2020 O ano de Dom Ricardo Carvalho Calero



carvalho-calero-a-surrirEscuto por toda parte: vaite vaite ano malfadado. E eu, malpocada penso que se vai o ano em que se dedicou o dia das letras galegas a Dom Ricardo. Depois de muito lutar por esta distinção que ele bem merecia, muitas de nós pensamos que tinha chegado a oportunidade de mostrar a grandeza deste vulto da cultura, da galega e da universal. Também, (inocentes) de divulgar as alternativas que a nossa língua tinha para ser grafada e normalizada. Outras das que, sorrateiramente foram impostas, do poder, polo Instituto de La lengua Gallega. Fui eu a que tive que escutar da boca do u primeiro Diretor, Constantino Garcia, a insolência e preponderância de que, sobre a normativa para a língua nada havia que discutir:
“Eu tenho o poder, e, desde o poder porei nos postos chaves, decisivos para a política linguística, a minha gente. O resto virá de seu. Dom Ricardo, como não tem o poder tem que discutir, participar em palestras, explicar e tentar convencer. Eu não tenho que participar em mesa redonda nenhuma, porque “Tenho o Poder”.

Esta conversa aconteceu a princípios da década de oitenta (1980), em que da academia se tentava chegar a um consenso com o Instituto de La Lengua Gallega,- recentemente inventado “do Poder” para contrabalançar a influência que a academia tinha sobre a fixação duma norma padrão-. Estando nesta última como académicos Dom Ricardo e outros como Jenaro Marinhas del Valle. Estes académicos promoviam uma norma etimológica para a nossa língua que, respeitando a sua história, a incorporasse ao elenco das línguas românicas como lhe corresponde por origem.
Quase 40 anos depois deste acontecimento, o número de utentes de galego desceu até estar agora num ponto de pôr em risco a sobrevivência do Galego na Galiza. É de toda a gente conhecido o facto de que a juventude não utiliza o galego como língua normal de expressão. Isto dito categoricamente. Conhecem a língua na sua maioria, mas na expressão normal da sua vida não a utilizam. A recente tese de Miguel Rodriguez Carnota mostra como os centros educativos são lugares de desgaleguização da nossa juventude. Necessitamos mudar a nossa estratégia se verdadeiramente nos interessa a nossa língua e a nossa cultura. Algo teremos que mudar.

A recente tese de Miguel Rodriguez Carnota mostra como os centros educativos são lugares de desgaleguização da nossa juventude. Necessitamos mudar a nossa estratégia se verdadeiramente nos interessa a nossa língua e a nossa cultura.

Cumpre quebrar o desconhecimento de que existe outra alternativa para a nossa língua que ser uma pobre sobrevivente dum cantinho noroeste da Europa.
Tenho escutado a bastante gente que nunca tinham ouvido falar da alternativa reintegracionista para a normalização do nosso idioma. Eu suponho que a dificuldade para dedicar as Letras Galegas a Dom Ricardo, esse era o grande temor de quem detém o poder na língua galega hoje: Ouvir outras opiniões, fazer acordar dúvidas, descobrir que nossa língua tem uma história riquíssima. Que já os devanceiros/as defenderam esta postura etimológica, que o hino galego que cantamos está escrito respeitando a raiz latina das palavras: O seu verdor cingido podia nos alumiar, as injurias avivar a nossa revolta, os Boos e generosos marcar o nosso caminho de independência do castelhano e a dignificação da nossa língua. Há quem diga que eliminar “g” e “j” da nossa ortografia é uma questão de aforro e de simplificação porque agora na fala já não se distingue entre a pronuncia dos sons que estas representam do representado pola “x”. Eu a isto responderia-lhe, que segundo isso, sobra o u do que, o “b” ou o “v” ( pronunciam-se igual), o h” de Hoxe, de “hola” ou de “herba” ou de “inhibición”. Evidentemente, seria diferenciarmo-nos  demasiado do Castellano, e isso poderia-nos confundir. Eu não compreendo como uma língua que pretende ser reconhecida universalmente pode escrever “ Xeoloxia” ou “Bioloxia” para que podamos pronunciar à galega e não à espanhola. Se tivermos o “G” e o “j” nunca teríamos que forçar a escrita de palavras como Laje, Feijoo, Janeiro etc escrevendo-as Laxe, Feixoo, Xaneiro  etc para podermo-las pronunciar corretamente e não à castelhana. Sempre se pronunciam corretamente à galega e já não há dúvida do seu som. Estas cousas teriam saído à palestra e nas aulas se pudéssemos falar intensamente de Carvalho Calero e a norma ortográfica que ele defendia. Mas aos poderes espúrios e ditatoriais vai bem o obscurantismo e incomodam muito as perguntas, as dúvidas, a curiosidade, o pensamento alternativo e a criatividade.

