Alberto Paz Félix: “Existe discriminação contra a produção poética em normas divergentes das NOMIG”



img_20210407_113818023_hdrAlberto Paz Félix, colaborador deste Portal, é estudante no Programa de Doutoramento em Estudos Literários da Universidade da Corunha (UDC) e atualmente está a estudar a periferia do Sistema Cultural Galego, focando-se no subsistema reintegracionista e as suas instituições.
Em setembro de 2020 rematou o Mestrado em Literatura, Cultura e Diversidade da Universidade da Corunha (UdC) com a defesa do Trabalho Fim de Mestrado (TFM) intitulado “Rede institucional do reintegracionismo: estrutura, agentes, programas e estratégias (2008-2019)”.
Em julho do ano anterior tinha-se graduado em Galego e Português: Estudos Linguísticos e Literários na mesma universidade com o Trabalho Fim de Grau (TFG) “Repertórios e Canonização da Poesia Galega publicada na Revista Agália (1985-2009)”, acessível já no repositório da instituição corunhesa.

Conversamos com ele agora em relaçom com o seu TFG e aguardamos a disponibilização pública da sua interessante tese de mestrado para falarmos outra vez com ele numha próxima entrevista.

Com este trabalho graduas-te em julho de 2019 na Universidade da Corunha em Galego e Português: Estudos linguísticos e literários, um grau este, conjunto em galego e português,único na Galiza. Conta-nos por que decides fazer estes estudos e por que escolhes analisar no teu trabalho final de graduação a produçom poética da Agália e a presença/ausência de poetas reintegracionistas na historiografia literária galega do período autonómico?

Quando sai do ensino secundário, tinha claro que queria estudar algum curso universitário da ramadas ciências sociais. Das opções que estava a estudar, escolhi o Grau em Galego-Português, por vários motivos, mas penso que o mais importante foi que desejava mudar de falante bilíngue (até esse momento só usava o galego com alguns familiares) a monolíngue, e este semelhava-me um bom jeito de dar o passo para adiante. Porém, como os dois primeiros anos eram em comum com outros estudantes de hispânicas e de inglês, talvez acabou sendo um reto mais grande do que eu pensava, mas ao final consegui-o. Ao início eu apenas tinha contacto com o reintegracionismo, foi através de professores como Cilha Lourenço Módia, Carlos Velasco Souto e Roberto Samartim que comecei a conhecer mais e no terceiro curso comecei a escrever os meus trabalhos em Acordo Ortográfico, com o visto bom e mesmo o apoio de muitos professores, entre eles (aparte dos já mencionados) Isaac Lourido Hermida, Xosé Manuel Sánchez Rei, Xosé Ramón Freixeiro Mato e, já depois no Mestrado em Literatura, Cultura e Diversidade, Cristina Martínez Tejero e Carlos Caetano Biscainho Fernandes.

Comecei a escrever os meus trabalhos em Acordo Ortográfico com o apoio do professorado da UDC: Cilha Lourenço Módia, Carlos Velasco Souto, Roberto Samartim, Isaac Lourido, Xosé Manuel Sánchez Rei, Xosé Ramón Freixeiro Mato, Cristina Martínez Tejero e Carlos Biscainho.

Quando chegou a hora de planificar o TFG, eu tinha duas coisas claras no plano prático: que fosse sobre literatura (a linguística nunca foi o meu forte) e que o diretor ou diretora tivesse alguma experiência no uso do Acordo Ortográfico em âmbitos académicos, já que eu ainda tinha pouca tradição no uso desta norma e precisava de conselho na correção linguística. No plano teórico, procurei pôr de primeiros na ordem de preferência aqueles professores ou professoras que trabalhassem na área de estudos na cultura. Ao final, de todos eles, escolhi a Roberto Samartim porque das linhas de trabalho ofertadas era a que mais me chamou a atenção. O tema em questão foi selecionado entre eu e Roberto, através dum processo de exposição e eliminação de ideias onde tínhamos múltiplas propostas sobre possíveis investigações acerca do sistema literário galego. De todos eles, este semelhou-nos o mais adequado para atingir os objetivos do TFG e ficando dentro dos limites permitidos para este tipo de trabalho.

