A Galiza Natural

Partilhar

Por João Aveledo (*)

Das ribeiras do Návia às do Douro, da Costa da Morte aos Montes de Leão estende-se, por cima de artificiosas fronteiras administrativas (a Natureza não entende dessas coisas), um variado território de características naturais peculiares.

Um país atlântico, mas penetrado de influências mediterrânicas, influências estas mais patentes quanto mais a Sul e quanto mais a Leste, influências que sobem pelo litoral (chegando mesmo à vila dos Andrade na foz do Eume, onde ainda achamos um sobral autóctone na praia de Cabanas), influências que avançam polos vales dos grandes rios (Douro, Límia, Tâmega, Minho, Sil, Ulha…).

Terras mornas e húmidas, temperadas por uma corrente oceânica cálida proveniente do Golfo de México. Terras em que as nuvens, que os ventos do Sul arrastam do mar carregadas de lentura, deixam abundantes chuvas. Terras, porém, de solos geralmente areosos, que conhecem quando as estiagens (nunca demasiado longas) dos rigores das secas e, mesmo, adentrando-se no seu interior, uma certa continentalidade. País velho e suavemente ondulado, dividido entre granitos e xistos, que por vezes guarda nos seus mais altos cumes relíquias de eras glaciais e, por vezes, em recônditas cales, lembranças de um passado subtropical (lá quando o Terciário) de rasgos macaronésicos (outra vez o Atlântico!), país pois que sabe das lagartixas-das-vranhas (Lacerta vivipara) ou das borboletas do género Erebia, moradoras das altas turfeiras do Gistral e dos Ancares, mas também de fetos, como o gigantesco Culcita macrocarpa ou o espectacular Woodwardia radicans, mais próprios hoje da Madeira ou das Canárias que das nortenhas fragas de Caaveiro e da Capelada.

Zona de transição, encontro da fauna e da flora das regiões euro-siberiana e mediterrânea. E zona também de passagem, pois pelas nossas costas transitam a prática totalidade das aves marinhas da Europa Ocidental invernantes em África, sendo a Estaca de Vares o segundo melhor observatório europeu destas aves. Nação de bosques antigos e legendários, a Devesa da Rogueira, as Matas do Jurês, as Fragas do Eume… Bosques caducifólios, climácicos, agora em luta com o colonizador vindo das antípodas, o eucaliptal invasor e aliado do lume, que tira as riquezas do solo para afinal beneficiar, como sempre, interesses
estranhos e estrangeiros.

Nação que se continua nas águas oceânicas, águas que no Aquém-Minho se adentram nos vales fluviais para formarem as rias, sendo as Rias Baixas um dos ecossistemas mais produtivos do mundo e isto graças a um afloramento de nutrientes arrastados por correntes submarinas do Golfo da Guiné.

Falamos do Maciço Galaico-Duriense, da Galiza Natural, de um território habitado por quioglossas (Chioglossa lusitanica), uma original e esquiva salamandra, lagartixas-de-Bocage (Podarcis bocagei), garranos galaicos (os nossos póneis autóctones) e outras muitas espécies ou raças únicas de animais, plantas ou fungos que evoluíram e se diferenciaram neste meio geográfico particular (os nossos endemismos).

Falamos, portanto, da nossa Mátria, do meio em que nos diferenciámos como povo (quem se atreve a duvidar do carácter determinante da paisagem e da orografia sobre a maneira de ser das colectividades?), do berço de uma idiossincrasia, de uma língua, de uma cultura, enfim, de uma forma de ver e entender a vida. A defesa da nossa identidade nacional passará também consequentemente pela defesa da nossa identidade natural, do meio que ocupamos, da sua geia, da sua flora, da sua fauna e, nomeadamente, de entre os seres vivos que fazem parte deste meio, pela defesa dos seus endemismos, símbolos preciosos e viventes da Galiza. A extinção de um deles (como p. ex. já aconteceu no século XIX com a subespécie galaica da cabra-fera, a Capra pyrenaica lusitanica) significa a perda de um incalculável património natural e aliás, para nós como galegas e galegos, a perda irremediável de um bocadinho da Nossa Terra Mãe.

 


(*) Artigo publicado originalmente no n.º 17 do Novas da Galiza