Por Joám Manuel Araújo
Entre as mais interessantes novidades literárias neste ano 2010 na Galiza estám a ediçom de dous livros de poesia: Cecais hai unha luz, de Manuel María, um poemário inédito, que data de 1979; e Tempo de elexía, de Uxío Novoneyra, a recuperaçom em audio, com publicaçom igualmente impressa, de um recital proferido em 1982. Dous produtos próximos na sua génese, pois, que partilham outros muitos elementos valiosos, que os fazem atractivos e merecedores de serem conhecidos.
1.-Cecais hai unha luz: um Manuel Maria “singular” num tempo político de mudança
Este poemário1 de Manuel María emerge agora no mercado galego inaugurando a “edición ou reedición de toda a sua obra” que se propom realizar a Fundaçom Manuel Maria de Estudos Galegos, e de que anuncia seis colecçons: Poesia, Narrativa, Teatro, Ensaio, Estudos sobre o autor e Miscelánea. O volume foi lançado em Compostela, no Museu do Povo Galego, com ensejo da constituiçom da associaçom Amigos de Manuel María, como apoio para a Fundaçom. Trata-se de um livro de ediçom sóbria e atractiva, realizada com muito gosto, combinando os textos com imagens e com fotografias.
As composiçons principiam com umha “Invocación” (pp. 10-12) e, na continuaçom, encontram-se seis poemas dedicados aos quatro elementos clássicos (Ar, Água, Fogo, Terra), e outros seis ao Amor, observando para cada caso umha numeraçom que vai de 1.1 a 1.6 até 5.1 a 5.6.
Camilo Gómez Torres, quem leva décadas dedicado ao estudo de Manuel María e tivo tratamento estreito com ele, justifica num “Prólogo” (pp. 3-7) a dataçom por volta de 1979, e esclarece as circunstáncias da elaboraçom dos 31 poemas que integram este belo volume. Entre os dados que oferece salienta como a primeira notícia da existência deste poemário foi na seqüência de umha entrevista jornalística publicada em 1 de Setembro de 1979; apresenta a temática do livro; assinala ter sido redigido “en pouco máis de sete ou oito días” após a participaçom do autor, na sua condiçom de candidato nacionalista, nas campanhas eleitorais para as cámaras do Senado e para as municipais, e pom em destaque como se trata de (p. 5) “un poemario singular na traxectoria poética de Manuel Maria, non só por lindar a fin dunha etapa e o comezo doutra, senón por anticipar unha ética e unha estética social e tamén poética galegas”. Frisa ainda este especialista2 a “preocupación formal e a riqueza estética” que caracterizam a sua anterior produçom e tenhem continuidade em Cecais hai unha luz.
Além do mais, o livro inclui seis epígrafes, que se encontram colocadas no início de cada umha das suas seis partes: de Rosalia de Castro (p. 8, precedendo a “Invocación” inicial), Manuel António (p. 12), Pero Meogo (p. 21), Ramón Cabanillas (p. 29), Eduardo Pondal (p. 38) e Fernando Esquio (p. 47). Quer dizer: dous nomes cimeiros da poesia medieval, dous do Ressurgimento e mais dous do século XX, o que é umha maneira de procurar propositadamente a comunicaçom entre esses três períodos das Letras Galegas.
Vale a pena também colocar em diálogo Cecais hai unha luz com um poemário posterior, publicado em 1984, do próprio Manuel María: A luz ressuscitada3. De repararmos nos títulos, parece que aquela luz que o autor lobrigava um lustro antes se fizera realidade. De facto, o conteúdo temático dos dous volumes parece mesmo complementar: nos dous o centro é Galiza, mas nos versos de 1979 existe um olhar sobre o próprio país aplicando umha perspectiva clássica, como som os quatro elementos que se sintetizariam no amor; enguanto em 1984 há um encontro mais directo com esse próprio país, com análise da sua história, arte e realidade, e igualmente com presença do amor.
Em Cecais hai unha luz, aliás, também se procura o relacionamento entre os quatro elementos: entre dous, entre três e entre os quatro. E o mesmo acontece em A Luz Ressuscitada. No livro editado pola Agal, em que se encontra umha muito interessante definiçom da poesia4, lemos umha composiçom que contém o título do livro, a intitulada “As origens”, que dize:
Um volta sempre às suas origens,
aos lugares nos que está enraizado,
ao seguro torrom da própria tribo,
ás sabidas conversas familiares,
aos velhos caminhos sem surpresas,
a escuitar a música do rio que
cruzou lentamente a nossa infáncia,
a sentir o som amigo das campanas
orvalhando soidades e lembranças.
