TENTATIVAS

Vale do Pó, um enterro e um depósito de minhocas



A várzea padana que se estende polo vale do Pó entre os Apeninos e os Alpes até debruçar-se no Adriático é umha regiom privilegiada. A história demorou sempre por estas terras. A planície é formada por terras de aluviom arrastadas polo rio Pó que contribuem a fazer da regiom a mais rica e povoada da Itália. O Pó divide-se em Ferrara em cinco ramais principais e inúmeros canais que acabam tecendo um vasto delta, declarado, junto com Ferrara, Património da Humanidade. Os países do Piemonte, a Lombardia, o Véneto, e a Emília Romanha ocupam a prodigiosa planície. O gado, a fruta, as hortaliças, abundam por toda a parte. Nom faltam enguias, muito celebradas, no delta do Pó. Boa terra para viver, e para conviver.

Tivem ocasiom de visitar no fim do verao as cidades de Bolonha, Ferrara, Pádua e Ravena, que nom conhecia. Tentar descrever o seu esplendor urbano e artístico seria ingénua torpeza no que nom vou cair. Deixaremos este mundo com pesar por tantas Itálias que nunca chegaremos a conhecer.

Descrever o contemplado é tarefa despropositada, mas, como deixar de mencionar a Cappella degli Scrovegni de Pádua, pintada de arriba abaixo polo Giotto, ou a dos Bolognini, na basílica de Sam Petrónio de Bolonha, de Giovanni de Módena, ou o esplendor bizantino de Ravena ou as velhas Universidades com os seus teatros anatómicos, ou as praças e as igrejas? A beleza da Itália pode chegar a provocar o desfalecimento num observador sensível, como experimentou Stendhal.

Atravessamos Bolonha de anoitecida pola Via Ugo Bassi rumo à livraria Feltrinelli. Cruzamos de caminho com Romano Prodi que vai acompanhado de umha dona, talvez da sua esposa; vam sorrindo. De Prodi quero lembrar aquela opiniom: “Que se gosto de Roma? Si… bom, para viver nom, há ali demasiada política: nom se pode viver num mundo de obsessivos da política“. Diferençar voto e vita: umha autêntica liçom professore.

A Feltrinelli é a livraria que eu queria caustrar. Tentadora opulência em literatura italiana: romances, traduçons, obras de todo o tipo; notável presença de literatura francesa e alemã. Rebuscando cuidadosamente acho finalmente umha discreta secçom de espanhol num canto. Pouca cousa, algum romancista na moda e pouco mais. A longa presença do Real Colégio de Espanha, fundado polo cardeal Gil de Albornoz no século XIV, nom parece ter estimulado demasiado a leitura. Verifico o discreto interesse pola cultura hispano-americana da Feltrinelli. Comprovo-o também no almorço matutino do hotel quando passam as notícias da bolsa. A de Madrid, com o seu nomeado Ibex 35, nom aparece por nengures. Pouca presença do livro espanhol e nengumha, que eu veja, do português. Itália é um grande país com cabeça centro-europeia e pés sul-africanos; o seu Oriente e Ocidente parecem estar fora de foco.

Bolonha tem o seu pintor em Giorgio Morandi (1890-1964). Visitamos a discreta vivenda onde passou os últimos trinta anos da sua vida. Um pequeno apartamento com luz peneirada e vistas a um pequeno jardim. Foi deste recinto monacal de onde fôrom saindo as suas enigmáticas naturezas mortas de cor embaçada: vasos, púcaros, floreiros sem brilho. Foi em vida um ídolo da gente do cinema. Federico Fellini rendeu-lhe homenagem em La Dolce Vita, onde aparece pintura de Morandi.

Visitamos o MAMbo, o museu de arte moderna de Bolonha de logótipo tam energético e dançante. Queremos ver a coleçom Morandi como pequeno exercício de ascetismo contemplativo. De pronto batemos com um clamor proletário e vermelho: Enterro de Palmiro Togliatti [1], de Gutusso.

