A diferença está debaixo da tona

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Por Valentim Fagim

É comum classificar-se os seres vivos ou já extintos em eras geológicas. Na Galiza pode-se fazer o mesmo com as cartas dos restaurantes, vejamos como.

A maioria das ementas estão em castelhano e pertencem à era mais antiga de nome aqui-como-em-Múrcia. Por vezes criam situações incómodas. É o que acontece quando pedimos pratos que não aparecem no texto como os já comuns pescada, lulas ou polvo. O empregado olha para nós com estranheza, a letra é a letra. Ora, é preciso reconhecer que, de entre as que estão em galego, há algumas que também não dão para pedir pescadas, lulas ou polvo. Estão enquadradas numa era também antiquada: não-quero-dar-nas-vistas. Carateriza-se por eliminar a maioria de termos que não são dedutíveis a partir do castelhano, o que nos pode condenar condenar aos petiscos e aperitivos: “queixo”, “chourizo”, ou “xamón”.

Há uma era mais avançada, estou-aqui-e-sou-diferente. Carateriza-se por nascer da vontade de língua e não se importar por dar nas vistas. Surge num processo similar àquele que levou aos autores e autoras do ressurgimento a criarem um modelo de língua parcialmente afastado das falas populares. Esta vontade é fundamental para jogar a sério mas, como se sabe, potência sem controlo não dá jeito. São precisos referentes sólidos para evitarmos a diferença pola diferença como se passa com Chiculates, Tonas e Patacas Fritidas.

Agora a leitora pensará, referentes sólidos? deve estar a falar do português do Brasil ou de Portugal. Sim e não, cara leitora, e desculpa que me apodere dos teus pensamentos, quem sabe o que estarias a pensar de certo? Temos essa fortuna, sim, variedades da nossa língua que são nacionais nos seus países mas nem sempre é preciso dar pulos assim. Reparemos no clássico “tona” quando usado no sentido de “natas”.

Se aguçamos o ouvido quando falamos com os nossos velhos ouviremos falar da tona da cebola ou da tona do mar. Afinal Tona acaba por ter o mesmo sentido que Superfície como se evidencia no seu uso jornalístico fora das nossas fronteiras: filme traz à tona debate sobre eutanásia.

Estou-aqui-e-sou-diferente representa uma fase evoluída nas ementas galegas e tem, sem dúvida, a nossa mais absoluta simpatia. Ora, quando procuremos debaixo da tona, subiremos mais um degrau que talvez seja o último: estou-aqui-e-sou. A diferença vem de raiz.

 

(*) Opiniom publicada originalmente no n.º 130 do Novas da Galiza.