E à alta maravilha de poder falar,
de jeito mais fondo e mais total,
coa luz que um amou, ressuscitada.
Neste volumen publicado pola Agal também está presente Saleta, a sua esposa. A estrutura é semelhante: principia com a composiçom dedicada à companheira amada, admirada e respeitada, e depois há quatro partes, igualmente diferenciadas por números: 1 (22 composiçons), 2 (22 composiçons, diferenciando 11 sob a letra “A” e outras 11 com o “B”), 3 (27 composiçons, das quais 16 numeradas) e 4 (28 composiçons). E neste poemário de 1984 encontramos umha única epígrafe, mas muito significativa: De Fermim Bouça-Brei (“Se a seitura é cativa,/ foi-vos muito o sonhar”), um produtor de poesia pioneiro no século XX entre os Galegos que editárom em Portugal segundo o cánone ortográfico do Sul do Minho.
Na análise de Cecais hai unha luz há ainda há mais assuntos que nom se deveram deixar de lado quando se esteja em condiçons5 de estudar a Obra Completa de Manuel Maria. Um dos importantes é o tempo em que elabora este produto: nos inícios dessa década de 70 do século XX, mais em concreto em Janeiro e em Maio de 1972, o Poeta da Terra Cha publicou dous produtos, 99 Poemas e Odes num Tempo de Paz e de Alegria, na editora Razão Actual do Porto; e dez anos mais tarde, em 1982, Versos do Lume e o Vaga-lume, na Galiza Editora de Ourense.
Portanto, poderá nom ser descabida a hipótese de que essa Luz que o Poeta questionava em 1979 fosse afinal a Luz do Reintegracionismo da língua da Galiza, um Reintegracionismo a favor do qual se posicionou claramente, como é bem conhecido, em instantes da sua vida.
A ediçom deste belo poemário que agora, com acerto, inaugura a preciosa colecçom da Fundaçom Manuel Maria resulta, pois, como também com acerto assinala Camilo Gómez Torres, singular. É um poemário redigido num tempo político de mudança. Num esperançoso 1979. A entrevista a que se refere Gómez Torres, e segundo ele próprio indicou no lançamento de Cecais hai unha luz, foi realizada nas Jornadas do Ensino celebradas em Ourense, em que Manuel Maria tivo encontro com docentes que nelas participavam. Quiçá (“cecais”) Manuel Maria, que estava na vanguarda política e cultural, era conhecedor privilegiado de que o Governo da Junta da preautonomia da Galiza ia intervir na questom do idioma ao encomendar, a umha Comissom presidida por Ricardo Carvalho Calero6, umha proposta ortográfica para a escrita da língua da Galiza. Umha língua que se ia geralizar, com efeito, no ensino, com o que isso representaria também de benefício para os produtores que, como Manuel Maria, levavam muitos anos de luita almejando esse objectivo.
2.- Tempo de elexía, “Autopoética” e autotraduçom de um Novoneyra reintegracionista, junto com um recital inédito
Umha das novidades mais valiosas publicadas com ensejo de se ter dedicado o Dia das Letras Galegas de 2010 a Uxío Novoneyra é este volume7, umha ediçom bilingüe galego-castelhana com autotraduçom do autor. Inclui CD com um recital de 1982-1983 num centro de ensino de Lugo, gravado na altura polo agora empresário da editora, Henrique Alvarellos, “debidamente remasterizado e digitalizado”, segundo ele próprio esclarece na “Nota do Editor” (pp. 7-8). Também inclui umha “Autopoética”, em que juntam diversos textos em que Novoneyra se refere à sua produçom literária e a como concebia a mesma, com parte do texto inédito, segundo afirma o editor na mesma nota introdutória.A ediçom realizou-se “ao coidado de Elba Rei”.
Na “Autopoética” o autor afirma que principiou a produzir literatura nos inícios da década de 50 do século XX (1951-19538), quando tinha pouco mais de 20 anos. Há poemas redigidos até 1966, em que publicou o seu primeiro livro, em Madrid. Parte das composiçons encontram-se datadas, as últimas entre 1961 e 1966.
