e no texto da entrevista, utilizamos dois critérios na hora de delimitar a Rede Institucional Reintegracionista: que a sua atividade se desenvolva a nível nacional, que mencionem explicitamente o reintegracionismo nos seus programas e, por último, que utilizem normas convergentes com o português nas suas atividades (a estes acrescentamos um terceiro para restringirmos o número de instituições de âmbito local para analisar, devido às complicações de em questão de poucos meses rastrejar a localização e funcionamento de cada centro social criado na Galiza desde 2008). Ora bem, apliquemos estes critérios a, digamos, o Sistema Cultural Português, e nos encontraremos que colocar como reintegracionistas a qualquer instituição portuguesa que utilize a norma-padrão portuguesa nas suas atividades é, no mínimo, ridículo.

      Sobre a menção a agentes não-galegos, poderás comprovar nos censos do TFM que estes aparecem mencionados sempre que tenham vínculos de pertença a alguma instituição da Rede, como é o caso de Inocência Mata pela sua posição como Académica Correspondente da AGLP. Então, repito, esta investigação está focada na Rede Institucional Reintegracionista, sendo o nosso interesse saber como funciona esta: que programas configuram, que estratégias seguem para conseguir os seus objetivos e que agentes participam ativamente nelas. Assim, os agentes individuais só aparecem pelo trabalho exercido no funcionamento destas instituições, quer dizer, pela sua participação em grupos de trabalho, diretivas, etc.

      Dito isto, obrigado pelos teus comentários e já teremos tempo nesta investigação de vários anos para comentarmos em detalhe de que acontecimentos estas a falar e o rol que realizaram na configuração e funcionamento interno do reintegracionismo, ao mesmo tempo que podem esclarecer a complicada função de diplomacia cultural que exploramos só superficialmente no TFM.