A toleráncia da juventude



img-20200609-wa0021Hoje ganhei um prémio de poesia. Não é que for um grande mérito. A estas alturas da minha vida, não é cousa que me ajude para me afirmar ou des afirmar nas minhas convicções ou na crença em mim mesma. Se assim não tivesse acontecido já, tarde piara eu. Tempo tive abundo!

Mas o caso é que eu escrevo em reintegrado ou galego internacional e isso há algum tempo seria impensável (poder concursar). Patrocinado o ato polo jornal El Progresso de Lugo e mais pola Vice-presidência de Cultura da Deputação. Este último organismo em mãos do Bloque, é bastante aberto pelo que diz a respeito da normativa. Não faz perseguição dos dissidentes como o somos tantas de nós, e como aconteceria de ser o PP a governar o ente provincial. Entre o pessoal do Progreso é maioria a gente jovem. E, indubitavelmente, este sector é totalmente tolerante com a normativa. Por isso a minha poesia superou os atrancos e vincou para conseguir o segundo prémio da convocatória das Letras Galegas, primeira que fazia o nosso jornal Lugués.

Estes dias andam algumas pessoas a discutirem acerca da “pesadez” e do aborrecido de escutarem aos reintegracionistas e de ver escritos e murais pintados sobre as ideias linguísticas de Carvalho Calero, por lhe terem dedicado a este o dia das Letras Galegas. Eu vejo que estas pessoas são já idosas. Pertencem ao passado. Não digo que a gente nova escreva em galego internacional. Não. Eles apreenderam nas aulas de galego a norma da Xunta, ou de Galaxia, ou de Filgueira Valverde ou do ILG. de tantos velhos que já vão caducos. Muita desta juventude sai do instituto e, mesmo dos estudos universitários, sem saberem nada das lutas pola normativa nem do reintegracionismo, polo que deduzo que também pouco sabem de Carvalho Calero. Eu faço a reflexão de que é o próprio sistema educativo quem limita as capacidades das pessoas para serem livres pensadoras. Terem espírito crítico. Adquirirem pensamento alternativo e capacidade de dis sentir. O sistema tolhe a criatividade e não fomenta a investigação e a curiosidade que é a característica mais distintiva dos mamíferos e , nomeadamente, do Homo Sapiens. Mal vamos com uma universidade falta de criatividade e de curiosidade. Que não forma professorado capacitado para sair-se do rego. Do discurso oficial. Creio que terão que mudar seus paradigmas e seu quadro epistemológico. Para entrarem no século XXI como lhe compre a Universidade galega. Mesmo assim a gente nova tem mais abertura de critério que a geração anterior. Tenhamos pois esperança.

Vai logo a poesia que era o ponto de partida deste discurso.

Dedicado a minha Curmã Araceli Herrero Figueroa a quem muito boto em falta.

 

ODA Á (o) COROA

( Porque não gosto de Coroas quer virais quer das outras)

Conheço-te e tu não o sabes.

Sei de ti

ainda não te vendo.

Nem me assombras, nem me assustas

a mim não me metes medo.

Sei que andas polo ar perdido,

vagando entre fundos abismos

procurando

um porto em que agarrar

tuas gaçoupas de visgo.

Ancoradouro traidor

será aquele que te prenda

Andas a ajejar silente

no escuro com teus vácuos olhos

flutuando no ar aboiado

ou alastrando-te no solo.

Prendes-te no vento,

sorrateiro, dum espirro

e no cantar imprevisto

dum naquinho d’ alegre riso.

Mas eu conheço-te.

Não me enganas,

Somos velhos tu e mais eu.

Não tendo olhos encontras-me

não tendo olfato me tens

prendido nos meus sentidos

invades todo o meu ser.

Ancoradouro traidor

será aquele que te prenda

No decurso dos milénios

evoluímos no-los dous

eu levando-te comigo

traiçoeiro tu

penetras-te meu interior,

sem amor

sem compaixão.

Neste percurso vital

inevitáveis,

companheiros,

par-a-par na inspiração.

Adela Figueroa Panisse

Adela Figueroa Panisse

Adela Clorinda Figueroa Panisse é de Lugo (Galiza), fazedora de versos, observadora do mundo e cuidadora de amizades. Trabalhadora no ambientalismo e na criatividade da palavra. Foi professora e lutadora pela recuperação da dignidade da Galiza e, ainda, pela solidariedade entre os seres humanos e a sua reconciliação com a terra. Gosta de rir, cantar e de contar contos. Também de escutar histórias, de preferência ternas e de humor.
Adela Figueroa Panisse

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