Datado em 1961, lemos o seguinte verso-poema (p. 82, com traduçom sem datar na p. 83)
Non podo non ser nin ser así!
Naquela altura, em 17 de março de 1961, e assinado como “Eugenio Novoneyra”, publicou-se no jornal El Progreso, de Lugo, a resposta deste autor a um inquérito elaborado por Á. Fole entre pessoas da cultura e da literatura da Galiza, e publicada como “Parlamento de las Letras Gallegas”9. Nesse escrito, entre outros assuntos de interesse, escreve Novoveyra (maiúsculas dele, segundo se encontram reproduzidas no jornal): “SEMPRE É OPORTUNO FACER O QUE NUNCA SE FIXO. Mais niste caso conven fixar moi estriutamente os temas. Millor ainda sería cinguirse a un soio tema: a reforma ortográfica. Débese de adoutar a ortografía portuguesa –dentro das lindes en que non seia menester atentar contra a nosa peculiaridade— o que dun golpe multipricaría por vinte o número potencial de lectores do libro gallego e situaría a nosa cultura no seu xusto e máis comprido espacio: Galicia, Portugal i o Brasil, un dos estados que poden erguerse no futuro con exemonía mundial”. E, justamente, umha das frases seleccionadas polo jornal na manchete é “Debe ser adoptada la ortografía portuguesa”. Parece evidente que o autor (a quem, por certo, Ernesto Guerra da Cal dedicará em 1963 o poema “Onte de côr i-auga”, de Rio de Sonho e Tempo) defendia um posicionamento reintegracionista.
Naquele ano de 1982 em que Novoneyra oferecia o seu recitado destes poemas ao alunado de Lugo, agora felizmente recuperado pola editora Alvarellos, iniciava o seu andamento a Associaçom de Escritores em Língua Galega. Até à morte, em 1999, este autor presidiu por sete vezes a directiva dessa entidade, e demonstrou respeito por todas as opçons ortográficas. Isso esclarece o facto de que, na homenagem que se preparou na sua honra quando já próxima a sua morte participassem vários representantes do Reintegracionismo.
Nom foi esta atitude de Novoneyra a mais salientada precisamente na efeméride das Letras Galegas em sua honra, e bem que é merecernte de um posto de destaque, sobretodo perante certas atitudes que se observam hoje.
Nesta primavera de 2010, alunado de outro centro de ensino de Lugo, o Porta da Auga de Ribadeu, ganhou um concurso convocado com ensejo do Correlingua. E escolheu como título desse trabalho um verso de Novoneyra, igualmente incluído neste volume, aquele final do poema “Do Courel a Compostela”, composiçom datada em 1957, e em que Novoneyra escreveu:
Non, a forza do noso amor non pode ser inutle!
Ele mantivo essa escrita em posteriores revisons do poemário. Agora, as/os estudantes mudárom a última palavra e em lugar de “inutle” escrevem “inútil”, e assim divulgárom aquele poema nas 14 celebraçons da prova do Correlíngua na Galiza.
Muitos temas, formulaçons e posicionamentos do maior interesse neste ano 2010 se podem tirar da muito recomendével leitura deste volumen tam cuidadosa e belamente editado: que é umha literatura e como funciona, como se edifica umha língua, as diferentes posiçons ocupadas polos escritores e a conseqüência das mesmas…
3.-Conclusom
Manuel María e Uxío Novoneyra tivérom muito relacionamento pessoal e de amizade em vida. Umha demonstraçom pode-se encontrar na própria página web da Fundaçom Manuel Maria, que promociona os dous produtores. Também os dous tivérom relacionamento com o Reintegracionismo de muito interesse nas suas intensas trajectórias.
Nom é este relacionamento o que mais se destaca deles, precisamente: antes polo contrário, há a quem lhe parece incómodo e por isso o secundariza, mesmo se oculta. No entanto, esse relacionamento evidencia a complexidade de duas personalidades extraordinárias, que tenhem o seu lugar na História da Literatura Galega do século XX. Umha história também complexa, como a vida de qualquer pessoa e muito mais de um povo, e particularmente da Galiza.
