Por João Aveledo (*)
Com a entrada do Outono, os nossos bosques orlam-se de ouros e ocres, misturados com verdes e cinzentos. As cores da outonada percorrem marinhas e montanhas e estão na lembrança das nossas retinas. Mas o Outono galego ainda oferece uma outra maravilha menos conhecida e não menos formidável, a migração das aves marinhas.
Muitas espécies de aves dirigem-se no Inverno para locais quentes, onde encontrarão bom clima e alimento. Na Primavera voltam ao ponto de partida para fazerem o ninho e se reproduzirem. Já o relatara, no século XV, o navegador português Gomes Eanes de Zurara na sua Crónica da Guiné «E a esta terra passam geralmente todas as aves que por certos tempos aparecem em este o nosso reino… e muitas há que por friura do Inverno se partem desta terra e vão buscar aquela, por causa da sua quentura…».
O nosso país possui um dos melhores observatórios de aves marinhas do mundo, o cabo da Estaca de Vares, lá onde o Atlântico começa a chamar-se Cantábrico, no ponto mais setentrional da Península Ibérica. Em 1933, o Governo da República declarava esta paragem Sítio Natural de Interesse Nacional. Mas seriam belgas e ingleses os que, na década de 50, descobririam a Estaca para a Ornitologia mundial. Repararam estes naturalistas, que as aves marinhas europeias haviam de passar na sua viagem migratória em frente à Estaca de Vares, pois a sua travessia discorre contornando as costas do continente e não excessivamente longe de terra firme.
Com efeito, desde fins do Verão e durante semanas, milhares de mascatos (Morus bassanus), pardelas (Puffinus spp.), corvos-marinhos (Phalacrocorax spp.), gaivotas (Larus spp.), mobelhas (Gavia spp.), negrolas (Melanitta spp.), araus (Uria aalge), moleiros (Stercorarius spp.), gaivinas (Sterna spp.), painhos (Hydrobatinae spp.) e exemplares de muitas outras espécies realizam a sua passagem frente às costas de Vares. Calcula-se o seu número em mais de 100.000 aves. Num único dia, só o número de mascatos (Morus bassanus) pode atingir os 20.000.
De todas estas espécies, talvez, os que primeiro dão nas vistas são, precisamente, os mascatos (Morus bassanus), que com os seus enormes corpos brancos se lançam em vertical sobre as ondas em espectaculares mergulhos, dignos de campeões olímpicos de trampolim.
Mas uma pequena ave branca de cauda galhada, a gaivina do Árctico (Sterna paradisea), é a que realiza a viagem mais longa, a que possui o recorde Guinness das aves migradoras. Esta andorinha-domar voa desde os seus locais de cria próximos ao Árctico até às costas do Antárctico, onde inverna, 35.000 Km. ida e volta. Para desfrutarmos desta beleza é conveniente uma óptica potente, telescópio melhor do que binóculos, e um bom guia de aves. Existe, desde há uns anos, uma estação ornitológica dependente da Conselharia do Meio Ambiente e que governa a Associação de Amigos da Estação Ornitológica da Estaca de Vares.
As instalações constam de uma casinha de pedra sobre o alcantil, que no rés-do-chão tem camas, cozinha e lareira para o alojamento dos e das visitantes, e no sobrado um miradoiro do qual se podem observar as aves.Porém, se isto fosse pouco, ainda existem umas outras variadas e poderosas razões que justificam a excursão a Vares.
Descendo polo alcantil, encontramos cinco moinhos de água, infelizmente hoje em estado de abandono, que constituem um conjunto etnográfico sem par na nossa terra. Não longe da Estação Ornitológica acha-se o farol de Vares. Tem planta octogonal, foi construído em 1859 e situa-se a 91 m. sobre o nível do mar. A sua escada interior foi fundida na Fábrica de Sargadelos. Próximo, também, achamos o Semáforo, umas antigas baterias militares agora reabilitadas para o turismo de habitação. Dali, podemos contemplar uma formosa vista panorâmica da Ria do Barqueiro e da Ilha Coelheira.
Durante a Guerra Fria, no ano 1962, os americanos construíram na Estaca uma base militar para o controlo aéreo. Encontra-se, e desta vez felizmente, abandonada. Num país como o nosso, que tanto gosta das estórias, não é estranho que a base ianque tenha a sua própria lenda, lenda evidentemente moderna, segundo a qual existiria debaixo da base um bünker para submarinos nucleares.
Mas a história militar de Vares remonta-se já à II Guerra mundial, pois no dia 10 de Novembro de 1943, aviões Wellington aliados afundavam nestas águas um submarino alemão U-966. O seu comandante, chamado Wolf, faleceu em 1978 e a sua última vontade foi que fossem espargidas as suas cinzas em Ponta Maeda, pequeno cabo situado à esquerda da Estaca.
Vares é uma pequena e pitoresca vila marinheira, com um cais de um valor arqueológico excepcional, pois o dique que protege o porto moderno é formado por ‘coídos’, grandes pedras erosionadas pelo mar, e data de fins da Idade do Bronze, século VII a.c., sendo a sua origem mais provável uma antiga colónia fenícia. Como vedes, sobejam motivos para conhecermos estas atraentes costas. Deixai que acabe expressando um desejo: Que Nunca Mais um Prestige ou um Mar Egeu ou um outro qualquer parecido nos tentem roubar o espectáculo da outonada das aves marinhas na Estaca de Vares. Assim seja.
(*) Artigo publicado originalmente no n.º 24 do Novas da Galiza