No teu trabalho analisas toda a poesia publicada na revista Agália. Como está organizada a tua investigaçom, quais som as principais assuntos que estudas no TFG e que conclusons che parecem mais relevantes para entendermos tanto a produçom poética reintegracionista como, em geral, o funcionamento do sistema literário galego autonómico?
A investigação foi organizada, em termos básicos, em três partes: uma de levantamento e análise do corpus bibliográfico, onde observamos os agentes e critérios canonizadores das últimas décadas nos textos de historiografia literária; outra de análise de corpus poético, de atribuição de repertórios nas poesias publicadas na Agália; e, a última, consiste em juntarmos a informação obtida destas duas análises e, através dum processo de comparação, olharmos as convergências e divergências. Isto fez-se tanto com os agentes como com os repertórios poéticos. Assim, concluímos, em primeiro lugar, que não semelha haver apenas diferença nos repertórios atualizados pela poesia galega da época e pelos agentes reintegracionistas mas, em segundo lugar, comprovamos que os produtores reintegracionistas apresentam de média um número menor de citações do que aqueles agentes não considerados pela historiografia literária como reintegracionistas. Portanto, se juntas essas duas afirmações, a imagem faz-se mais nítida: os produtores reintegracionistas não aparecem nas historiografias literárias que tratam o período em foco (só encontramos citações em artigos ou análises mais reduzidas, aparecendo nos manuais de literatura dentro de listagens), mas isto não é provocado pelas temáticas tratadas, pelas formas poéticas utilizadas ou pela sua dificuldade no uso literário do galego: é, simplesmente, um resultado da norma que utilizam.

Não semelha haver apenas diferença nos repertórios atualizados pela poesia galega da época e pelos agentes reintegracionistas mas comprovamos que os produtores reintegracionistas apresentam de média um número menor de citações do que aqueles agentes não considerados pela historiografia literária como reintegracionistas.

Como valorizas que a poesia reintegracionista publicada na Agália durante as três décadas em foco nom atualize repertórios (temas, formas, ideias…) alternativos aos canonizados nos manuais e histórias da literatura galega que contemplam esse período? A exclusom de poetas reintegracionistas do cânone reduze-se a motivos de escolha de norma linguística ou existem outros elementos que devam ser levados em conta (como a ausência de poemários ou antologias poéticas reintegracionistas, por exemplo)?

Na minha opinião, o segundo é mais uma consequência do primeiro. Quer dizer, a ausência de poemários e antologias poéticas onde participem, maioritária ou minoritariamente, agentes reintegracionistas com textos em normas divergentes das NOMIG, deve-se à falta de vontade das editoriais galegas por fazer antologias ou poemários em que se incluam esses mesmos agentes. O facto de que as instituições reintegracionistas precisem de constituir editoriais de seu, como é o caso de Através Editora, para que os seus agentes possam publicar já é um indicativo dum conflito no sistema, que é, penso eu, o principal responsável dessa menor canonização. Ora bem, talvez possamos preencher esse défice produzindo antologias poéticas reintegracionistas para dar a conhecer às nossas vozes poéticas, mas desde o meu ponto de vista esse défice já é produzido pela própria discriminação linguística.

O facto de que as instituições reintegracionistas precisem de constituir editoriais de seu, como é o caso de Através Editora, para que os seus agentes possam publicar já é um indicativo dum conflito no sistema, que é, penso eu, o principal responsável dessa menor canonização.