Renato Guttusso (1912-1987) é o Picasso siciliano do PCI, apaixonado como ele polo corpo feminino e o pincel. O Enterro desfralda o seu potente lenço de 340 x 440 centímetros para descrever o séquito mortuário imaginado de Palmiro Togliatti. O cadáver figura em primeiro plano rodeado de flores e de umha multidom variada e anacrónica onde podemos reconhecer Berlinguer, Gramsci, Lenine multiplicado, Ángela Davis, Sartre, Brezhnev, Pasionária… Às beiras, grupos de jovens militantes empoleirados em andaimes e edifícios saúdam punho em alto. Umha potente estampa celebratória da continuidade do projeto comunista.

Gostaria de poder reconhecer todas as personagens que o pintor desenhou com esmero no séquito sonhado e nom perdo a esperança. Nom desespero de poder sair de dúvidas algum dia com a erudita ajuda dos muito respeitados presidentes que se seguírom na RAG: dom Xosé Luís e dom Xesús, ambos marxistas convictos e eminentes eruditos. Ángelo Guerreiro, infelizmente, já nom está para ilustrar-me.

Antes de abandonarmos o MAMbo visito a loja do museu para manusear livros e reproduçons. Compro a lámina do enterro do Gutusso, fica bem em qualquer canto da casa, junto aos textos de Gramsci e Sacristán, por exemplo.

De repente, umha estante da loja prende a minha atençom, vejo um livro intitulado Minhocas [2]. Tal como ouvem, tinha que ser este vocábulo redondo e certo que nos acompanha desde a infância. Haverá em galego palavra mais resistente e conhecida?

Que Deus tenha na glória o mestre Houaiss que hesitava no seu dicionário sobre a origem deste vocábulo. Nom, dom António, nem origem africana nem americana, os tais oligoquetas cavadores, de colorido cinzento ou róseo, também conhecidos como bichoca e isca, som entre nós animal de companhia quase, e para pescadores e criancinhas um companheiro imprescindível.

Deveria eu tentar resumir agora a história do Minhocas, um menino brasileiro solitário que lhe cresciam minhocas dentro da cabeça quando lhe vinham medos e contratempos, mas bom, a história é demasiado aliciante e requer ser lida de princípio a fim. Haverá que animar a Ciranda para pedir alguns exemplares para geral contentamento de meninos fantasiosos.

As minhocas do vale do Pó confirmam sem qualquer dúvida o comportamento notavelmente expansivo, tanto dos anelídeos oligoquetas como do idioma que partilhamos. Que um galego deambulante encontre um ninho de minhocas brasileiras num museu do vale do Pó nom pode ser casualidade.

Notas a rodapé

  1. http://www.pasolini.net/cinema_uccellacci_imm_funeraliTogliatti.htm
  2. Luana Chnaiderman de Almeida, Deco Farkas (ilustrador): Minhocas, Cosac Naify, 2014, São Paulo.
Joám Lopes Facal

Joám Lopes Facal

Nascim e vivim na aldeia até os quinze anos, Toba, ao pé da ria de Corcubiom, frente ao Pindo. Figem-me economista despois de engenheiro e aí desenvolvim a minha atividade profissional até o momento de me reformar. A economia é ademais um vício particular: ler atentamente e tentar compreender a informaçom económica cotidiana, ter sempre sobre a mesa um livro de economia.
Joám Lopes Facal

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  • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

    ha ha ha! Não é casualidade, não. Elas mesmo chegaram-te para apagar saudades. Eu da Itália conheço pouco, apesar de poder mover-me por lá com certa autonomia linguística. Roma e o Friuli, que é perto da zona que descreves. Um pouco a costa noroeste também, Camogli e por ali. Motivos sempre guitarrísticos, com pouco tempo para livrarias e normalmente sozinha.

  • Ernesto V. Souza

    Será que andavas à minhoca… 😉

    P.s. Que beleza, pareces Otero Pedrayo…

    • Joám Lopes Facal

      É bom encontrarmos amigos virtuais e habituais. Ir atrás de umha guitarra requer toda a disciplina de um músico. O de Pedraio será, digo eu, polo da várzea padana. Até outra [email protected]