Eu não compreendo como uma língua que pretende ser reconhecida universalmente pode escrever “ Xeoloxia” ou “Bioloxia” para que podamos pronunciar à galega e não à espanhola. Se tivermos o “G” e o “j” nunca teríamos que forçar a escrita de palavras como Laje, Feijoo, Janeiro etc escrevendo-as Laxe, Feixoo, Xaneiro  etc para podermo-las pronunciar corretamente e não à castelhana.

A norma etimológica achega o galego ao português. Isto é lógico porque esta língua evoluiu independentemente do castelhano. O Português é hoje o galego que não pudo ser por não ser a Galiza um país independente de Castela. Manteríamos certas diferenças que poderíamos considerar variantes dialetais da mesma língua. Algumas das que eu gosto especialmente como o termo tão luguês de “Mádia Leva”, ou “rocho” ou estar acarom dos seres amados e aló dos que me ferem, ou tantas outras que eu me empenho em manter. Mas as linhas gerais da normativa seriam independentes da castelhana, cousa que agora não acontece em absoluto. E falaríamos de Galiza (galego) e não de Galicia (Castelhano). Seríamos nós.

Vaia embora 2020, um ano triste. Atacou a minha família com uma morte bem dolorosa, e atacou a possibilidade de fazer algo de luz sobre a figura de Ricardo Carvalho Calero. Salvaria isso a nossa língua do desastre em que está metida? Não sei, mas ajudaria a entender muitos dos nossos problemas como comunidade cultural histórica e geográfica. E facilitaria a aquisição duma norma linguística que hoje é utilizada por 300 milhões de pessoas no mundo. Trezentos milhões de pessoas que escrevem Laje, Feijão, ou Feijoo, e Janeiro.
Feliz 2021.

Adela Figueroa Panisse

Adela Figueroa Panisse

Adela Clorinda Figueroa Panisse é de Lugo (Galiza), fazedora de versos, observadora do mundo e cuidadora de amizades. Trabalhadora no ambientalismo e na criatividade da palavra. Foi professora e lutadora pela recuperação da dignidade da Galiza e, ainda, pela solidariedade entre os seres humanos e a sua reconciliação com a terra. Gosta de rir, cantar e de contar contos. Também de escutar histórias, de preferência ternas e de humor.
Adela Figueroa Panisse

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  • Ernesto Vazquez Souza

    Lamento a tua perda.

    Do resto, que dizer, senão que concordo imenso com tudo, com o sentimento de decepção e com as formas. Bom artigo e mensagem muito clara.

    Saúde

  • Arturo Novo

    Nem sequer no ano da sua homenagem se atrevem a confrontar abertamente as ideias reintegracionistas de Carvalho. Os argumentos do isolacionismo frente aos do reintegracionismo são tão fracos, que têm medo a ficar em evidência. Para nada fico surprendido, sempre intui que a cousa ía serem assim. Estão a fazer com Carvalho o mesmo que fizeram antes com Castelao: homenageam à pessoa, para depois ocultar ou apagar o seu ideário político. A este respeito, os reintegracionistas pecamos algo de inocentes.
    Magnífico artigo, Curra! Muito ânimo e o meu pêsame polo passamento desse ser querido teu.