Quais som os elementos comuns ou diferenciais entre o início e o fim do período em estudo? Há variaçom de agentes, temas, estilos, formas poéticas ou sucesso crítico entre a poesia reintegracionista publicada na Agália nos anos oitenta e a recolhida na revista no século XXI?
Há muitas características que mudam ao longo do período. Temos de entender que a poesia galega desde os anos 80 até inícios do século XXI sofre numerosas transformações, tanto nos agentes como nos repertórios que atualizam. Em questão de agentes, vemos grandes diferenças nos três grupos divididos por décadas. Nos 80 descobrimos que há uma grande participação por parte de agentes não-reintegracionistas mas que colaboram esporadicamente publicando na revista Agália. Estes são agentes que na bibliografia apareceram sem estar associados expressamente nem à Agália nem ao reintegracionismo, como Luísa Villalta ou Xosé María Álvarez Cáccamo. Estes participam junto com outros agentes que sim aparecem na bibliografia ligados diretamente ao reintegracionismo, como são os casos, por exemplo, de Carvalho Calero e de Guerra da Cal.
Porém, nos 90 este vínculo perde-se,desaparecendo a participação dos agentes não-reintegracionistas, seguramente devido à estabilização das NOMIG como modelo ortográfico. Nesta mesma década, é também significativo uma ausência quase total de textos de produtoras mulheres, o qual semelha divergir do indicado na historiografia literária, que atribui a que durante este decénio houve um predomínio significativo da poesia produzida por mulheres na poesia galega. Na primeira década do século XXI incrementam-se o número de textos e de agentes, publicando poesia na revista por vez primeira Concha Rousia, Mário Herrero Valeiro, Iolanda Rodrigues Aldrei, Sara Pino e Celso Álvarez Cáccamo, que aparecem junto a outros agentes que já publicaram em décadas anteriores, como por exemplo José Martinho Montero Santalha. Porém, apesar de que esta semelha ser a etapa mais diversa da revista, no que respeita a número tanto de textos como de agentes, apenas podemos afirmar nada a respeito do processo de canonização dos produtores devido à escassa bibliografia dedicada à análise da poesia galega neste período.

Na primeira década do século XXI incrementam-se o número de textos e de agentes, publicando poesia na revista por vez primeira Concha Rousia, Mário Herrero Valeiro, Iolanda Rodrigues Aldrei, Sara Pino e Celso Álvarez Cáccamo, que aparecem junto a outros agentes que já publicaram em décadas anteriores, como por exemplo José Martinho Montero Santalha.

Quanto aos repertórios, a imagem mostra uma grande diversidade de repertórios e as hierarquias entre eles mudam constantemente entre décadas, e talvez seja excessivo falarmos em detalhe aqui. Porém, sim que são observáveis características gerais que permitem, grosso modo, resumir a poesia publicada na Agália.

img_20210407_115250Em primeiro lugar, nos repertórios linguísticos, a língua empregada nos textos está muito cuidada, sem apenas castelhanismos e com pouca presença de formas dialetais. Nos repertórios estilísticos, vemos uma predominância do verso livre e da transgressão das formas poéticas clássicas, superando estes textos em número a aqueles que mantêm a estrutura tradicional do texto poético (rima, estrofes pautadas, etc.). Por último, nos repertórios temáticos, que são os mais variados, há bastante mudança entre decénios. Porém, no geral, os mais atualizados são os motivos naturais, o corpo humano, o amor, o passo do tempo, os motivos paisagísticos (o mais abundante, o mar) e a morte. Também cabe destacar que apenas encontramos textos que tratem temas próprios do reintegracionismo e que, no início da análise, podiam ser um motivo de divergência entre a poesia reintegracionista da Agália e o resto da poesia galega. Só há um único texto que faça referência ao conflito normativo, e outro mais no que aparece Portugal como referente de reintegração. Para quem estiver interessado em mais detalhes, o TFG está publicado no repositório da UDC.
Além disso, penso que o melhor seria publicar o trabalho, bem como introdução à edição integra ou a uma antologia da poesia galega publicada na Agália.

O teu TFG atingiu a máxima qualificação (matrícula de honra); para além disto, estás satisfeito com o trabalho realizado? Parece-che que um trabalho deste tipo pode servir, por exemplo, para a planificaçom da política editorial do reintegracionismo? Em geral, onde achas que reside a utilidade social dumha investigaçom como esta?

Eu considero que o trabalho conseguiu os seus fins, e fico feliz de que assim fosse. Porém, ainda são precisas várias alterações para a eventual publicação do trabalho num formato mais divulgativo. Assim, seriam precisas modificações que haveria que realizar na redação para reforçar aspetos de maior interesse para possíveis públicos-alvo, talvez a mais urgente seria uma revisão do processo de categorização e atribuição de repertórios para a redução da eventual margem de erro da análise. Quanto à utilidade do trabalho em questões de planificação editorial, este TFG revela uma discriminação existente contra a produção poética em normas divergentes das NOMIG e convergentes com o sistema linguístico português, permitindo que revisemos tal situação e olhemos, com os meios e materiais que temos, o que podemos fazer para reduzir tal discriminação. A sua utilidade social radica na visualização duma parte da produção poética galega das últimas décadas que não aparece nas historiografias literárias só pela norma na que foram escritas.