Aceitar essa complexidade, assumir e tentar esclarecer os seus resultados com seriedade e rigor, e tirar liçons, dela permitirá porventura avançar mais que nom querer negá-la e/ou adaptá-la para umha história mais ou menos cor-de-rosa, e à medida de situaçons também mais ou menos concretas e de limitado relevo.
Compostela, Maio de 2010.
Notas:
1 Manuel Maria, 2010, Cecais hai unha luz, Fundación Manuel María de Estudos Galegos, A Corunha (ed. patrocinada pola Deputaçom Provincial da Corunha), 56 páginas.
2 O único senom que se lhe pode colocar a esta valiosa informaçom de Camilo Gómez Torres é quando afirma (p. 6) que este produto “non lle interesou a ningún editor” mas que Manuel María “tiña interese na súa publicación” como o demonstra, na opiniom de Gómez Torres, o facto de que desse à estampa algumhas das composiçons em A Nosa Terra, Anto ou Serta. É de supor que Manuel María tivo oportunidade de publicar esse poemário. De facto, e por colocar um exemplo disto: quando em 1984 editou A luz ressuscitada bem pudo escolher aquele título anterior, pois a editora Agal nom ia contrariar a sua vontade. Haverá, portanto, que procurar outras possíveis explicaçons da sua decisom de preterir a ediçom deste poemário.
3 Manuel Maria, 1984, A Luz Ressuscitada, A Corunha, Associaçom Galega da Língua (Agal), número 1 da colecçom “Criaçom”, com “Carta-Prefácio” de António Gil Hernández (pp. 5-22), 141 páginas.
4 Em concreto na composiçom intitulada “O poema” (p. 83), em que lemos:
O poema é um ser vivo que anda,
suspira, sonha, chora, salouca,
ama, berra, cintila e escurece,
cala, aborrece a mentira,
sente ódio e ternura, dessangra-se,
fala de intimidade a intimidade
coas cousas e coa gente, sugere
mundos possíveis e imposssíveis,
sua, cansa, sofre sede e fame,
adoece, agoniza. E nunca morre.
5 Na badana de Cecais hai unha luz afirma-se que este livro se encontrava “Entre as obras de Manuel María aínda non publicadas”, e nom se indica quantas há, mas faz pensar que poda haver várias, polo que será interessante conhecer inteira a colecçom das mesmas para fazer análise do seu conjunto.
6 A respeito da elaboraçom dessa pioneira normativa ortográfica encomendada polo poder político galego, vale a pena a leitura da documentaçom redigida polo próprio Carvalho Calero e que se encontra no número 2 da revista Agália.
7 Novoneyra, Uxío, (2010), Tempo de elexía, Alvarellos, Santiago de Compostela, 121 páginas. Ediçom bilingüe galego-castelhana com autotraduçom do autor. O livro inclui-se na colecçom “Rescate”, que apresenta neste volumen umha novidade que merece ser referenciada: a colecçom conta agora com umha Directora (da Univ da Corunha); e um Comité Científico integrado por docentes das universidades de Coimbra, Santa Bárbara (Califórnia), Roma (La Sapienza), New Zealand e Cardiff.
8 Em “Madrid, 1951” encontra-se datado “A folla do poema” e a sua correspondente traduçom para castellano. Há poemas cuja versom galega e a traduçom tenhem a mesma data, o que faz pensar que os redigiu na altura em ambas as línguas; outras vezes só está datada a versom galega mas nom a traduçom. Em todo o caso, no início da “Autopoética”, num texto procedente de um “manuscrito inédito, sen data” segundo se informa em nota de rodapé (p. 11), Novoneyra data “A folla do poema” em 1957. Esta dataçom, seis anos posterior, justificaria que o tempo das primeiras composiçons seja “(1953-1965)”, como se assinala nas pp. 18-19. É claro que, de acreditarmos na dataçom em 1951, na realidade teria de ser, em todo o caso, “(1951-1965)”.
9 Este texto encontra-se reproduzido fac-similarmente na revista Agália, nº 24 (Inverno, 1990), p. 491. A respeito desse trabalho jornalístico de Fole, pode consultar-se o volumen de María Xesús Amado Silvar intitulado Ánxel Fole. Parlamento de las Letras Gallegas. 1961, publicado em 1995 pola editora O Castro, onde se encontram todas as respostas e também se reproduz esta de Novoneyra.