Continuache a estudar o reintegracionismo no teu TFM mas, quais som os teus projetos futuros, profissionais ou académicos? Tens previsto continuar com esta linha de investigaçom?
A minha ideia, atualmente, é cursar o Doutoramento em Estudos Literários, com a ajuda, espero, novamente dos professores Roberto Samartim e Isaac Lourido, quem já têm dirigido o meu TFM sobre a rede institucional do reintegracionismo de 2008 a 2019; com o objetivo de ampliar e melhorar os conteúdos já elaborados para o TFM para fazermos uma tese de doutoramento onde analisemos a estrutura, agentes, programas e estratégias da rede institucional reintegracionista desde1980, ano da criação da primeira organização, a Associação de Amizade Galiza-Portugal (AAG-P), até 2020, finalizando assim com a celebração do Día das Letras Galegas atribuído a Carvalho Calero.

 


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  • Mário J. Herrero Valeiro

    Parabéns pola entrevista, polo trabalho e por tornar academicamente visível a experiência vital desta pequena guerra. Espero ver publicado o trabalho em fetiche-papel, também conhecido como livro.

  • ernestovazquezsouza

    Fantástica entrevista e muita e boa análise a que se aponta aí…

  • https://www.facebook.com/antonio.gilhdez.1 António Gil Hdez

    Parabéns pelo trabalho!
    E permite alguma observação pertinente, que me atinge e também pode esclarecer alguma “coisinha”:
    A.- Após a direção da Agália por X/Joán/m Costa, fui eu o diretor, junto do Henrique Rabunh/ñal Corgo, ainda que não aparecemos como tais, mas um titular genérico cuja letra não lembro agora. Em várias Assembleias da Agal reclamei que constassem os nossos nomes, dado que estávamos a trabalhar como diretores da revista, mas foram petições desconsideradas pelo Conselho da Agal. Na realidade dirigimos 8 volumes, facilmente comprováveis, pelo jeito de ser organizada a secção informadora de atividades da Agal, entre outras, a denúncia da perseguição inspectoril contra Mário Alonso / Afonso Nozeda.
    B.- Se o autor ou qualquer outra pessoa quiser localizar a minha edição poética com o objetivo que for, esta acha-se no “Recanto das Letras” brasileiro e em academia.edu.
    De resto e de novo, parabéns e obrigado!

    • Alberto Paz Félix

      Bom dia António!

      Em primeiro lugar, muito obrigado pela atenção que lhe diste ao trabalho. Nos teus comentários trazes várias questões relativas a ele, respondo-as por apartados:

      A) Para questões de atribuição de autoria e de direção da revista seguimos os índices de Joel R. Gômez. Neles, a menos que este errado, apareces tu e Henrique Rabunhal no Conselho de Redaçom entre os números 13 (1988) e 27 (1991) no teu caso, e no de Rabunhal até o 61 (2000), mas não há nenhuma referência a que vocês tivessem nenhum cargo de direção da revista. Se estou a entender bem o que dizes e o problema é que vocês foram “de facto” os diretores da revista durante um período determinado mas esta função nunca foi reconhecida “de iure”, agora mesmo não sei muito bem como podemos solucionar este assunto. Em caso de que o trabalho acabe evoluindo a alguma publicação posterior (impressa, digital ou no formato que nos oferecer melhores opções), tentarei dar uma vista de olhos ao teu caso e veremos que se pode fazer.

      B) Obrigado pela informação! Para o trabalho nós usamos os números digitais completos, colocados na página web da Agália (https://agalia.net/) mas desconhecia que estavam os poemas por separado.

      C) Sim, comprovo que o teu nome é grafado “António” e assim aparece no censo que podes encontrar nos anexos, mas no meio do texto apareces duas vezes como “Antônio”. Isto foi uma errata pela minha parte, quer dizer, não é um erro original da Agália, onde apareces corretamente como “António”, fui eu à hora de escrever o trabalho. Mil desculpas, corrigirei em edições posteriores.

      Dito isto, muito obrigado pelas tuas indicações. Qualquer dúvida que tiveres com o trabalho, não duvides em comentar e/ou perguntar.

  • https://www.facebook.com/antonio.gilhdez.1 António Gil Hdez

    Ah, eu costumo escrever António, à portuguesa, e não Antônio, à brasileira. Obrigado!